Queda dos juros: necessária, mas não suficiente

Conjuntura atual permite redução da taxa básica de juro de forma agressiva, porém mais medidas são necessárias para garantir crescimento da economia

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SÃO PAULO – A divulgação de diversos índices de inflação nas últimas semanas, todos eles indicando uma queda nos preços, coloca o Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central, em situação delicada nesta semana, quando de seu encontro mensal para determinar o novo patamar da Selic, a taxa básica de juro da economia.

Um dos motivos alegados pelo Banco Central para manter a Selic em um patamar bastante elevado foi a constatação, ao menos até maio deste ano, de que os preços poderiam sair de controle, após o forte ajuste referente aos efeitos da desvalorização do real ocorrida na segunda metade de 2002.

Deflação chegou aos preços ao consumidor

Porém, não somente a inflação mostrou forte desaceleração como os preços começaram a cair, corrigindo parte dos excessos decorrentes da desvalorização do real. O IPCA, que é utilizado pelo governo para definir sua meta de inflação, mostrou deflação de 0,15% em junho, a primeira desde 1998.

Isso evidencia que a queda que estava sendo registrada somente nos preços do atacado, que reagem mais rápido às flutuações do dólar, finalmente chegou aos preços no varejo, aumentando o grau de manobra do Banco Central para uma rápida redução da taxa Selic.

Dólar volta ao patamar de julho de 2002

Após ter chegado perto do patamar de R$ 4,00 em outubro do ano passado, o dólar mostrou um recuo consistente durante quase toda a primeira metade de 2003. De fato, a cotação oficial da última sexta-feira foi de R$ 2,8774, muito próxima dos R$ 2,8772 registrados em 18 de julho de 2002, exatamente um ano antes.

Além das pressões do dólar sobre a inflação serem fortemente reduzidas, a economia segue apresentando um fraco desempenho, não sendo uma variável que impulsiona uma possível alta de preços. Como todos nós podemos perceber no nosso dia-a-dia, a pressão sobre os preços, desta forma, é reduzida.

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Risco país mais baixo

Muita gente segue dizendo que um dos motivos para que tenhamos juros elevados no Brasil é a necessidade de atrair capital estrangeiro. Embora seja verdade que o país ainda tem necessidade obter dinheiro do exterior, certamente o nível atual da taxa Selic não é justificado.

Apesar da Selic estar atualmente no patamar de 26%, contra 18% em julho de 2002, o risco país, um importante indicador de como os investidores internacionais avaliam o risco brasileiro, é muito mais baixo do que no mesmo período do ano passado.

Isso indica que as taxas de juros internas poderiam ser mais baixas, já que a expectativa de inflação é reduzida. Vale lembrar que o risco país fechou a 738 pontos base na última sexta-feira, muito abaixo dos 1.727 pontos base do mesmo período de 2002.

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Juros altos não se justificam

Deste modo, fica claro que o atual patamar da taxa básica de juro não se justifica, principalmente após ficar claro que as pressões sobre os preços foram amenizadas nas últimas semanas. Agora sim parece ser a hora de reclamar uma redução na Selic, desta vez baseada em argumentos consistentes, ao contrário da “choradeira” dos últimos meses de políticos despreparados ou de industriais que só olham para seu pequeno microcosmo.

Dentro do contexto atual, o Copom está no momento certo para promover uma redução significativa da Selic, sem parecer estar cedendo a interesses políticos, portanto, mantendo sua credibilidade e cumprindo o que é a sua principal função, ou seja, zelar pelo controle da inflação.

Somente queda nos juros não fará país crescer

Embora os juros devam cair em velocidade rápida nos próximos meses, podendo fechar o ano em torno de 20% a 21%, segundo expectativas dos analistas, isto sozinho não trará as condições para que a economia retome uma taxa de crescimento elevada.

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Para isso, é necessário que o governo imponha a vontade da maioria da população brasileira e consiga realizar reformas efetivamente estruturais, permitindo uma redução do desequilíbrio do setor público, mesmo que isso afete minorias que são favorecidas pelo sistema atual.

Além dos juros mais baixos, o país não precisa só de promessas de “espetáculos” ou de programas mirabolantes do governo, mas também de pulso firme para adotar políticas consistentes que permitam que a sociedade tenha um cenário mais claro do futuro. Isso permitiria a volta dos investimentos, e, conseqüentemente, a redução do desemprego e das desigualdades sociais que todos nós desejamos.