Tesouro Direto pode ter rentabilidade negativa? Entenda

Filipe Villegas, CFP, planejador financeiro certificado pelo IBCPF, responde a pergunta de leitor do InfoMoney

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Pergunta:

Quero investir no tesouro, mas tenho algumas dúvidas:

Quando comprar um título prefixado e pós-fixado indexado a inflação, se ficar com o tílulo até o vencimento corro o risco de ter prejuízo caso a taxa Selic aumente no período investido? Pois em 2013 foi muito ruim, se meu título vencesse neste ano teria um prejuízo ou não? Já que fiquei até o vencimento.

Já ouvi que se vender o título antes do vencimento pode gerar prejuízos pois ele acompanha as flutuações do mercado, mas se ficar até o vencimento também passará por oscilações, minha dúvida é isto, se puder me ajudar agradeço.

Leitor: Leandro

Resposta de Filipe Villegas, CFP, planejador financeiro certificado pelo IBCPF:

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Podemos considerar o Tesouro Direto como um investimento do tipo renda fixa indicado para perfis conservadores. É uma modalidade que ganhou bastante espaço entre os investidores pela facilidade de aplicação e por ser visto pelo mercado como “risco zero”.

Apesar da segurança, muitos investidores foram pegos de surpresa em 2013 devido à alta da Selic, que saiu dos 7,25% ao ano (março de 2013) para 10,50% ao ano (janeiro de 2013). Esse movimento fez com que títulos do tipo prefixados e indexados à Inflação tivessem uma rentabilidade negativa. Cotistas de fundos de investimentos e fundos de previdência alocados em títulos públicos também tiveram suas performances prejudicadas por esse ciclo de alta.

Antes de comentar sobre como ocorre a desvalorização de um título público é fundamental conhecermos um conceito bem importante sobre títulos públicos que é o da marcação a mercado (MAM). A marcação a mercado é uma metodologia utilizada para a precificação de ativos levando em conta o seu preço diariamente, ou seja, independente se levarmos até o seu vencimento ou não, qual seria o valor desse título hoje se quiséssemos vendê-lo.

Os títulos públicos do tipo LTN (Letras do Tesouro Nacional) que são pré-fixados, sabe-se exatamente o quanto de juros vai ser pago no final do período, tem-se também que o seu valor de resgate ou valor de face será sempre de R$ 1.000. Como esse valor será sempre o mesmo, mudanças na Taxa Selic tanto para alta como para baixo fazem com que o valor do título precise ser ajustado afim de que no seu vencimento seu valor seja de R$ 1.000.

Vamos a um exemplo, supondo que a Meta Selic hoje esteja em 10% ao ano, para um título pré-fixado com vencimento para daqui a 1 (um) ano o seu valor atual precisa ser de R$ 909,09. Ou seja, se aplicarmos por 1 (um) ano o valor de R$ 909,09 a uma taxa de 10% ao ano, no final do período teremos R$ 1.000. Portanto para saber o valor de um título hoje, precisamos trazer a valor presente o valor de face, que são os R$ 1.000, considerar a da taxa Selic (Yield) e o prazo de seu vencimento.

Agora vamos supor que no mesmo dia em que fizéssemos a compra do título comentado anteriormente a Meta Selic mudasse para 11% ao ano após a Reunião do Copom. O que iria acontecer com o título que antes custava R$ 909,09? Isso mesmo… Seu valor iria diminuir… Levando em consideração o mesmo prazo e a Taxa Selic em 11% ao ano o valor do título ficaria em R$ 900,90. Esse ajuste ocorre porque o valor final do título terá sempre que ser de R$ 1000 só que agora temos uma taxa de remuneração melhor.

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O mesmo ocorre com títulos indexados à Inflação cuja remuneração a exemplo da NTN-B será de Inflação + Taxa Pré-Fixada. Neste caso temos um fator de remuneração pós-fixado que depende da oscilação do IPCA (Índice oficial de Inflação) mais uma taxa pré-fixada que é determinada no ato da compra do título. E é justamente essa Taxa Pré-Fixada que faz com que esses títulos também tenham seus valores ajustados. Isso ocorre, pois o valor a ser oferecido pelo tesouro em relação à taxa pré-fixada é formada levando em consideração a Meta Selic. No início de 2013 quando a meta estava em 7,25% ao ano as taxas oferecidas pelas NTN-B mais longas estavam próximas a 3,70% ao ano. Depois do ciclo de alta a taxa pré-fixada estava próximo dos 7,00% ao ano. Isso tudo porque a Selic aumentou e para manter a atratividade a taxa pré-fixada do título também precisa subir.

Nesse último caso, gosto de citar um exemplo dado por um grande amigo meu de Brasília. Ele usava o seguinte termo para explicar o porquê da desvalorização aos seus clientes. Imagine que você comprou um carro com motor 1.0 e depois de alguns meses o mesmo modelo é vendido com motor 1.6 tendo mesmo preço e condições idênticas. O que vai ocorrer com seu carro? Isso mesmo… Ele vai desvalorizar, pois hoje temos um veículo que é vendido nas mesmas condições, mas com um motor mais potente.

Finalmente respondendo a sua pergunta posso te dizer que você deve ficar tranquilo, pois o prejuízo em títulos públicos ocorrer somente se você resgatá-lo antes de seu vencimento. Se você comprou um título que pagaria uma taxa pré-fixada de 9,00% ao ano, no final do período você receberá os 9,00% ao ano não importa para onde a Selic vá. A mesma coisa ocorre com os títulos indexados à inflação. Se você comprou um título que pagava IPCA + 4,5%, no final do período você receberá a taxa acordada. Apenas tome cuidado se existe a possibilidade de uma saída antes do vencimento, pois seu título será negociado pelo valor de mercado. E se no ato da venda o seu título tiver “um motor menos potente” ele terá um valor menor.

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Acredito que também seja a dúvida de muitos o fato das recomendações serem de títulos pós-fixados nesse período em que temos um viés de alta para Selic ao mesmo tempo em que temos taxas muito atraentes para títulos pré-fixados entre 12% a 13 ao ano e para NTN-B pagando próximo de IPCA mais 6,5%. Essa indicação ocorre porque essas taxas podem ficar ainda mais atrativas, mas é fato também que as taxas praticadas hoje já estão muito boas.

Filipe Villegas é planejador financeiro pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF). 

As respostas refletem as opiniões do autor. O IBCPF e o Infomoney não se responsabilizam pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações. Perguntas devem ser encaminhadas para onde_investir@infomoney.com.br

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Prezado Hildebrand, 

Pouco a pouco é possível ver mudanças significativas no perfil de investimento dos brasileiros. Percebemos, por exemplo, o crescimento do numero de jovens que estão disponibilizando parte de sua renda para se planejar financeiramente para a sua aposentadoria. É um movimento que tende a crescer cada vez mais ao longo dos próximos anos, especialmente com a educação financeira em curso em nossa sociedade. 

 Sua iniciativa é digna de receber elogios e servir de exemplo a outros tantos… 

 Como seu planejamento para esse investimento tem um horizonte de 15 anos algumas observações importantes devem ser feitas. Em uma simulação com um investimento inicial de R$ 10.000 e aplicações regulares de R$ 500, com uma rentabilidade anual de 10%, atingiremos após 15 anos um capital de R$ 242.583, sem considerar a inflação no período. Com esse capital investido é possível viver com uma renda de aproximadamente R$ 2 mil/mês, complementando a sua aposentadoria. No entanto, a pergunta magica é como atingir essa rentabilidade para um baixo risco no investimento. 

 Com as informações presentes não é possível identificar qual o seu perfil de investidor, onde seria possível identificar o quanto de risco você esta propenso a aceitar em sua carteira de investimentos (para saber o seu perfil de investidor é aconselhável buscar sua instituição financeira e responder ao questionário “Suitability”). No entanto, podemos considerar que você segue o padrão brasileiro de conservadorismo em seus investimentos, bastante carregado de “renda fixa” , mas propenso a conhecer novos produtos para pequenos investimentos. 

 Sugiro, para você superar a rentabilidade apresentada na simulação, que divida seu patrimônio em 2 partes. 

 A primeira parte é separar R$ 5 mil inicial e 80% de suas aplicações regulares para um fundo de renda fixa com credito privado que supere consistentemente 100% do CDI. Muitos fundos conseguem superar esse benchmark, e possuem aplicações inicias bastante acessíveis. Prefira esse investimento as NTN-Bs e a sua aplicação em imóveis. 

 Para os outros R$ 5 mil iniciais, e 20 % de suas aplicações mensais (R$100,00), podemos ser um pouco mais arrojados, buscando atingir uma rentabilidade superior do que a renda fixa. Como sua disponibilidade atual é pequena para ser investida diretamente em ações (coma na sua atual carteira de ações de Vale e Itau), uma excelente alternativa são os fundos de ações. 

 Os fundos de ações são, para a grande maioria dos investidores, a melhor alternativa para seus investimentos em renda variável. Apresentam vantagens como liquidez, diversificação e uma gestão profissionalizadas dos seus investimentos. Com ele você estará bem atendido para atingir sua meta de longo prazo na aposentadoria. Procure gestoras com comprovada competência em sua equipe de analise, e fundos de ações que sejam considerados “Ibovespa ativo”, com a intenção de superar o bechmark. Prefira esses as ações propriamente ditas. 

 E lembre-se: o resultado do seu sucesso financeiro também depende de você! 

 *Fabiano Pessanha, CFP, planejador financeiro certificado pelo IBCPF