Commodities: próxima bolha ou novo padrão de comportamento?

A recente alta expressiva das commodities somada a um quadro de recessão nos EUA impõe desafio para o mercado

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SÃO PAULO – Até agora, o comportamento do preço das commodities parece desafiar o padrão do ciclo econômico das últimas décadas. Ao invés de acompanhar o aperto no mercado de crédito e a desaceleração da economia norte-americana, os preços de matérias-primas estão em franca ascensão e batendo sucessivos recordes. “Seria essa a terceira bolha após o mercado imobiliário e de ações?”, pergunta o Royal Bank of Scotland em estudo divulgado nesta segunda-feira (17).

O cenário de incertezas em mercados mais maduros e a perspectiva de recessão nos Estados Unidos têm desviado recursos para os países emergentes e principalmente em commodities – consideradas seguras diante deste contexto. Além disso, com a entrada massiva de dólares em outras economias, as moedas locais estão em alta em relação à moeda norte-americana.

Câmbio

“Dessa forma, o preço internacional das commodities sofre um reajuste para cima de maneira a compensar a diferença cambial”, explica Antonio Madera, economista da MCM Consultores. Na opinião de Madera, os problemas enfrentados pelos EUA e a tendência de afrouxamento monetário no país devem manter a moeda norte-americana desvalorizada e contribuir para o patamar elevado dos preços das commodities. “Mas vale ressaltar que estas relações são complexas, e uma possível retração da maior economia do mundo pode acarretar em menor demanda mundial”, enfatiza o economista.

Ao contrário de Madero, Chau Kuo Hue, economista da consultoria LCA, espera estabilidade do dólar em relação ao euro neste ano. Sob este ponto de vista, Chau acredita que a demanda mundial irá prevalecer como ponto fundamental para o desenrolar da alta das commodities em 2008.

Metálicas

Chau projeta queda no preço de todas as commodities, porém com médias superiores às praticadas em 2007. Para as metálicas, Chau prevê um reflexo do desaquecimento do setor imobiliário, principalmente na Europa “O setor de construção deve se desacelerar e assim demandar menos materiais como aço e cobre”, explica.

Petróleo e agrícolas

Quanto ao petróleo, cujo preço no mercado de Nova York já ultrapassou US$ 110, o economista explica que os aumentos são mais especulativos do que reais. “A partir de abril deve haver um recuo, mas, logo em junho, início do verão no hemisfério norte, haverá uma nova correção dos preços, e o que veremos será o petróleo negociando acima do nível do ano passado”, detalha Chau.

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Para as commodities agrícolas, a expectativa é de que os efeitos sazonais provoquem uma correção dos preços, “que hoje estão inflados”, avalia Madero. Entretanto, a média de valor destas matérias-primas também deve superar a média averiguada no ano passado, segundo as projeções da LCA.

Demanda dos emergentes

Quanto a um possível agravamento da situação econômica dos EUA, Chau comenta que “o mercado de commodities mudou. Os EUA já não são os maiores consumidores do mundo. O peso de emergentes no cenário atual contrabalanceia eventuais perdas originárias de uma diminuição das compras dos EUA”.

Por outro lado, mesmo admitindo que “um novo equilíbrio para o ciclo das commodities é difícil de prever”, o RBS prevê reflexos da crise global de crédito no mercado de matérias-primas. O banco afirma que, se a demanda dos países emergentes continuar forte, pressões inflacionárias aparecerão como motivo para que os governos locais cortem subsídios, forçando produtores a diminuir preços. Além disso, qualquer sinal de recuo nos preços pode desencadear a venda massiva de contratos por parte de fundos, que voltarão a investir em títulos de renda fixa, acredita o RBS.