Análise: Resposta inicial do Irã a ataque parece calibrada para não ampliar conflito

Guarda Revolucionária lançou mísseis contra base americana no Catar, sem causar danos ou vítimas, 'replicando' ação similar realizada há cinco anos

Interceptação ocorre após as forças armadas do Irã anunciarem ataque com mísseis à base de Al-Udeid, no Catar, em 23 de junho de 2025. REUTERS/Stringer TPX IMAGES OF THE DAY
Interceptação ocorre após as forças armadas do Irã anunciarem ataque com mísseis à base de Al-Udeid, no Catar, em 23 de junho de 2025. REUTERS/Stringer TPX IMAGES OF THE DAY

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Menos de dois dias após os Estados Unidos atacarem instalações nucleares no Irã, em uma ação sem precedentes desde o estabelecimento da República Islâmica, a Guarda Revolucionária lançou mísseis contra a base de al-Udeid, no Catar, usada pelas forças americanas no Oriente Médio. A ação, que angariou críticas de nações árabes, não causou danos, e pareceu seguir o mesmo roteiro de uma retaliação semelhante feita pelo Irã aos EUA em 2020. Contudo, o cenário regional hoje é bem distinto, e o líder americano, Donald Trump, parece menos comedido do que naquela época.

Segundo o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, o país lançou o mesmo número de mísseis usados pelos EUA contra as instalações nucleares de Fordow, Natanz e Isfahã na madrugada de domingo (noite de sábado no Brasil). A noite de Doha, capital catariana, foi iluminada pelos rastros dos projéteis, e o barulho das explosões pós-interceptação assustou muitos moradores.

— Ouvimos estrondos enormes, o prédio tremeu, as janelas tremeram e, quando olhei para fora, o céu noturno tinha todas aquelas luzes voadoras — disse Mehran Kamrava, professor da Universidade Georgetown no Catar à rede al-Jazeera. — Havia bastante medo entre os moradores daqui.

Não foram registrados estragos em áreas civis ou instalações militares, incluindo al-Udeid. Segundo autoridades militares, em caráter de anonimato, os iranianos usaram mísseis de curto e médio alcance, que foram interceptados pelas baterias antiaéreas locais. Armas menos potentes do que as usadas nos ataques contra Israel desde o dia 13 de junho, ou bem menos destrutivas do que as bombas lançadas pelos americanos contra seu território.

Desde os ataques americanos no fim de semana, a República Islâmica se via diante da necessidade de uma resposta clara aos EUA, mas que evitasse a ampliação de um conflito que já impôs custos elevados ao país, e que pode ameaçar a continuidade do regime. Pelo menos até o momento, a saída parece ter vindo de um (quase) enfrentamento recente.

Em 3 de janeiro de 2020, os EUA, comandados por Trump, em seu primeiro mandato, assassinaram o chefe da Força Quds da Guarda Revolucionária, o general Qassem Soleimani, em Bagdá, usando um drone. Diante da morte de uma das mais populares figuras do país, o regime se viu obrigado a agir, mas com o mesmo dilema de hoje: dosar as forças para evitar uma escalada indesejável.

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Dias depois, mísseis iranianos caíram sobre uma base usada pelos americanos no Iraque, ferindo cerca de 100 militares e causando alguns estragos. Na ocasião, Teerã afirmou ter alertado as autoridades iraquianas sobre a iminência do ataque. O chefe de operações aeroespaciais da Guarda Revolucionária, Ali Hajizadeh (morto por Israel no dia 13 de junho), disse que a operação foi planejada para não deixar vítimas, e também para mostrar aos EUA que, caso assim decidissem, os projéteis poderiam causar “até 500 mortes”.

Um roteiro similar ao desta segunda-feira. Foi usado um número reduzido de mísseis (13), e tal como em 2020, as autoridades locais — o Catar — foram alertadas com antecedência, revelou o jornal New York Times, citando integrantes do governo iraniano. Ao mesmo tempo em que não atingem diretamente os americanos, o regime pode alegar que deu uma resposta aos EUA.

“A mensagem desta ação decisiva dos filhos de nossa nação nas Forças Armadas à Casa Branca e seus aliados é clara e direta: a República Islâmica do Irã, confiando em Deus Todo-Poderoso e apoiada pelo povo fiel e orgulhoso do Irã Islâmico, não deixará, em nenhuma circunstância, qualquer agressão à sua integridade territorial, soberania ou segurança nacional sem resposta”, disse a Guarda Revolucionária, em comunicado.

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Mas há outros elementos que antecederam o ataque de domingo e a retaliação desta segunda-feira. Na semana passada, quando Trump ainda não havia decidido (publicamente) sobre o bombardeio, os americanos restringiram o acesso a al-Udeid “por excesso de precaução”, e imagens de satélite mostraram que muitas aeronaves tinham deixado a base, localizada a pouco mais de 500 km do Irã. Para analistas, ações que sugerem algum grau de coordenação prévia, mesmo que indireta.

Isso não significa que a decisão não tenha seus riscos. As monarquias do Golfo, incluindo a Arábia Saudita, com quem Teerã tem relações marcadas pela desconfiança, chamaram o incidente de “flagrante violação do direito internacional e dos princípios de boa vizinhança”, e deixaram claro que não querem se ver em meio a uma guerra que, até o momento, não é delas.

E há o fator Trump. Há cinco anos, o presidente americano “aceitou” o ataque iraniano e escolheu não entrar em uma guerra. Em suas primeiras declarações após os mísseis lançados contra al-Udeid, ele chamou a reação de “muito fraca”, e agradeceu aos iranianos “por nos avisarem com antecedência, o que possibilitou que nenhuma vida fosse perdida e ninguém ficasse ferido”.

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“Talvez o Irã possa agora prosseguir para a Paz e a Harmonia na Região, e eu encorajarei Israel com entusiasmo a fazer o mesmo. Obrigado pela sua atenção a este assunto!”, concluiu Trump, em publicação na rede Truth Social.

Contudo, como tem demonstrado nos primeiros meses de seu novo mandato, Trump 2.0 é imprevisível e mais afeito a assumir riscos. Os bombardeios às instalações nucleares iranianas, por exemplo, vieram quando a Casa Branca demonstrava a intenção de conversar com Teerã. Uma mudança de posição sobre novos ataques ao Irã estaria a apenas uma publicação no Truth Social de distância.