Super Quarta: juros nos EUA em pausa e indefinição no Brasil jogam cortes para 2026

Nos EUA, os cortes podem começar já no fim deste ano, mas no Brasil as discussões sobre o IOF e as eleições devem manter os juros elevados, com reduções cautelosas ao longo de 2026, dizem economistas

Élida Oliveira

Os presidentes do Fed, Jerome Powell e do BC, Gabriel Galípolo (Montagem do InfoMoney/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil e REUTERS/Tom Brenner)
Os presidentes do Fed, Jerome Powell e do BC, Gabriel Galípolo (Montagem do InfoMoney/Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil e REUTERS/Tom Brenner)

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A nova política de juros do Brasil e dos Estados Unidos será definida nesta quarta-feira (18), o que é conhecido pelo mercado financeiro como Super Quarta. A expectativa é saber como as autoridades monetárias vão reagir frente aos dados econômicos mais recentes e às tensões geopolíticas. Mas, principalmente, a atenção está voltada a quais serão as perspectivas para as próximas reuniões e a sinalização do início do corte de juros pelos bancos centrais. 

Para a LCA Consultoria, os dados mais recentes sugerem que os comitês de política monetária dos EUA e do Brasil manterão os juros inalterados, mas preservando sinalizações cautelosas. 

No Brasil, a pesquisa com gestores da XP aponta que  não há consenso sobre a decisão de juros do Comitê de Política Monetária (Copom). Metade acredita que os juros serão mantidos no patamar atual de 14,75%, e a outra metade projeta aumento de 0,25 p.p, com juros chegando em 15%, com possíveis cortes apenas em 2026. 

Viva do lucro de grandes empresas

Nos Estados Unidos, os indicadores apontam resiliência da economia mesmo frente aos efeitos da política tarifária de Donald Trump, o que pode fazer com que o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) mantenha os mesmos percentuais de juros em 4,25% e 4,5% por mais um ciclo, com possíveis cortes no fim do ano.

Pedro Ros, CEO da Referência Capital, destaca que o cenário econômico ainda nebuloso nos dois países vai guiar decisões cautelosas. Mas, na leitura ampla, o recado é claro: os juros altos vão continuar por mais um tempo. “Isso exige que investidores e empresas ajustem suas estratégias com base em cautela, previsibilidade e ativos mais sólidos”, avalia.

Julio Cesar Barros, economista do Banco Daycoval, acredita que o comunicado do Copom deve sinalizar pausa e não o encerramento do ciclo de alta. “Esta estratégia pode ser importante para retirar a ideia de que o ciclo de cortes é logo ali”, afirma.

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Estados Unidos

Os indicadores da balança comercial de abril e os dados do mercado de trabalho nos EUA mostram que o choque tarifário ainda não repercutiu na economia americana, segundo a análise de cenários da LCA Consultoria. Isso deve manter os juros em pausa em 4,25% e 4,5%. 

Dados de emprego mostraram aceleração em abril e maio, comparado ao primeiro trimestre, com taxa de desemprego em patamar neutro. Já as importações recuaram em abril, com o efeito da política tarifária de Donald Trump, mas voltaram a níveis semelhantes aos observados antes do repique de janeiro a março, quando o governo já sinalizava possíveis alterações nos impostos comerciais. 

Na análise de economistas, o Fed só começará a cortar a taxa de juros no final do ano. Felipe Vasconcellos, sócio da Equus Capital, afirma que o mercado começa a precificar um corte de juros no último trimestre deste ano. Para a LCA, este movimento será “cauteloso”. 

Brasil

A última reunião do Copom fez com que boa parte dos analistas estimassem que o ciclo de alta de juros estava terminando, mas nas últimas semanas houve mudanças nessa percepção, destaca Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research. 

Entre elas, está a declaração do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, de que ele iria à reunião do Copom com “opções em aberto” e defendendo cautela.

Dados econômicos reforçam a percepção deste cenário “em aberto”. Embora a inflação de maio tenha vindo em 0,26%, abaixo das expectativas, o núcleo de serviços ainda mostra alta nos preços, acumulando inflação de 6,75% nos últimos 12 meses. Com o mercado de trabalho ainda resiliente, a LCA aposta em uma manutenção dos juros no patamar atual para continuar freando o consumo e segurando a inflação.

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Soma-se à análise o recente anúncio de contingenciamento de despesas do governo, o que deve segurar parte da pressão inflacionária e contribuir para a decisão do Banco Central em manter os juros em pausa. 

Já as tensões políticas com o debate no Congresso sobre as novas medidas de arrecadação do governo e a proximidade das eleições de 2026 devem manter os juros em patamar “significativamente contracionista por período prolongado” com cortes cautelosos ao longo de 2026 e “maior fôlego na seara fiscal” em 2027, segundo a LCA.

Para o C6 Bank, o Copom deve reforçar a necessidade de perseverar com uma política monetária contracionista até que se consolide o processo de desinflação e a ancoragem das expectativas em torno das metas. Sung, da Suno Research, também afirma que a postura hawkish (mais dura) do comitê irá preservar a confiança e ancorar as expectativas.

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“Esse Copom está difícil de prever. O mercado está bastante dividido sobre a possibilidade de alta ou manutenção da taxa. Entre os fatores decisivos, de um lado, temos um dólar relativamente comportado e uma inflação que tem vindo um pouco abaixo do esperado, o que poderia justificar a manutenção. Por outro, o desarranjo fiscal tem ganhado peso e pode, em algum momento, gerar preocupação adicional. Por isso, a decisão tende a ser bastante dividida”, avalia Paulo Cunha, CEO da iHUB Investimentos.

“A continuidade da desinflação dependerá fortemente da disciplina fiscal do governo, especialmente no controle de gastos com programas como o Novo PAC. Além disso, a possibilidade de um novo ciclo de alta inflacionária global, impulsionado pelos fatores geopolíticos, eleva o nível de cautela”, diz Luiz Arthur Fioreze, economista e diretor de Gestão de Fundos da Oryx Capital.