Entenda por que a liquidez internacional está elevada e qual é o papel dos EUA

Taxas de juros baixas americanas favorecem países como o Brasil, que recebem maior afluxo de capitais estrangeiros

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SÃO PAULO – O otimismo do mercado financeiro nos últimos meses vem sendo destaque, evidenciado no desempenho dos principais ativos financeiros, como as ações, o dólar e os títulos de renda fixa.O risco-país, que chegou a alcançar 2.430 pontos em 2002, caiu drasticamente, atualmente sendo cotado pouco acima dos 400 pontos. O Ibovespa, por sua vez, subiu expressivos 97,3% ano passado e continua subindo em 2004.

Esta reversão nos humor do mercado com relação ao Brasil pode ser explicada não somente pela boa conduta do governo, com a execução de políticas econômicas responsáveis, mas também pela elevada liquidez internacional, termo que vem sendo bastante mencionado pelos economistas nos últimos meses.

Abertura financeira global favoreceu os EUA

Para entender a liquidez internacional é necessário saber como o sistema financeiro internacional funciona. Durante os anos 90 houve uma intensificação da integração financeira mundial: a abertura das contas de capital do resto do mundo (inclusive países emergentes) propiciou ao mercado financeiro dos Estados Unidos a oportunidade de comandar uma formidável expansão do crédito à produção e ao consumo.

Embora os EUA não dispunham internamente de todo este volume de crédito, existia a possibilidade de captar este crédito de países poupadores.

Em outras palavras, os países que compram no exterior mais do que vendem podem financiar estas compras, com os recursos vindo de países que têm posições superavitárias na balança comercial e dólares em abundância. Desta forma, a elevada liquidez internacional permitiu que os EUA tivessem à sua disposição um mecanismo de financiamento de seus constantes déficits externos.

Ásia tem sido o principal financiador dos EUA

Para se ter uma idéia, atualmente cerca de 47% do déficit comercial americano estão concentrados nos países asiáticos (aproximadamente US$ 210 bilhões), cujos Bancos Centrais têm realizado sucessivas compras dos dólares egressos, como forma de não deixar suas moedas nacionais se valorizarem em relação ao dólar. Os dólares comprados são aplicados, em sua maioria, em títulos do Tesouro norte-americano, financiando os déficits dos EUA.

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É por este motivo que os países asiáticos vêm acumulando vultuosas reservas em dólares nos últimos anos. Somente a China tinha acumulado US$ 384 bilhões de reservas em meados de 2003, fruto de seu excelente desempenho com exportações, sustentadas pela sua moeda sub-valorizada.

Além disso, por volta de 73% do total das reservas dos Bancos Centrais ainda são mantidas em dólares, configurando uma posição de privilégio aos EUA, que podem manter taxas de juros baixíssimas, ao mesmo tempo em que registram US$ 450 bilhões de déficit externo.

Elevação dos juros pode reduzir liquidez internacional

O grande ponto é que esta situação deficitária dos EUA não poderá se manter por muito tempo. Para estimular exportações e equilibrar a balança comercial, o dólar já se desvalorizou cerca de 33% em relação ao euro nos últimos 12 meses. Como esta desvalorização tende a se refletir em maior inflação (como ocorre no Brasil), os analistas já prevêem que Fed aumentará os juros básicos dos EUA no decorrer deste ano.

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A elevação dos juros americanos leva a uma migração de investidores de países emergentes, como o Brasil, para os títulos norte-americanos, atraídos por uma remuneração (juros) maior e risco mais baixo. Este cenário provocaria uma redução da liquidez internacional, que seria em grande parte absorvida pelo governo dos EUA.

Com isso, parte dos recursos que têm propiciado o excelente desempenho dos ativos financeiros não somente do Brasil, mas também de diversos mercados emergentes, pode retornar aos seus mercados de origem, desencadeando um processo de venda e afetando de forma significativa países dependentes de capitais externos, como o Brasil.