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SÃO PAULO – Para quem acha que a moratória da Argentina é o único problema que diversos credores internacionais estão passando, a situação do mercado corporativo norte-americano não é muito promissora. Segundo um estudo da empresa de análise e classificação de risco Fitch, o montante total de obrigações que entraram em default nos EUA em 2001 atingiu US$ 78,2 bilhões contra US$ 27,9 bilhões em 2000, que era o recorde anual anterior. Também refletindo a rápida desaceleração da maior economia do mundo, o número de emissores de valores mobiliários que não conseguiram cumprir suas obrigações passou de 115 em 2000 para 173 no ano passado.
Enron foi o caso mais dramático
Somente em dezembro US$ 12,2 bilhões em obrigações entraram em default, impulsionados pelo colapso do conglomerado de energia Enron e da operadora de telecomunicações XO Communications. Este último setor, por sinal, foi o principal responsável pelo aumento nos defaults no ano passado, respondendo sozinho por US$ 28,2 bilhões, ou cerca de 36% do total.
Porém, o caso mais comentado foi o default da Enron. A empresa, uma das maiores do setor de energia norte-americano e com ativos de US$ 61 bilhões no terceiro trimestre do ano passado, foi a maior companhia a entrar em default na história, superando o antigo recorde da Texaco, que tinha US$ 36 bilhões de ativos em 1987. A Enron tinha cerca de US$ 32 bilhões em dívidas, a maioria sem garantias, quando deixou de cumprir seus compromisso financeiros no final do ano passado.
Defaults atingiram também outras empresas de tradição
Embora boa parte dos defaults tenham sido observados em empresas menores e de pouca tradição, sobretudo no setor de telecomunicações, a Enron não foi a única companhia tradicional a não cumprir as obrigações com seus credores em 2001. Entre os fallen angels, ou seja, empresas que tinham suas classificações de risco consideradas não-especulativas até um ano antes do default, podemos citar as empresas do setor elétrico PG&E e Edison, a financeira Finova, a prestadora de serviços de tecnologia Comdisco e fabricante de materiais de construção USG. Somente estas cinco empresas, juntamente com a Enron, foram responsáveis por US$ 24 bilhões em defaults no ano passado.
Taxa de recuperação cai dramaticamente
A taxa de recuperação, que é o montante que os investidores conseguem recuperar nos papéis que não foram pagos, fechou 2001 em 30%, ou seja, 30 centavos para cada dólar da obrigação original. A pior taxa de recuperação ficou com os credores de empresas de telecomunicações, que receberam, em média, apenas 12 centavos por dólar. Porém, a queda foi acelerada: na primeira metade do ano os investidores recuperavam 35 centavos, enquanto no último trimestre esta taxa caiu para 16 centavos por dólar.
Isto significa que, além do número e do volume dos defaults ter aumentado, os investidores conseguiram recuperar cada vez menos dos recursos investidos ou emprestados originalmente, o que prova que todo o cuidado é pouco em uma situação de rápida desaceleração da economia, mesmo que essa seja a maior economia do planeta.