Estratégias para o comércio internacional serão tema do encontro da Unctad em SP

Evento promete ser o principal foro de debates sobre as estratégias de desenvolvimento do mundo em crise

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SÃO PAULO – A Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) realizará em São Paulo, entre 13 e 18 desse mês, a XI Reunião Quadrianual da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento.

Esse evento tem por objetivo fazer do comércio um instrumento para o desenvolvimento e contará com todas as grandes personalidades do comércio mundial, inclusive o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Supachai Panipchpakdi.

A nova geografia do comércio

“Daqui deve sair uma nova negociação entre os países em desenvolvimento para conformar aquilo que o presidente Luís Inácio Lula da Silva vem chamando, muito bem, de a nova geografia do comércio”, declarou o secretário geral da Unctad, o brasileiro Rubens Ricúpero, ex-Ministro da Fazenda e embaixador do Brasil nas Nações Unidas.

A Unctad é uma entidade intergovernamental de caráter permanente, criada em 1964 com a finalidade de preparar os países em desenvolvimento para os embates das negociações comerciais entre países. A entidade tem sua linha de ação guiada pela certeza de que o comércio é o melhor caminho para se chegar ao desenvolvimento.

“O tema principal será a coerência entre as estratégias no nível nacional e no contexto global. Nosso propósito é mostrar qual a estratégia mais coerente com o que ocorre no mundo hoje”, afirma Rubens Ricúpero.

Comércio internacional contra crises

Segundo Rubens Ricúpero, desde a crise financeira do México no final de 1994, a comunidade internacional não se habilitou a criar uma nova arquitetura financeira dotada de mecanismos de segurança para tornar menores as chances de novas crises do gênero, tornando os países em desenvolvimento vulneráveis à volatilidade do mercado financeiro internacional.

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A melhor saída para esses países no momento, segundo o secretário-geral, seria o acúmulo de reservas em dólares para reduzir a vulnerabilidade a choques externos, apesar dessa estratégia não ser a melhor, pois torna esses recursos indisponíveis para investimento produtivo, infra-estrutura e gastos sociais.

O aumento das exportações e conseqüente geração de saldos comerciais positivos e acumulação de reservas parece ser uma equação simples, mas depende de cada país saber aproveitar da melhor forma possível os “bons ventos” do comércio mundial, com a diversificação da pauta de exportações e ampliação da capacidade instalada em produtos que estão e tornando escassos, como aço, papel e minérios.

Brasil precisa se adequar à nova realidade

Rubens Ricúpero acredita que o Brasil enfrenta problemas com a quantidade e qualidade dos produtos produzidos e exportados, além de problemas com a capacidade industrial instalada. “O aço já não existe para o mercado interno e externo, o papel está escasseando, minério de ferro não há para vender, pois o Brasil fechou contratos com a China para os próximos três anos. Estamos batendo com a cabeça no teto”, exemplifica.

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Em 2003, o Brasil teve um aumento de 21% nas exportações, muito acima dos 4,7% verificados na média do comércio mundial. Para 2004, a Unctad e a OMC esperam um crescimento de 8,6% no comércio mundial e para 2005 a previsão é de 10,2%. Esses valores deixam claras as possibilidades do cenário comercial mundial para as exportações brasileiras.

O maior problema das exportações brasileiras, segundo Rubens Ricupero, é a pauta de exportações, com mais de 60% de produtos na categoria commodities, como minerais e produtos agrícolas. “Não é vergonha depender de commodities. Estados Unidos e Canadá sempre foram grandes exportadores destes produtos e 60% do que a Austrália vende são commodities. Mas não se pode ficar só nisso, pois são produtos em que o preço é mais volátil e a demanda normalmente cresce pouco”, afirma.

Na opinião do Secretário-Geral, o Brasil deveria se dedicar à produção e exportação de produtos com maior valor agregado, como eletroeletrônicos, química fina e equipamentos e material hospitalar e cirúrgico. “Neste sentido, a pauta brasileira é muito pobre. O Brasil só aparece com os aviões da Embraer com equipamentos de telecomunicações”, lembra o embaixador.

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Entraves devem ser removidos

A Unctad lista três entraves principais à entrada de investimentos produtivos no país, sendo primeiro o alto custo do investimento (taxa de juros, spreads bancários etc.), sistema tributário (complicado e oneroso) e logística (transporte caro, burocracia interna etc.).

Esses entraves devem logo ser superados, segundo Rubens Ricúpero, para que o Brasil possa atrair investimentos estrangeiros diretos e sanar a baixa capacidade interna de investimento. .”Hoje atraímos investimentos para o setor de serviços, o que não chega a ter resultado na exportação, e também o especulador, que vem aproveitar a taxa de juros”, afirma.

A redução urgente da taxa de juros é defendida pelo embaixador e secretário-geral da Unctad, tanto como forma para aliviar a carga de déficit do governo, através da redução do pagamento de juros, como para o crescimento econômico e do nível da empresa, além de manter o real relativamente desvalorizado, favorecendo as exportações.