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O cinema brasileiro vive uma semana histórica. Na Berlinale – que, ao lado de Cannes e Veneza, compõe a tríade dos festivais mais importantes do mundo –, o Brasil conquistou o Urso de Prata com O Último Azul, de Gabriel Mascaro. No Oscar que acontece no próximo domingo, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, disputará três categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz, com Fernanda Torres.
A última vez que o Brasil concorreu aos Oscars de Melhor Filme Internacional e Atriz foi em 1999, com Central do Brasil, também de Salles. Mas nunca antes o país havia sido indicado à principal estatueta. Desde o anúncio da Academia, o Brasil entrou em clima de Copa do Mundo.
O Brasil Descobriu o Cinema – Ou Foi o Contrário?
Para além do barulho nas redes sociais, é importante lembrar que o Oscar é a ponta do funil; os festivais, a base. O sucesso de Ainda Estou Aqui começou no Festival de Veneza 2024, onde o filme venceu o prêmio de Melhor Roteiro. Para chegar a maior premiação da indústria, o cinema de arte precisa do circuito de festivais — e, para alcançar os festivais, é essencial um trabalho coordenado entre cineastas, produtores, investidores e distribuidores.
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Jornalistas também desempenham um papel essencial. Quando questionada sobre a baixa presença de diretoras no Festival de Cannes, no ano em que presidiu o júri, Tilda Swinton foi direta: “Cannes é um reflexo do que vem antes — incluindo a cobertura da imprensa. Se vocês, jornalistas, tivessem escrito mais sobre os filmes dessas diretoras, talvez elas tivessem conseguido financiamento para suas produções. E então estariam aqui, lançando seus filmes em Cannes.”
A Reconstrução do Cinema Brasileiro e a Presença nos Festivais
Para Lúcia Murat, que recebeu menção honrosa na Berlinale pelo documentário Hora do Recreio, o Brasil vive um novo ciclo de recuperação. “É sempre assim. Eles tentam destruir, e nós vamos lá e recuperamos.”
Em termos de investimento, o momento é mesmo de reconstrução. No Dia do Cinema Nacional de 2024, o governo anunciou um aporte de R$1,6 bilhão na sétima arte — grande parte via leis de incentivo.
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Mesmo nos períodos mais desafiadores, o Brasil se manteve presente nos festivais internacionais. Em 2016, Kleber Mendonça Filho levou Aquarius, estrelado por Sônia Braga, a Cannes e usou o tapete vermelho para um protesto político. Em 2018, Cacá Diegues apresentou O Grande Circo Místico, com Bruna Marquezine e Mariana Ximenes. No ano seguinte, Karim Aïnouz e Kleber Mendonça Filho conquistaram os prêmios Un Certain Regard e Prêmio do Júri em Cannes, respectivamente, com A Vida Invisível de Eurídice Gusmão e Bacurau.
Na última Berlinale, diretores brasileiros assinaram 13 filmes nas diferentes mostras.
Não é coincidência.
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Os festivais contam uma história maior do cinema, global e brasileiro. Vou a esses eventos há quase dez anos pela oportunidade de sentar na primeira fileira dessa narrativa que não pára nunca. Muitos dos filmes que assisto — alguns deles excelentes — nunca chegam à maioria dos países.
Não passam pelo funil.
Assim como jornalistas e financiadores ajudam um filme a chegar a Cannes, o sucesso do Brasil hoje reflete décadas de planejamento e investimento no cinema nacional. Um filme pode ser assistido em 90 ou 120 minutos, mas as histórias por trás dele podem levar anos — ou vidas — para acontecer.
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Em Berlim, onde recebeu o Urso de Ouro Honorário, Tilda Swinton fez um novo chamado aos jornalistas: é nossa responsabilidade ajudar a contar a história maior do cinema, para que mais pessoas tenham acesso a ela.
E para que o cinema brasileiro vá além das suas próprias salas e continue formando nomes como Fernanda Torres.