Blair e Aznar agitam União Européia e pedem mudança

Os representantes da Espanha e da Itália ganharam Tony Blair como aliado e juntos condenam duramente a rigidez do mercado de trabalho na comunidade

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PARIS – Inglaterra, Espanha e Itália abriram, nesta semana, uma frente de ataque ao imobilismo estrutural da União Européia. Os dois chefes de governo conservadores, Aznar, da Espanha, e Berlusconi, da Itália, conseguiram o apoio decisivo do primeiro-ministro trabalhista Tony Blair para um documento que condena duramente a rigidez do mercado de trabalho na comunidade, as dificuldades criadas para o livre fluxo de capitais e uma política de liberalização da economia que permita a criação de 20 milhões de empregos nos próximos dez anos. Ou seja, quase tanto quanto há hoje de desempregados na comunidade. Somente assim, disse Aznar, será possível chegar ao pleno emprego, meta que a UE tenta alcançar desde a sua criação.

Espanha surpreende

O documento já está sendo encaminhado aos demais países membros e será o principal tema de debate na reunião de chefes de Estado da União Européia, no próximo mês, em Barcelona. José Maria Aznar adotou uma atitude agressivamente inédita. Aproveitou o fato de assumir rotativamente a presidência da comissão européia, para lutar e levar adiante essas reformas.

Normalmente, os presidentes, que permanecem no posto cada seis meses, têm sempre uma atitude conciliadora, procurando não levantar temas polêmicos – principalmente como este, que põe em choque a política econômica de Bruxelas. Não foi o caso de Aznar. Ou vamos liberar a economia européia, o mercado de trabalho, o setor energético, financeiro, tudo o que amarra hoje o crescimento ou não iremos crescer e ficaremos para trás. É isso ou nada, deu a entender com a sua posição.

Não só os conservadores

O presidente espanhol, que vem fazendo um bom governo (crescimento de 2,8% nos últimos 12 meses, derrubando o desemprego que, no início do seu governo, estava em 25% da força de trabalho, para 13%, ainda alto, mas em declínio), conseguiu o apoio entusiasta do trabalhista britânico Tony Blair.

Com isso, afasta dos demais governos socialistas europeus o argumento de que se trata de um programa “liberal” no sentido pejorativo que os franceses costumam dar a tudo aquilo que venha do outro lado do Canal da Mancha ou do Atlântico e reduza a intervenção sagrada do Estado na economia.

Mais de 53% do PIB francês passa pelos cofres do governo, tornando a economia francesa umas das mais estatizadas do mundo. Nesse documento, Blair e Aznar não se esconderam por trás de imagens e palavras. Deixaram bem claro que o modelo que a Europa precisa seguir é mesmo o anglo-saxônico, ou seja, o adotado pelos EUA e seguido com sucesso pela Grã-Bretanha. Ele implica privatização, abertura efetiva de mercados, fim dos monopólios disfarçados como ainda existe nos setores de energia e telecomunicação (na França, quem domina mesmo o mercado é a France Telecom). Isso promove a redução da carga tributária, que na Grã-Bretanha, de 32%, é a menor da UE, e atração de investimentos que estão fugindo para a Inglaterra e para os EUA, em conseqüência da alta carga tributária e da rigidez do mercado de trabalho.

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Nesse mercado, é difícil contratar e mais difícil ainda demitir, criando um círculo vicioso cujo resultado é a retomada do nível de desemprego.

Tony Blair bate duro

O líder trabalhista britânico, Tony Blair, que participa das reuniões dos partidos socialistas e tem sido o crítico mais severo do imobilismo europeu, já havia levantado isoladamente essa bandeira, inventando uma tal de terceira via, nem capitalismo nem socialismo, que, no fundo, se baseia na abertura dos mercados. E, como argumento a seu favor, Blair apresenta resultados excepcionais em seu segundo governo, como crescimento do PIB e um menor nível de desemprego (5,1%), não só da Europa, mas de todos os países do G-7, inclusive os EUA. Enquanto neste ano a economia da eurozona não deverá crescer mais de 1,5%, a Grã-Bretanha, que não aderiu à nova moeda cada vez mais desvalorizada pela retração econômica e pela atração do dólar, deverá ficar em 2,3%, segundo estimativa do Banco da Inglaterra.

França recua, mas diz não

O governo anunciou na sexta-feira que a produção industrial francesa em pleno mês de compras, de dezembro, caiu pela terceira vez consecutiva, derrubada por um recuo de 2% nas vendas de carros. Mas não foi só aí. “Não vemos sinal de recuperação neste primeiro semestre e nossos clientes mostram ter alguma esperança de fortalecimento da economia só nos últimos seis meses do ano”, afirma Gerard Hauser, executivo-chefe da Nexans AS, segunda maior fabricante de cabos para computadores. A Volkswagen, a Ford, a General Motors e a Fiat, nos últimos dois meses, fecharam temporariamente suas fábricas de montagem na Europa. A produção industrial representa 25% do PIB e, destes, 8% se concentram no setor automobilístico.

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O primeiro-ministro Lionel Jospin saiu ontem pela tangente. Disse que o povo deve julgar seu governo não pelo crescimento econômico, pífio, estimado em 0,1% no último trimestre do ano passado, mas pela redução do nível de desemprego, que recuou de 10,5% para 9% da força de trabalho. Grande parte desse resultado, porém, é decorrente da criação de empregos temporários pelo próprio governo e a média da eurozona é de 8,5%, Nos últimos meses, o desemprego voltou a aumentar na França, provocando o descontentamento dos eleitores. O governo francês acredita na retomada econômica dos EUA para incrementar as exportações, que recuaram 4% no último ano, e numa redução dos juros para aumentar o consumo, que não reagiu nem mesmo em dezembro.

Jospin e seu partido rejeitam qualquer alteração no atual modelo econômico francês, que predomina também na comunidade européia, alimentado por uma carga tributária média superior à marca de 40%, que incide não só nas empresas, mas sobre os salários também.

Só que desta vez, diante da investida da Grã-Bretanha, da Espanha e da Itália, a França ameaça ficar sozinha. E, enquanto eles brigam, o mundo fica torcendo pelo aumento do consumo de Big Mac’s nos EUA.

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