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No último dia 25, a Samuca TV anunciou Fabrício como novo comentarista das transmissões em áudio dos jogos do Cruzeiro. As análises do ex-jogador, com passagem marcante pela Raposa, também estarão disponíveis no Central da Toca, o portal de notícias fundado no início deste ano.
O ex-meio-campista também terá presença fixa no “Loucos Pelo Cruzeiro”, programa exibido às segundas-feiras, às 19h30, que já conecta de sete a oito mil cruzeirenses simultaneamente no YouTube. Segundo Samuel Venâncio, é uma audiência imbatível no horário.
Venâncio é o jornalista por trás da Samuca TV e do Central da Toca: uma estrutura 100% voltada para a cobertura do Cruzeiro.
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No início de julho, ao lado de Thiago Valu e Alberto Rodrigues, ele comandou as transmissões com imagens dos amistosos do time mineiro na Vitória Cup. Ao todo, as quatro exibições realizadas diretamente de Vitória (ES) superaram 1 milhão de visualizações no YouTube.
Em um ano de existência, foi a primeira vez que o canal conquistou os direitos para exibir uma partida completa. Para isso, Venâncio precisou recorrer à própria poupança.
Foram quatro cotas vendidas (KTO, Precato, MBrisa Motors e Ancho Catering), e o projeto se pagou, porém sem gerar lucros.
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“Vejo isso como um investimento. E os números mostram que colocamos o nome no mercado das transmissões”, comentou o jornalista em entrevista à coluna.
Se os amistosos não foram rentáveis, o modelo se sustenta com monetização do YouTube e parceiros comerciais. E já é uma operação relevante: são 23 colaboradores diretos (todos cruzeirenses, pré-requisito obrigatório) e cobertura in loco em todos os jogos do time, com até três profissionais destacados.
“Fechamos bem a conta, apesar do alto custo.”
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Após duas passagens como setorista da Rádio Itatiaia ao longo de 12 anos, Venâncio deixou a emissora em abril de 2022 para apostar no digital. Pouco mais de três anos depois, ele é a prova de que criadores podem se tornar a própria mídia.
Essa transição acompanha um movimento maior: a crescente consciência dos limites da dependência de plataformas tradicionais.
Enquanto o discurso dominante gira em torno do marketing de influência e da monetização algorítmica, uma contra-tendência está redesenhando o cenário da mídia digital.
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Como aponta o insider Carlo De Marchis, criadores de alto desempenho têm desenvolvido canais próprios em paralelo ao YouTube, Twitch e TikTok, lançando aplicativos, serviços de streaming e soluções D2C como formas complementares de receita.
E a Samuca TV é um exemplo local e sustentável de uma nova etapa dessa transformação.
Da cobertura setorial ao estúdio de mídia
Em cerca de dois meses, a Samuca TV terá seu próprio estúdio no bairro Liberdade, em Belo Horizonte. A estrutura comportará três cenários.
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Hoje, os programas são gravados dentro da produtora Z2 Comunicação, que também executa as transmissões ao vivo. O plano é ousado: programação 24 horas dedicada ao Cruzeiro.
Um aplicativo do Central da Toca com atualizações em tempo real e sinal ao vivo da Samuca TV também está em desenvolvimento.
Inevitavelmente, a CazéTV é citada por Venâncio como inspiração. Mas há diferenças importantes: enquanto o canal de Casimiro conta com a LiveMode como sócia — e tem o braço de uma agência especializada na compra de direitos —, a Samuca TV é 100% operada por Venâncio e sua equipe.
O ponto de virada, como resume Anthony McGuire, é quando criadores passam a tratar seu conteúdo como inventário, e não apenas como produção. Isso significa construir catálogos, desenvolver formatos proprietários, planejar estratégias de licenciamento e verticalizar operações. Ou seja, comportamentos típicos de um estúdio de mídia.
Alcance de nicho, ambição de mercado
Desde o lançamento, no início de 2022, a Samuca TV saltou de 90 mil para 436 mil inscritos no YouTube. O Central da Toca superou 10 milhões de views com apenas seis meses no ar.
Outros dados relevantes:
- Mais de 190 mil seguidores nas mídias sociais (Twitter, TikTok, Facebook, WhatsApp e X)
- Média de 50 milhões de visualizações e engajamento de 10%, cinco vezes acima da média do mercado
- Em julho, 38,8% da audiência assistiu aos conteúdos pelo canal da Samuca TV
- Em 2025, as transmissões ao vivo já ultrapassaram 25 milhões de views no YouTube
Segundo pesquisa recém divulgada pelo Globo/Ipsos-Ipec, o Cruzeiro tem a 7ª maior torcida do Brasil, com 2,3% do total de torcedores nacionais. O Estadão estima em 13 milhões o número de cruzeirenses no país.
Nesse contexto, a Samuca TV já alcança 3,4% desse público: um marco relevante para um canal independente, mas é o suficiente para bancar a compra de direitos em escala?
Venâncio diz que já pensou sobre o alcance, sonha, porém os valores inviabilizam no momento: “Hoje, com recursos próprios, não é possível.”
O criador como operador de mídia
O futuro pode mudar essa equação. Segundo McGuire, criadores bem posicionados tendem a seguir dois caminhos: virar fornecedores para plataformas maiores ou construir suas próprias redes, com controle total sobre dados e distribuição.
Há duas semanas, mostrei aqui por que a guerra pelos direitos de transmissão mais valiosos do esporte global transformou-se no novo oeste selvagem da mídia. Relatos obtidos pela Puck Media no fim do mês passado confirmam o cenário mais desafiador da história para fechar contratos, o que explica a corrida por modelos alternativos.
Barrick Prince, ex-chefe de conteúdo esportivo original da Twitch, diz que o esporte ao vivo está atrasado para a festa interativa e corre o risco de alienar uma geração condicionada a fazer parte do programa.
Em entrevista recente ao Long Game, do SportsBusinnes, Prince defende que estamos em uma economia centrada no espectador: “Os fãs não querem mais ser plateia passiva. Eles querem fazer parte do show”.
Sua aposta? Uma nova categoria de direitos: os social creator rights.
Com sua Creator Sports Network, Prince quer levar jogos para Twitch, Kick e outras plataformas via parcerias com streamers. A lógica é tornar a transmissão mais parecida com Kai Cenat do que com o clássico “Match of the Day”.
Enquanto Prince leva a proposta a detentores de direitos nos EUA, Europa e Ásia, o Brasil já consolida um modelo único de transmissão que converge esporte, interatividade e cultura digital.
Na conversa publicada com Prince, o jornalista Callum McCarthy resume com precisão por que a CazéTV representa um fenômeno tipicamente brasileiro. Aqui, três fatores criaram o terreno perfeito:
- O colapso acelerado da TV por assinatura tradicional
- A ascensão do free-to-air e streaming como principais canais de consumo
- A disponibilidade de conteúdo premium para novos entrantes, já que emissoras convencionais reduziram suas aquisições
Este cenário contrasta radicalmente com o mercado europeu, onde:
- A TV paga linear ainda domina o faturamento esportivo
- Os mercados publicitários são fragmentados por barreiras linguísticas
- Modelos inovadores enfrentam resistência institucional
Casos replicáveis, lógica escalável
Em maio, o britânico Tim Cocker — do EggChasers Rugby Podcast — comprou os direitos de transmissão da Pro D2 (segunda divisão francesa de rúgbi) para o Reino Unido e Irlanda.
O canal FR-UK Rugby, que fundou ao lado do ex-jogador Joe Worsley, transmitirá os jogos gratuitamente no YouTube, com destaques e análises exclusivas.
Nick Meacham, da SportsPro Media, comparou o movimento ao que acontece no Brasil com a CazéTV, mas em menor escala e com foco em comunidades de nicho.
O especialista Carlo De Marchis sintetiza bem o contexto: sempre que as emissoras tradicionais ignoram conteúdos por considerá-los “muito nicho”ou “comercialmente inviáveis”, criadores enxergam oportunidades, democratizando o acesso aos direitos que antes eram de domínio exclusivo dos conglomerados de mídia.
A era dos micro-broadcasters
A Samuca TV e o FR-UK Rugby estão inseridos no que De Marchis chamou de The Micro-Broadcaster Era.
Detentores de direitos com alcance limitado buscam acessibilidade; criadores com comunidade oferecem essa ponte. O custo de produção é mínimo em comparação com uma emissora tradicional.
O que muda agora é o amadurecimento do mercado criador. As plataformas oferecem ferramentas de monetização robustas: de anúncios a assinaturas e financiamento direto.
De Marchis mapeou a escalada dos criadores em quatro estágios:
- Estágio 1-2: monetização via Patreon, com crescimento orgânico nas plataformas
- Estágio 2-3: colaborações entre criadores com conteúdo complementar
- Estágio 3-4: criação de plataformas próprias, com independência total
- Multicamadas: uso simultâneo de plataformas públicas, canais pagos e experiências premium
Nem todo criador vai até o fim, mas a lógica da verticalização está posta.
Prince resume o fenômeno com uma frase definitiva: “Em algum momento, todo lugar vai se parecer com o Brasil.”