Sua marca preferida de manteiga desapareceu do supermercado? Entenda as razões

Preço do produto subiu o triplo da inflação devido à Guerra na Ucrânia e o La Niña; redução para o consumidor final deve vir só em 2023

Estadão Conteúdo

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Tomar café da manhã está pesando mais no bolso do brasileiro. Além da alta no preço do leite, o da manteiga também disparou e fez o produto sumir das gôndolas dos supermercados — mesmo com a recente deflação no Índice de Preços do Consumidor Amplos (IPCA), o índice oficial de inflação do país. O preço da manteiga já subiu 23,5% nos últimos 12 meses (encerrados em setembro), mais que o triplo do IPCA para o período (7,17%).

Especialistas do setor dizem que os preços mais altos e sumiço nos supermercados são o reflexo da união de fatores como a Guerra na Ucrânia e o fenômeno meterorológico La Niña, que intensificaram o que seria apenas um problema sazonal da entressafra. Essa falta de produto geralmente ocorre quando o pasto fica mais seco e os produtores precisam aumentar o uso de ração para alimentar o rebanho.

Ana Paula Negri, pesquisadora de insumos agropecuários do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo (USP), diz que a produção de leite no Brasil entra no período de entressafra entre abril e setembro, já que no outono e no inverno o clima é mais seco. De forma geral, a substituição do pasto pela ração costuma resolver a questão, mas a situação da pastagem foi agravada neste ano pelo La Niña, que deixou os campos ainda mais secos e exigiu o uso de outras formas de alimentação.

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Ao mesmo tempo, o mundo sente os reflexos macroeconômicos da guerra entre Ucrânia e Rússia. André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), explica que o conflito fez o preço das commodities disparar no mercado internacional, pressionando o valor das rações bovinas (feitas à base de milho e soja). “A entressafra acontece todo ano, é um problema sazonal. Mas a guerra se transformou em um elemento surpresa para os produtores no mesmo período”.

Outro agravante, segundo o economista, foi a desvalorização do real ante o dólar. Como os insumos para ração são comercializados em moeda americana, os produtores de leite brasileiros sentiram ainda mais esse impacto nos preços.

Menos gordura à disposição

Além de encarecer o custo total da produção, a substituição feita na alimentação dos animais, de pasto por ração, ainda traz como efeito a redução na quantidade de gordura na composição do leite. É aí que a situação dos fabricantes de manteiga se agrava, explica a especialista do Cepea. “O gado está acostumado com a pastagem. Quando ele é alimentado com ração, o nível de gordura do leite cai bastante. Assim, é preciso muito mais leite para produzir a mesma quantidade de manteiga”, afirma Negri. “Basicamente a produção de manteiga usa um único produto: o creme de leite, ou seja, a parte de gordura.”

Essa queda no porcentual de gordura do leite na entressafra fez a produção de manteiga cair no país, levando à falta nos pontos de venda. No caso da Aviação, a falta de creme de leite teve impacto direto na produção do seu principal produto, com uma queda de cerca de 30% nos últimos meses. O presidente da empresa, Roberto Rezende, conta que o preço da matéria-prima, durante o período de seca, subiu até 40%. “O pior é que nós não conseguimos repassar esse ajuste para o consumidor”.

Para o executivo, o mercado brasileiro ainda não tem capacidade de produzir a quantidade de creme de leite necessário para garantir o abastecimento de manteigas, sem interrupções, durante os períodos de maior crise, como a entressafra. Hoje, para manter a fabricação do seu principal produto, a Aviação negocia a matéria-prima com cerca de 40 produtores pelo Brasil.

Escolha dos produtores pelo UHT

Além do leite mais “magro”, os negócios de manteiga enfrentaram mais uma questão: a preferência dos produtores de leite em vender a matéria-prima para fabricantes de leite UHT (aquele de “caixinha”). Ao mesmo tempo que a manteiga ficava mais cara, o preço da caixa de leite UHT também disparava nos supermercados. Em julho deste ano, no pico da entressafra, o preço do leite chegou a subir 66%, segundo a inflação medida pelo IPCA.

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Quem sentiu menos essa dificuldade de acesso à matéria-prima foram os negócios que processam mais produtos à base de leite, como a Piracanjuba — que, além de manteiga, também fabrica leite UHT, leite condensado, creme de leite e queijos, entre outros.

O vice-presidente da companhia, Luiz Cláudio Lorenzo, diz que a empresa também sentiu o problema no período de seca, mas, por ser o terceiro maior captador de leite do Brasil, conseguiu mitigar a situação e controlar a queda no faturamento durante o período de carestia do leite. “Nós estamos na nossa capacidade máxima de produção. Somos beneficiados por termos uma maior facilidade de acessar a matéria-prima. Mesmo assim, reduzimos em 3% a produção”.

Quando a situação melhora?

Braz, do Ibre, diz que a situação da produção de leite deve ser normalizada até o fim do ano, já que os próximos meses devem trazer mais chuvas, ampliando a disponibilidade de pasto para o gado, pois “a primavera e o verão são períodos mais generosos para a produção de leite no Brasil”. Para o consumidor final, o especialista diz que a redução nos preços da manteiga deve vir só no começo do próximo ano.

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Enquanto o preço da manteiga nas gôndolas aumentava, o preço da margarina também subia, mesmo o produto alimentício não levando leite em sua composição. O economista da FGV explica que, por se tratar de um substituto direto da manteiga, a margarina também subiu. “O preço sobe por causa do efeito substituição. As família fazem a troca e ambos os produtos encarecem nos supermercados”.