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SÃO PAULO – Um dos indicadores mais acompanhados pela mídia, especialmente a partir de 2001, com a explosão da crise argentina, tem sido o risco país – ou risco Brasil -, sendo, dessa maneira, bastante comum abrirmos o jornal ou ligarmos a TV no noticiário e nos depararmos com a citação do mesmo. Em 2003, o risco país novamente voltou a atrair a atenção do mercado como um todo, mas por uma razão diferente.
Se em anos anteriores o que preocupava muitas pessoas era o fato de que o risco país não parava de subir, em 2003 o quadro foi diferente: o risco país acumulou uma forte queda, a maior já registrada pelo indicador, desde a sua criação, em um ano, sinalizando uma maior confiança dos investidores internacionais na economia brasileira. Tanto que o próprio governo chegou a utilizar a queda do indicador como peça-chave de sua propaganda oficial.
Entendendo um pouco mais o risco país
Antes de tudo, porém, é necessário enterdermos o que exatamente vem a ser o chamado risco Brasil, que é calculado pelo conglomerado financeiro JP Morgan. Conceitualmente, o risco país mede o spread – ou a diferença – entre os rendimentos pagos pelos títulos da dívida externa brasileira e os rendimentos pagos pelos Treasuries, os títulos do Tesouro norte-americano. Percebe-se, assim, que o comportamento do risco país encontra-se diretamente ligado ao desempenho dos títulos da dívida externa brasileira (o C-Bond, por exemplo) e também à performance dos Treasuries.
Como tanto os títulos da dívida externa brasileira quanto os Treasuries são títulos de renda fixa, quando o preço destes bonds sobe, o rendimento – ou seja, o “prêmio” pago ao investidor – cai, e vice-versa. Dessa maneira, em uma situação em que a demanda por títulos da dívida externa brasileira se eleva, o seu preço também tende a registrar um aumento, provocando, assim, uma queda no rendimento destes títulos. Um menor rendimento dos títulos brasileiros significa, por sua vez, queda no risco país, que foi exatamente o que aconteceu ao longo de 2003.
Assim, em uma situação em que os títulos da dívida externa brasileira pagam um rendimento – ou yield – de 9,00% ao ano, enquanto os Treasuries pagam um yield de 4,25% ao ano, o risco país será, então, de 4,75% ao ano. Convencionou-se, contudo, multiplicar este diferencial por cem e chegar-se a uma medida em pontos base. Dessa forma, dizer que o risco país é de 4,75% ao ano nada mais é do que dizer que o spread atinge o patamar de 475 pontos base.
C-Bond acumulou ganhos de 48,5% no ano
Passemos, então, à análise do comportamento dos títulos da dívida externa brasileira e do risco país ao longo deste ano. Vale lembrar que, em 2002, o C-Bond, principal título da dívida externa brasileira, havia acumulado forte queda de 14,11%, encerrando aquele ano cotado a 66,13 centavos de dólar. Tal comportamento refletiu, basicamente, os receios causados pelo processo eleitoral daquele ano, especialmente com os sinais de uma provável vitória do PT.
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Para se ter uma idéia, o C-Bond chegou a 49 centavos de dólar no mês de outubro de 2002, em função das incertezas trazidas pelas eleições aos investidores internacionais, que acabaram pressionando a demanda pelos títulos da dívida externa brasileira. Contudo, com o início do governo Lula e os sinais de austeridade monetária e fiscal mostrados pela equipe econômica, o C-Bond voltou a se valorizar desde os primeiros meses de 2003, evidenciando, assim, uma maior confiança dos investidores internacionais na economia brasileira.
Em um primeiro momento, podemos apontar o controle da inflação e a elevação da meta de superávit primário para 4,25% do PIB (Produto Interno Bruto) como fatores-chave para a recuperação da confiança dos investidores na economia brasileira. Com o decorrer do ano, contudo, outros fatos foram ganhando maior dimensão e contribuindo para uma melhora na percepção acerca do Brasil. Exemplo disso ocorreu com a tramitação e aprovação das reformas estruturais no Congresso Nacional.
Além disso, o cenário de juros declinantes a partir de junho de 2003, com os sucessivos cortes na taxa básica de juro da economia, levou os investidores a ampliarem suas apostas de maior crescimento econômico. Dessa maneira, a demanda por títulos da dívida externa brasileira foi ampliada mais ainda no segundo semestre do ano, de forma que o C-Bond encerrou o ano de 2003 cotado a 98,25 centavos de dólar, acumulando ganhos de 48,5% no ano.
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Risco país teve maior queda anual desde sua criação
Como consequência da forte alta acumulada pelo C-Bond, assim como por outros títulos da dívida externa brasileira, o risco país encerrou o ano de 2003 cotado a 468 pontos base, o que representa uma forte queda de 962 pontos base no ano, uma vez que este indicador havia encerrado o ano de 2002 no patamar de 1.430 pontos base. Vale destacar que se trata da maior queda já registrada em um ano pelo risco país desde a sua criação, em 1994.
Ainda assim, o risco Brasil ainda não caiu abaixo de seu mínimo histórico, que foi atingido em outubro de 1997, quando o indicador chegou aos 337 pontos base. Contudo, vale destacar que, caso a economia brasileira continue mostrando sinais de recuperação e o governo brasileiro continue adotando práticas de maior austeridade monetária e fiscal, o risco país deverá seguir em trajetória de queda, revelando um maior otimismo dos investidores em relação ao cenário interno brasileiro.
Confira na tabela abaixo o desempenho do risco país desde a sua criação:
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| Ano | Encerramento do ano anterior (em pontos base) |
Encerramento do ano (em pontos base) |
Variação (em pontos base) |
| 1994 | 1.120(*) | 923 | -197 |
| 1995 | 923 | 933 | +10 |
| 1996 | 933 | 523 | -410 |
| 1997 | 523 | 521 | -2 |
| 1998 | 521 | 1.231 | +710 |
| 1999 | 1.231 | 636 | -595 |
| 2000 | 636 | 749 | +113 |
| 2001 | 749 | 863 | +114 |
| 2002 | 863 | 1.430 | +567 |
| 2003 | 1.430 | 468 | -962 |
(*) Refere-se à cotação da data de criação do indicador, em abril daquele ano.