Colunista InfoMoney: Princípios e Negócios

Escala e princípios em certo momento encontram seus próprios limites; há dúvidas sobre grandes produtores e espírito dos orgânicos
No dia 21 de fevereiro iniciou-se em Nürnberg, na Alemanha, a Biofach 2008, uma das feiras de produtos orgânicos mais significativas no mundo. Esta Feira conta com um memorável histórico que espelha a introdução de um novo conceito na cadeia alimentar e de bem-estar nas sociedades. Já se vão dez anos de Biofach, chegando a oferecer a 44.000 visitantes produtos sofisticados em mais de 2.000 estandes; por trás disto há um negócio de 40 bilhões de dólares em termos mundiais. Algo que começou pequeno, impulsionado por um movimento de idealistas, rapidamente se transformou em preferência de público consumidor cativo e esporádico, que levou os produtos orgânicos de pequenos sítios a grandes fazendas, em escala mundial.

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Se de início havia a oferta de frutas e verduras cultivadas em ambientes naturalistas, atualmente os produtos variam de sofisticados peixes e vinhos, até produtos de higiene e cosméticos de grande valor agregado, em sofisticadas embalagens de cadeias especializadas.

Na linguagem européia os supermercados passaram rapidamente a comercializar os produtos “bios” – subentendam-se saudáveis – em gôndolas especiais com crescente demanda. De um ano a outro, em termos globais, houve crescimento entre 15% até 20%. Levantamentos mostraram que, a exemplo da Alemanha, existe uma minoria de consumidores (menos de 10%) que consome apenas produtos orgânicos, enquanto aproximadamente 20% os consomem com certa regularidade. Os consumidores que já consumiram produtos orgânicos chegam a 80%, enquanto os que não consomem chegam a 20%. Os consumidores esporádicos são o grupo alvo que vem evoluindo, dando a este setor um vigoroso crescimento.

“O movimento dos orgânicos foi ultrapassado por seu próprio sucesso”

Deve-se considerar que, se a cada ano houver um crescimento entre 6 a 8 bilhões de dólares de produtos “bios”, a escala de produção fica cada vez mais global. A dificuldade de encontrar produtos em maior escala foi a tônica geral desta feira, porque a necessidade de suprir os mercados requer um intenso trabalho para assegurar a qualidade exigida pelas certificadoras.

Não é de se surpreender que falhas existam e, em escala evidentemente maior, o que deixa os pequenos produtores conscientes de sua filosofia, fora de si. Foi de grande interesse acompanhar, na abertura, a questão central colocada pelo presidente da IFOAM, Gerald Hermann, para que os novos players no negócio do agribusiness orgânico se lembrem do espírito que norteou o movimento dos orgânicos desde seu início. Ou seja, dúvidas foram colocadas sobre produtores de grande escala e sobre novos países, que não estavam atendendo aos princípios que regem a produção de orgânicos, o cuidado nas origens e a transparência total nos procedimentos.

A questão se coloca para a IFOAM entre os antigos e novos, ou fast business e superficialidade, ou talvez até entre eficazes e produção artesanal? Não se quer impedir o crescimento de um lado, difícil será atender a esta demanda com os métodos tradicionais de produção.

O label organics se torna um selo de qualidade, inclusive de produtos não transgênicos. Aqui se inicia na verdade um debate mais filosófico que científico tanto no uso de insumos e proteção quanto pela variação transgênica ou não. Para ampliar ainda mais esta complexidade existem, em forma crescente, os produtos naturais, por exemplo, a pesca tanto de água doce quanto de mares, simbolizando produtos fora do controle alimentar, mas naturais pelo ambiente no qual vivem.

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A nova categoria de produtos que entra no mercado é a dos “sustentáveis”, que são certificados pelo respeito à sustentabilidade social e ambiental, mas não necessariamente são orgânicos.

Escala e princípios em certo momento encontram seus próprios limites. O debate sério iniciado nesta Biofach demonstra que o movimento naturalista ou orgânico atingiu plenamente seu objetivo, ou seja, a adesão de milhões de consumidores aos seus produtos. Porém, com o volume atingindo escala mundial, o suprimento destes produtos se torna difícil para os tradicionais produtores na Europa e, outros competidores, em melhores condições, lhes impõem severa competição.

É provável também que nesta escala ocorram falhas, colocando a credibilidade dos produtos orgânicos em cheque. O Brasil tem apresentado uma nova legislação para os produtos orgânicos passíveis de serem certificados por organismos internacionalmente reconhecidos. O rigor deste atendimento deverá ser cada vez maior, quando nossa competitividade crescer. Crescer organicamente e seriamente neste mercado pode ser uma enorme chance para o Brasil, desde que mantenha norteada sua seriedade quanto aos critérios exigidos na produção.

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O movimento dos orgânicos foi ultrapassado por seu próprio sucesso. Isto nos faz lembrar os partidos verdes que, pelo sucesso de suas campanhas, acabaram vendo suas teses sendo encampadas por outros partidos maiores.

Crescente negócio é bom, melhor ainda será se mantiver os princípios e valores intrínsecos de seus produtos em alta consideração frente ao seu consumidor, que está pagando um preço maior para ter um produto mais saudável.

Ingo Plöger é empresário, coordenador do 1º Fórum de Líderes em Sustentabilidade e presidente da IP Desenvolvimento Empresarial Institucional – especializada em negociações internacionais – e escreve mensalmente na InfoMoney, às sextas-feiras.
ingo.ploger@infomoney.com.br