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O mercado global de renda fixa atravessa uma das fases mais intensas de realocação dos últimos anos, impulsionada por cortes de juros que vêm ocorrendo simultaneamente em diversas economias desenvolvidas e emergentes.
A combinação entre encerramento de ciclos de aperto monetário, volatilidade na ponta longa da curva e fundamentos ainda resilientes tem criado um ambiente dinâmico — e desafiador — para investidores.
Essa é a leitura de duas das maiores gestoras de renda fixa do mundo, que participaram do XP Global Conference 2025. Elas enxergam um cenário de oportunidades, mas defendem posicionamento defensivo diante de spreads apertados e incertezas macroeconômicas.
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Segundo Isabella Nunes, diretora comercial do JP Morgan Asset Management no Brasil, o momento atual é bem diferente dos últimos anos. Ela explicou que não é mais aquela busca desenfreada por qualquer ganho fácil do mercado.
Agora, segundo ela, a ideia é garimpar ganhos mais específicos, conseguir um bom rendimento de forma atraente, mas sempre de olho nos riscos.
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Enquanto isso, Luiz Oliveira, vice-presidente executivo da PINCO para América Latina e Caribe, reforça que, mesmo em compasso defensivo, o ponto de partida da renda fixa global é excepcionalmente favorável.
“Você pode ter portfólios com alta qualidade, com carregos de 6% a 6,5%. Os yields iniciais estão extremamente elevados”, disse.
Gestoras destacam fundamentos resilientes e preferência por qualidade
Com mais de US$ 4 trilhões sob gestão global — sendo US$ 2,4 trilhões alocados entre renda fixa ativa e caixa — o JP Morgan tem adotado uma postura de maior cautela no segmento de high yield. Isabella explica que o time hoje privilegia qualidade de crédito. “É um mercado positivo, mas de forma defensiva”, afirmou.
A PIMCO, que administra US$ 2,1 trilhões globalmente e possui 54 anos de história, também reforça o foco em gestão ativa. Oliveira lembra que a gestora estrutura estratégias a partir de quatro pilares: risco, longo prazo, gestão ativa e diversificação de fontes de retorno.
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Para ele, duration volta a ser peça-chave das carteiras internacionais, sobretudo num ambiente de cortes de juros já contratados. “Você só captura apreciação de capital se estiver posicionado”, disse.
Ele também destacou o comportamento inverso entre ativos de risco e títulos de alta qualidade nos EUA — movimento que, segundo ele, pode proteger o investidor brasileiro em cenários adversos.
Os comentários foram feitos no painel Caminhos para a Renda Fixa Global, durante a Global Conference 2025, mediado por Clara Sodré, analista de fundos da XP.
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Juros, volatilidade e tarifas: como a nova curva redesenha o high yield
A forte mudança nas expectativas de juros ao longo do ano — que saiu de uma previsão de um único corte para projeções de cinco a seis reduções — alterou profundamente as dinâmicas de crédito. Isabella ressalta que, apesar dos choques, o mercado mostrou forte resistência.
“O mercado de high grade sobe próximo de 7% no ano, e o de high yield um pouco acima disso. Os mercados foram super resilientes”, afirmou. Para ela, a leitura macro do JP Morgan segue ancorada em continuidade do crescimento, ainda que abaixo da média histórica.
No cenário central da casa, há 65% de chance de manutenção desse crescimento moderado, 20% de chance de aceleração, 10% de recessão e apenas 5% de crise. “É difícil ver um cenário muito negativo para o high yield quando o consumidor segue forte e as empresas continuam investindo”, completou.
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Isabella também relembrou a turbulência gerada pelo tarifaço, quando spreads se abriram com força, mas voltaram a se acomodar à medida que as economias se ajustaram ao novo patamar de tarifas — o maior em um século.
PIMCO aposta em cortes até 2026 e vê dólar mais fraco à frente
A PIMCO compartilha a leitura de continuidade do ciclo de cortes, sem trabalhar no cenário base com recessão nos EUA. “Entendemos que as taxas terminais devem chegar a 3% no fim do ano que vem. Há espaço para cortes”, afirmou Oliveira.
A gestora também mantém cautela com crédito corporativo — tanto high yield quanto investment grade — por considerar os spreads apertados demais para o risco atual. A alternativa preferida segue sendo a renda fixa de alta qualidade com duration mais longa.
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Em moedas, a casa projeta enfraquecimento do dólar frente a uma cesta global, com preferência por algumas divisas emergentes. “De forma geral, estamos defensivos, mas com uma oportunidade enorme à frente”, disse.
Ele lembrou ainda que, diferentemente de dez anos atrás, quando os juros globais eram próximos de zero, hoje a renda fixa internacional compete de forma mais equilibrada com o retorno doméstico. “Você consegue montar portfólio com 6% ou 6,5% lá fora. A comparação com o Brasil fica mais fácil”, afirmou.
