Colunista InfoMoney: Decoupling or not decoupling, eis a questão

<div class="select">Por Ivo Chermont</div> O que explica o fato dos índices de confiança nas principais economias do mundo estarem em xeque e, ao mesmo tempo, os preços dos insumos se encontrarem em alta?

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Há pouco tempo, a ameaça de crise econômica nos principais blocos econômicos derrubava os preços das commodities, tanto agrícolas quanto metálicas. Em 1990, quando os EUA entraram em recessão, o preço do petróleo caiu 56% em três meses. Hoje, a dinâmica econômica parece ser um pouco diferente.

Na página A11 do Valor Econômico do dia 12 de dezembro de 2007, lê-se três manchetes: “Consumo menor deve derrubar PIB dos EUA”, “Investidor alemão mais pessimista” e “Confiança no Japão é a pior desde 2003”. Ao mesmo tempo, o preço de uma das principais commodities metálicas, o ouro, subiu 12,5% no trimestre. As principais cotações das matérias agrícolas, soja e trigo, se elevaram em 20,7% e 9%, respectivamente. O valor do barril do petróleo (tipo WTI), por sua vez, avançou em torno de 23% no mesmo período. Essa não é uma tendência recente. Nos últimos dois anos, o preço médio das commodities metálicas, por exemplo, subiu 28%. Choque de oferta ou mudança no padrão de demanda?

O que explica o fato dos índices de confiança nas economias americanas, japonesas e européias estarem em xeque e, ao mesmo tempo, os preços dos insumos se encontrarem em alta? O que mudou nos últimos anos na economia global? Um bom palpite seria o papel dos emergentes na demanda mundial. Os asiáticos expandiram a demanda por commodities de forma nunca antes vista. A China, em particular, teve um desempenho extraordinário, refletido em sua balança comercial, com explosivo crescimento das importações de commodities agrícola, petróleo, alimentos, dentre outros. Em 1993, por exemplo, a China consumia entre 7%-10% do total mundial de metais básicos. Dez anos depois, este número já está entre 20%-25%.

“Caso a recessão bata a porta do americano, o resto do mundo seria tragado. Porém, em menor intensidade que outros momentos da história”

Uma pergunta relevante é: essa organização econômica é sustentável? Ou seja, será possível um sistema em que os desenvolvidos se enfraquecem e os emergentes se mantêm pujantes por um longo tempo? Uma segunda questão, derivada da primeira, seria: a inflação de alimentos, energia e commodities veio pra ficar, mesmo com os principais blocos econômicos sob ameaça de desaceleração mais forte?

Os parâmetros são novos, inéditos e, portanto, dificilmente há hoje um modelo econométrico que seja capaz de responder a tais questões. Nem mesmo em experiências passadas, normalmente importantes para estudos estatísticos, encontraremos comprovações empíricas deste tipo de evento para os policymakers.

Os defensores do decoupling argumentam que os emergentes desenvolveram bases econômicas sólidas, depois da sucessão de crises no final da década passada, com superávit em conta corrente e grandes reservas internacionais. Assim, uma redução do crescimento dos desenvolvidos não tem força suficiente para derrubar esses pilares. Por outro lado, os defensores da velha ordem econômica salientam que o superávit em conta corrente dos países emergentes é apenas o outro lado da moeda do alto padrão de consumo estabelecido, principalmente nos EUA. Com a reversão dessa tendência, as moedas voltariam a se desvalorizar, o equilíbrio externo voltaria ao terreno negativo, a economia perderia força e a demanda por commodities seguiria a mesma toada.

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Acreditamos na força centrípeta da economia americana que compõe 25% da mundial. Isso sem falar no Japão e na Alemanha, que ainda representam a segunda e terceira forças mundiais em termos econômicos. Mas, sem dúvida alguma, a impressão que fica é que a elasticidade das exportações dos emergentes asiáticos em relação à atividade americana reduziu-se dramaticamente. E fica claro que o que causou tal inflexão nessa trajetória foi o surgimento da China como força importadora e produtora de bens intermediários e finais. Em resumo, continuamos defendendo a tese de que, caso a recessão bata a porta do americano, o resto do mundo seria tragado por essa força superior. Porém, a intensidade seria menor do que a observada em outros momentos da história.

Portanto, enquanto a China não completar seu estágio de desenvolvimento, com forte crescimento da poupança e investimento e crescente produtividade, seus vizinhos poderão usufruir um pouco mais de prosperidade por um pouco mais de tempo.

Ivo Chermont é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney, às terças-feiras.
ivo.chermont@infomoney.com.br