Objetivo da emissão é financiar os juros da dívida externa

Governo aproveita cenário externo mais positivo e rolará juros da dívida antes das eleições

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LONDRES – O mercado financeiro da City recebeu animado, mas sem muito entusiasmo, a primeira sondagem, feita ontem, pelo Brasil, de lançar papéis do Tesouro no valor de US$ 1,3 bilhão com prazo de oito anos.
Até o fim da tarde, não havia ainda nada de oficial, mas falava-se em juros da ordem de 12% a 12,25%. No fundo, é uma espécie de operação de financiamento de juros de títulos da dívida externa, que o governo estará pagando no dia 15 de abril. Ou seja, é uma rolagem dos juros da dívida, como outras que vêm sendo feitas pelo Tesouro.

“Há condições de realizar essa operação, o governo estava, ontem, apenas avaliando a demanda e é cedo, ainda, para saber se será possível ir mais longe”, informava uma fonte do mercado.

Para outros analistas, embora o mercado financeiro esteja vivendo um momento de marasmo e expectativa, o Banco Central está agindo bem, aproveitando esta janela de liquidez decorrente do vencimento dos juros. Na verdade, diz um analista, o Tesouro nem está precisando desse dinheiro, já levantou os US$ 3,9 bilhões que pretendia e poderia deixar para realizar essa operação mais adiante, no segundo semestre.
Mas, considerando o clima político e o cenário externo ainda indefinidos, achou de forma correta ser prudente fazer esta operação agora. O próximo vencimento de juros da dívida brasileira será em outubro. Em outras palavras, acrescenta, o Brasil poderia até pagar, mas está preferindo rolar os juros da dívida sem mexer nas reservas.

Não poderia ser outra a posição, num ano eleitoral indefinido e num cenário externo melhor, bem melhor, do que no ano passado, mas ainda, no mínimo, incerto. A economia mundial – e o mercado financeiro – continua na dependência da sustentação do crescimento econômico dos EUA e não se afasta ainda a possibilidade de nova onda de terrorismo. Para um país, como o Brasil, que depende fortemente do mercado internacional para financiar seu déficit externo, esta é a posição mais lógica e prudente, conclui o analista.

Melhorou, sim, mas…

Para outros, o governo está apenas repetindo a estratégia do ano passado, quando fechou todas as operações necessárias no primeiro semestre, mesmo sem ter pela frente, como agora, o desafio eleitoral. E, neste primeiro trimestre, dizem, o cenário para o Brasil é muito melhor que o do ano passado. “O pior da crise argentina e mundial passou, ao contrário de 2001, a balança comercial é positiva, independentemente de valores específicos, e os investimentos externos estão se mantendo num nível adequado.

Dinheiro entrando

Neste sentido, um dos traders com quem conversamos assinala um fato que tem escapado a muitos analistas. “De acordo com dados oficiais do Banco Central, nos últimos 12 meses, de fevereiro do ano passado até fevereiro deste ano, os investimentos diretos líquidos totalizaram US$ 22 bilhões. Ou seja, exatamente o valor do déficit externo.” A tendência até poderá alterar-se, mas o fato de que os investimentos anualizados vêm mantendo este comportamento mostra que o clima é positivo, ou, focalizando pelo ângulo negativo, não se deteriorou. Ao contrário, melhorou em comparação com o mesmo período de 2001.
Isso, mais a credibilidade que a equipe econômica vem mantendo entre os investidores externos, projeta um quadro mais tranqüilo para os próximos meses, mesmo com um possível aumento da turbulência eleitoral. Os C-Bonds da dívida externa brasileira mantinham-se cotados, ontem, no fechamento de Londres, em torno de 81,25% do valor de face, num pequeno recuo com relação a níveis anteriores (82%), mesmo assim, sustentando-se muito acima do pique da crise argentina, quando, já lembramos nesta coluna, caiu a 64%.

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EUA podem crescer

Duas pesquisas divulgadas ontem, em Nova York, chegam à conclusão de que a economia americana está se recuperando a uma taxa superior à estimada, até agora. Para 52 economistas ouvidos pela agência econômica Bloomberg, o PIB americano deverá aumentar 2,6% neste ano. A previsão anterior, feita em janeiro, era de 1%.
A Blue Chip Economic Indicator, que ouviu 50 economistas, chega à mesma conclusão, acrescentando apenas que a expansão será maior no primeiro semestre e menor no segundo. Seus técnicos confirmam a previsão do mercado financeiro de que o banco central americano manterá os juros no primeiro semestre, mesmo porque a inflação está em torno de 1,5%, o menor nível desde 1986. No ano passado, o PIB americano ficou em 1,2%. E, a propósito, o Banco de Desenvolvimento da Ásia reduziu sua estimativa para os países da região para 4,5%, sem incluir o Japão.

Petróleo a US$ 25

O preço do barril de petróleo Brent para entrega em maio, que serve de referência para 66% do mercado, fechou ontem a US$ 25,03. “Não sei de nada que me permita prever que ele vá subir muito mais. Os preços estão num nível aceitável”, afirmou o secretário do Tesouro americano, Paul O’Neill.
De acordo com o Departamento de Energia dos EUA, no ano passado o preço médio do petróleo ficou em US$ 24,21. Ele caiu para até US$ 17, em novembro, e subiu dramaticamente para o máximo de US$ 29,98 no dia 21 de maio.
Os preços recuaram ontem após o secretário-geral da Opep, o venezuelano Ali Rodriguez, ter afirmado que nem a Líbia nem o Irã irão aderir ao corte anunciado pelo Iraque. “Um estudo recente da Opep mostrou que no mês passado eles produziram 1,3 milhão de barris a mais da cota que haviam fixado”, comenta Peter Gignoux, que chefia a área de petróleo do Schroeder Salomon Barney. Ou seja, eles mesmos estão se traindo…