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SÃO PAULO – A intensa desvalorização do real em 2002 aumentou ainda mais o enorme fosso que separa as rendas médias de famílias brasileiras e norte-americanas. Dados recentes, da PNAD, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, de 1999, mostram que, após a depreciação do real, o poder de compra das famílias brasileiras foi reduzido consideravelmente.
Apesar do baixo crescimento econômico registrado durante a década de 90, o fim da inflação em 1994 levou a um expressivo crescimento da renda média das famílias brasileiras. Contudo, a desvalorização de 1998, somada ao processo de enfraquecimento do real em 2002, acabou tornando os ativos brasileiros subavaliados.
Com isto, numa comparação simples, mesmo parte considerável dos brasileiros que compõem o décimo mais rico da população estaria abaixo da linha da pobreza nos EUA.
Renda média dos EUA é de US$ 3.519 por mês
A renda média mensal das famílias norte-americanas em 2001 foi de US$ 3.519, ou em termos anualizados, US$ 42.228. Para se ter uma idéia, se convertido ao câmbio do primeiro dia útil do mês de agosto, cerca de R$ 3,149 por dólar, ou seja, ainda sem os efeitos do recrudescimento das incertezas eleitorais em setembro, a renda mensal média das famílias nos EUA seria de R$ 11.081.
Vale ressaltar, porém, que os custos de vida de norte-americanos e brasileiros são muito diferentes, sendo mais barato viver no Brasil do que nos EUA. Contudo, o exercício de conversão dos dados de renda familiar permite uma nítida visualização da perda de valor de ativos brasileiros, e também do grande pobreza que ainda aflige parte considerável do Brasil.
Linha de pobreza está em US$ 753,25 per capita
Segundo dados de 2001, aproximadamente 32,9 milhões de norte-americanos vivem abaixo da linha da pobreza, definida em US$ 753,25 mensais, per capita. Num exercício de comparação, cerca de 90% dos brasileiros vivem com menos de R$ 1.511 por mês, ou cerca de US$ 480,00, ou seja, valor bem inferior à linha de pobreza dos EUA, em R$ 2.371,00, a dólares de 01/08/2002.
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No entanto, a enorme distância que separa os números entre Brasil e os EUA não pára por aí. O grupo étnico com menor renda mensal nos Estados Unidos é o formado por negros, com uma renda mensal média de aproximadamente US$ 2.455,84, ou seja, R$ 7.734,00. Por outro lado, os 10% mais pobres no Brasil tem uma renda mensal de apenas R$ 28,26, ou insignificantes US$ 9,00 por mês.
No Brasil, Distrito Federal é região mais rica
A região mais rica do Brasil é o Distrito Federal. Concentrando grande parte dos servidores públicos federais, Brasília possuía a renda familiar mais alta brasileira, já que o décimo mais rico dos brasilienses ganha mais de R$ 2.918,00 por mês, ou cerca US$ 927. Em segundo lugar está a Região Metropolitana de São Paulo, cujos 10% mais ricos possuem uma renda média mensal superior a R$ 2.247,72.
Nos EUA, onde os dados são classificados etnicamente, o grupo étnico formado pelos brancos é mais rico do país. Uma família norte-americana representativa tem uma renda média anual de US$ 46.305, ou US$ 3.858,75 mensais; uma renda, portanto, 1,57 vez mais dos a dos negros norte-americanos.
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Entretanto, no Brasil, a diferença entre as camadas mais abastadas e os segmentos mais humildes da população é ainda maior. O Estado mais pobre da Federação é o Piauí, onde os 10% mais pobres da população tem uma renda mensal de apenas R$ 11,35, ou míseros US$ 3,60 por mês. Desta forma, a discrepância entre os 10% mais ricos do Distrito Federal e o décimo mais pobre do Piauí é de inacreditáveis 261,56 vezes.
Renda per capita dos EUA é cerca de dez vezes maior
Um bom indicador da real diferença entre as economias dos EUA e do Brasil é a comparação entre as rendas per capita dos dois países. A renda per capita dos Estados Unidos é de cerca de US$ 29.340, dez vezes maior do que a brasileira, que gira em torno de US$ 2.922.
Já o PIB norte-americano, o maior do mundo, chegou em 2001 a expressivos US$ 10,082 trilhões, consideravelmente maiores do que os US$ 503,85 bilhões do PIB do Brasil.
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Dados confirmam artificialidade da desvalorização
O enorme fosso que separa a renda mensal familiar dos EUA e do Brasil, a despeito das vastas diferenças sócio-econômicas entre os países, mostra claramente os excessos da desvalorização do real em 2002.
Mesmo sendo razoável atribuir parte das discrepâncias entre os dois países ao menor desenvolvimento da economia brasileira, é, contudo claro que o poder de compra dos norte-americanos, em termos brasileiros, encontra-se artificialmente ampliado. Portando, diante desta situação é evidente que nos próximos meses a taxa de câmbio deverá passar por algum processo de ajuste.
Por outro lado, um crescimento da inflação também poderia corrigir o preço dos ativos brasileiros, aumentando fortemente o seu valor nominal. Entretanto, o fim da distorção do preço dos ativos, via inflação, poderia trazer consigo a volta do espiral inflacionário e os efeitos perversos sobre a economia, com a perda dos ganhos obtidos pelo Plano Real. Desta forma, os próximos meses deverão ser decisivos para a definição de como o câmbio deverá se ajustar.