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SÃO PAULO – Desde a mudança de política cambial e desvalorização do real em janeiro de 1999, a cotação do dólar tem funcionado como o principal termômetro da visão e das perspectivas dos investidores em relação à situação econômica brasileira. Toda vez que o pessimismo aumenta, o dólar sobe, refletindo sua posição como ativo de menor risco.
Nos últimos dias, porém, a cotação do dólar passou a responder de forma mais clara à situação atual no mercado cambial. Assim, ao invés de variar principalmente em função do humor do mercado, os movimentos da moeda norte-americana passaram a ser determinados por uma dinâmica própria, muito mais ligada à situação de oferta e procura do próprio dólar.
Falta dólar no mercado
Em função da deterioração das perspectivas tanto econômicas como políticas, com a sustentação dos candidatos de oposição na liderança das pesquisas, a possibilidade de obtenção de recursos em moeda estrangeira no exterior ficou praticamente impossível.
Com isso, os mercados de capitais permanecem fechados para empresas brasileiras, e o que é mais grave, as linhas de bancos estrangeiros estão sendo fortemente reduzidas, refletindo o temor com o novo governo. Sem outras alternativas, as empresa brasileiras que têm vencimentos em dólares não podem recorrer ao mercado internacional, restando a alternativa doméstica, o que pressiona o dólar.
Somente em julho, segundo dados da Anbid, os vencimentos de títulos do setor privado atingiram US$ 2 bilhões e a estimativa é que apenas 20% tenham sido renovados. Em agosto, o montante é menor, de cerca de US$ 1,2 bilhão, mas ainda é grande o suficiente para pressionar a moeda norte-americana, principalmente em um mercado onde o pessimismo prevalece.
Intervenções do BC ajudam, mas é preciso acordo com FMI
Visando fornecer moeda estrangeira ao mercado, o Banco Central tem realizado uma política de intervenções diárias, drenando o mercado cambial com pelo menos US$ 50 milhões por dia. Isso deve continuar durante o mês de agosto, quando a autoridade monetária já estabeleceu um piso de intervenção de US$ 1,835 bilhão.
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Como os recursos do Banco Central também têm limite, o mercado aguarda ansiosamente um novo acordo com o FMI, que pode aliviar a situação de caixa tanto através da concessão de novos recursos, redução do piso de utilização de reservas ou adiamento de pagamentos ao organismo internacional.
Mercado espera situação mais calma nas próximas semanas
O fato das cotações atuais do dólar refletirem não somente o temor dos investidores, mas também um problema fundamentalmente técnico do mercado de câmbio, fica claro comparando as cotações do mercado a vista com o mercado futuro, na forma de contratos negociados na Bolsa de Mercadorias e Futuros, a BM&F.
Na grande maioria das vezes os contratos de câmbio futuro indicam taxas superiores ao mercado à vista, dado que existe um período de tempo envolvido, o que implica na aplicação de juros. Isso faz sentido, pois o investidor poderia aplicar os recursos no período em questão e ser remunerado por isso.
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Porém, no momento atual ocorre o inverso. Os contratos de câmbio com vencimento no início de agosto indicam uma taxa de R$ 3,407, enquanto os de setembro apontam R$ 3,14. Vale destacar também o comportamento do dólar paralelo, onde a moeda norte-americana está sendo negociada a R$ 3,21, um deságio de 7,4%.
Deste modo, além do nervosismo do mercado, fica claro que o mercado de câmbio está sendo também influenciado de forma significativa por uma situação de oferta e demanda de moeda, que deve melhorar nas próximas semanas, tanto em função da redução da demanda, com menores vencimentos, e um aumento da oferta, com a possibilidade de um acordo com o FMI.
Isso não significa, porém, que o dólar vai voltar aos níveis vistos em meados de abril, quando a moeda norte-americana chegou a ser cotada a R$ 2,26, pois a situação agora é diferente e os riscos muito maiores. Porém, a não ser que a situação mostre uma forte deterioração e saia totalmente de controle, a expectativa é que o dólar volte a um patamar mais em linha com os fundamentos da economia, mesmo que estes não sejam tão positivos.