O que queremos para o nosso país? Escolhas feitas em 2025 vão determinar o rumo da economia

O Brasil enfrenta dois possíveis caminhos: ou a política fiscal se ajusta, ou, caso contrário, a alta inflação acabará provavelmente forçando uma redução nas taxas reais

Luiz Fernando Figueiredo

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O ano de 2024 foi desafiador não apenas para a política fiscal, mas a dinâmica da política monetária também contou com muitos desafios. Os juros reais de 12 meses, calculados a partir da estrutura a termo da taxa de juros e das projeções de inflação da pesquisa Focus, estão em torno de 9,5%, com tendência de alta para alcançar 10%.

Nem mesmo durante a crise política e econômica de 2014 a 2016 os juros reais ultrapassaram esse patamar. Isso, na verdade, é simplesmente a consequência de políticas que sugerem que o país está caminhando para o desequilíbrio.

Ter juros reais em níveis tão elevados não é uma estratégia sustentável a longo prazo. O Brasil enfrenta dois possíveis caminhos: ou a política fiscal se ajusta, permitindo uma redução relevante nos juros, ou, caso contrário, a alta inflação acabará provavelmente forçando uma redução nas taxas reais.

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O dilema é claro: sem uma melhoria fiscal consistente, o custo de financiar a dívida pública continuará a crescer, pressionando ainda mais a economia.

Os superávits primários são cruciais para estabilizar as despesas públicas. No entanto, a lenta resposta do governo em implementar ajustes fiscais tem aumentado a incerteza. Essa hesitação não apenas retarda o crescimento econômico, mas também agrava as expectativas inflacionárias, dificultando ainda mais a tarefa do Banco Central em controlar a inflação sem sacrificar a atividade econômica.

Mesmo com uma taxa de juros elevada, o mercado de crédito brasileiro continua mostrando resiliência. O crescimento do crédito, combinado com níveis controlados de inadimplência, aponta para uma demanda robusta por financiamento. As empresas e consumidores parecem estar navegando bem nesse ambiente restritivo, o que levanta questões sobre a eficácia dos juros altos em frear o crescimento econômico.

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Leia mais: Seguimos a cartilha do que não fazer na área fiscal?

O mercado de trabalho também se mantém forte, com níveis recordes de emprego e um saldo positivo de contratações formais. Além disso, a massa salarial continua a crescer, refletindo uma economia que, surpreendentemente, permanece vigorosa. Esses indicadores sugerem que, apesar do juro restritivo, a economia ainda encontra formas de se expandir.

No setor externo, a atratividade do Brasil para o capital estrangeiro tem se enfraquecido apesar dos juros tão altos. A saída de capital em dezembro foi recorde, o que tem pressionado muito a taxa de câmbio, levando o Banco Central a fazer intervenções também num nível recorde.

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Uma das maiores questões é como a atividade econômica e a inflação de serviços se mantêm elevadas, mesmo sob um regime de juros tão altos e restritivo. Setores como turismo, serviços pessoais e comércio continuam a crescer, sugerindo uma demanda interna resiliente. Esse fenômeno pode ser explicado por uma combinação de fatores, como o impulso fiscal, principalmente, e a expansão de crédito pelos bancos públicos, que acabam gerando aumento da renda disponível e baixo desemprego, além de ampliar a confiança dos consumidores.

Entretanto, essa situação cria um paradoxo: a política monetária restritiva deveria desacelerar a atividade econômica e conter a inflação, mas os dados indicam uma economia que continua expandindo. Isso levanta preocupações sobre a eficácia das medidas de política monetária e a necessidade de políticas complementares para controlar a inflação sem prejudicar o crescimento.

Ao longo de 2024, as expectativas sobre o juro neutro — aquele que não estimula nem restringe a economia — mudaram significativamente. Inicialmente estimado em torno de 4,5%, o juro neutro agora é projetado para 5,5% ou até 6%. Essa revisão reflete uma realidade econômica mais complexa, onde os fatores estruturais, como a inflação persistente e a rigidez fiscal, desempenham papéis cruciais.

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Essa nova estimativa do juro neutro implica desafios adicionais para a política monetária. Um juro neutro mais alto indica que a economia pode precisar de um período prolongado de juros elevados para conter a inflação. Isso, por sua vez, pode prolongar o período de desaceleração econômica futura, exigindo uma coordenação cuidadosa entre as políticas fiscal e monetária.

A trajetória dos juros reais no Brasil demonstra o quanto é importante a coordenação das políticas fiscal e monetária. Acelerar, a partir da política fiscal, e “brecar”, através da política monetária, está nos levando para essa situação de desequilíbrio crescente.

O governo precisa implementar ajustes fiscais significativos para estabilizar a dívida pública e restaurar a confiança dos agentes econômicos de que caminhamos para a sustentabilidade. Sem essas medidas, o Brasil corre o risco de entrar em um ciclo vicioso de juros elevados e inflação persistentemente alta, sem contar com a possibilidade de um desarranjo maior.

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As escolhas feitas em 2025 serão cruciais para determinar o rumo da economia brasileira nos próximos anos. A responsabilidade fiscal e a coordenação eficaz entre as políticas monetária e fiscal são fundamentais para garantir uma trajetória de crescimento sustentável, juros mais razoáveis e evitar crises econômicas futuras. O tempo está se esgotando e o país precisa agir de forma decisiva para superar os desafios econômicos que se avizinham.

Luiz Fernando Figueiredo é presidente do Conselho de Administração da JiveMauá

Este artigo tem co-autoria de Italo Faviano e Mirella Hirakawa, economistas da Buysidebrasil

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Luiz Fernando Figueiredo

Graduado em Administração de Empresas pela FAAP, com especialização em Finanças, construiu carreira no mercado financeiro desde os 18 anos. Foi Diretor do Banco Central do Brasil entre 1999 e 2003, Conselheiro e Coordenador do Comitê de Risco e Financeiro e membro do Comitê do Setor de Emissores da B3, além de um dos fundadores da Gávea Investimentos. Atuou como Sócio e Diretor-Tesoureiro do Banco BBA, ocupando também posições de liderança no Banco Nacional, no JP Morgan e em corretoras locais. É fundador e Presidente da AMEC e foi Diretor da ANBIMA por 18 anos. Fundador da Mauá Capital, liderou a união da gestora com a Jive Investments em 2022, tornando-se Chairman da JiveMauá até dezembro de 2025, quando vendeu o restante de sua posição acionária. Em 2018, fundou o Instituto Fefig de Educação, Cultura e Esportes, focado em iniciativas de alto impacto em Educação. Mais recentemente, tornou-se sócio e membro do conselho consultivo da Jubarte Capital, além de sócio da Klavi, onde atua como conselheiro e senior advisor, e, na área social, é Conselheiro da Associação Parceiros da Educação e do IDIS.