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SÃO PAULO – Depois de uma forte valorização em 2009, o real começou o ano entre as moedas com pior desempenho frente ao dólar norte-americano. Até o último pregão, o dólar já acumulava alta de 5,96% frente à divisa brasileira, impulsionado pela maior aversão ao risco – que, por sua vez, deu as caras em meio a apertos monetários na China e preocupações sobre a situação fiscal de países europeus.
Vale mencionar que a alta do dólar também tem fundamentos no cenário local – em especial, a deterioração do déficit brasileiro vista em dezembro, um sinal de supervalorização do real. A projeção do J.P. Morgan para a taxa cambial é de R$ 1,80 para o final de 2010, e R$ 1,90 para o final de 2011.
“Em circunstâncias normais, esperamos que o Brasil atraia US$ 90 bilhões em fluxo estrangeiro”, apontam os analistas, que ressaltam que caso a aversão ao risco permaneça alta, esse fluxo seria prejudicado. Em janeiro, o fluxo para ações brasileiras foi negativo em R$ 2,1 bilhões – pela primeira vez desde junho de 2009.
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Dólar x ações
A moeda brasileira, de acordo com o J.P. Morgan, é um dos principais drivers do mercado de renda variável. Com isso, no ano passado, o mercado brasileiro foi o que acumulou a melhor performance medida em dólares, com retornos 70% mais altos para investidores estrangeiros do que para investidores locais, com a apreciação de mais de 30% do real no período.
Apesar de afirmarem que a queda do real é apenas temporária, e mais relacionada ao recente fortalecimento do dólar do que uma fraqueza da divisa local, os analistas do banco norte-americano analisam as empresas e setores que se beneficiariam desse cenário – e os mais prejudicados por esse movimento do câmbio. Para a análise, o banco criou dois cenários: dólar cotado a R$ 1,75 e R$ 2,00, e fez uma teste de sensibilidade do impacto nos lucros corporativos no caso de uma depreciação de R$ 0,1.
De maneira geral, o J.P. Morgan aponta empresas de matéria-prima, alimentos e setor industrial como as principais ganhadoras em um cenário de dólar valorizado. Por outro lado, empresas do setor aéreo estão entre as mais prejudicadas por um recuo prolongado do real, assim como companhias com dívidas na moeda norte-americana. Os setores financeiro e imobiliário, por sua vez, têm impacto quase nulo de uma apreciação do dólar.
> Agronegócio e Papel e Celulose
>Aéreas
>Aeroespacial
>Alimentos e bebidas
>Construção Civil
>Consumo e varejo e saúde
>Energia e saneamento
>Financeiras
>Telecomunicações e tecnologia
>Siderurgia e mineração
>Petróleo e gás
Agronegócio e Papel e Celulose
“Se todo o restante permanecer constante, um real desvalorizado melhora a lucratividade dos produtores de commodities, já que aumenta as receitas com exportações. Contudo, ‘se tudo permanecer constante’ é raramente o caso”, afirma o JP Morgan em suas projeções para o setor.
Aqui, as razões para a desvalorização do real também devem ser levadas em consideração, assim como o timing e o impacto nos custos. “Se o recuo da divisa brasileira é somente um reflexo da alta do dólar, os preços de commodities devem cair; caso as razões sejam locais, os exportadores podem se beneficiar no curto prazo”, aponta o banco. No setor de papel e celulose, um real mais fraco poderia levar a um aumento na lucratividade para os produtores locais – fazendo com que a Suzano seja eleita pelo banco como a vencedora do setor em um cenário de dólar em alta. Empresas ligadas a grãos e açúcar, por sua vez, também veriam impactos positivos em seus resultados, já que o movimento cambial se refletiria nos preços das commodities – beneficiando também a Açúcar Guarani.
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Aéreas
As empresas de transporte aéreo estão entre as mais prejudicadas por uma alta do dólar. Tanto a TAM quanto a GOL tem grande parte de suas receitas expressas em reais, enquanto a maior parcela dos custos, dívidas, empréstimos e seguros (aproximadamente 50%) está em dólares.
Segundo o banco, uma alta de 10% do dólar levaria a uma perda de R$ 70 milhões nas receitas da GOL – considerando que as demais variáveis permaneçam constantes. Já as receitas da TAM sofreriam queda de R$ 492 milhões no cenário. Assim, apesar do cenário ruim para ambas as companhias, o JP Morgan afirma que a maior exposição da TAM ao mercado internacional prejudicaria mais os números da empresa no caso de uma valorização do dólar.
Aeroespacial
O destaque é a Embraer, por ter grande parte dos custos em real e grande parte das receitas em dólares. Com isso, segundo os dados da empresa, uma valorização de US$ 0,1 na taxa de câmbio afetaria entre 30 e 50 pontos-base a margem Ebit.
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Alimentos e bebidas
As empresas de alimentos são apontadas entre as grandes beneficiadas de um dólar em alta, segundo o JP Morgan. A Minerva, por exemplo, é um “vencedor imediato” de um cenário de real desvalorizado, beneficiada pela forte participação de exportações em suas receitas (64%).
Da mesma maneira, a Marfrig também sairia beneficiada da alta do dólar – entretanto, seus custos seriam mais negativamente impactados pela alta da moeda norte-americana do que os da Marfrig. As grandes empresas do setor, como Brasil Foods e AmBev, se beneficiam menos no cenário proposto pelo banco norte-americano, especialmente devido as grandes despesas de ambas em dólares.
Construção civil
De acordo com o J.P. Morgan, o impacto nas empresas do setor seria limitado, já que as despesas das companhias são, em sua maior parte, na moeda local. Pressões de custo nos materiais, segundo o banco, seriam facilmente repassadas ao consumidor final. “O principal impacto no setor seria na confiança do consumidor, que deve afetar mais a alta renda”, aponta o banco, que escolhe como favoritas empresas com maior exposição à baixa renda, como PDG, MRV e Rodobens.
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Consumo e Varejo e Saúde
Aqui o impacto de um dólar valorizado é minimizado devido à baixa participação de produtos importados no mix de vendas de grandes companhias do setor, como Lojas Renner e Lojas Americanas. Além disso, uma alta da moeda norte-americana prejudicaria de forma mais ou menos igual todas as empresas do setor – o que ou levaria a uma alta dos preços ou a uma perda de margens no segmento.
Uma das principais prejudicadas, devido à alta participação de eletrônicos e produtos de linha branca em suas vendas, seria a B2W.
Por outro lado, a Natura sairia ganhando em um cenário de alta do dólar, já que enquanto os seus custos na moeda norte-americana são baixos (em torno de 10%), o mesmo não ocorre com alguns de seus competidores, como a Avon.
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Já no setor de saúde o J.P. Morgan não aponta vencedores ou perdedores. “Os impactos tendem a ser pequenos e semelhantes em todas as companhias, então o que ocorreria seria uma adaptação de preços”, afirmam os analistas.
Energia e Saneamento
Os impactos diretos no setor são bastante limitados, já que as receitas e gastos destas companhias são expressos em reais, e a maior parte das despesas com ligações com a moeda norte-americana é repassada ao consumidor final.
Uma exceção é a Eletrobrás, que ainda tem um nível relativamente alto de recebíveis em dólares, e seria a empresa mais bem posicionada para uma eventual depreciação de R$ 0,1 do real, com um aumento de R$ 385 milhões em suas receitas líquidas anuais. O endividamento dessas empresas em dólares, por sua vez, vem diminuindo ao longo dos anos.
Entretanto, Cesp e Sabesp ainda têm dívidas na moeda norte-americana relativamente altas, e seriam, assim, as mais impactadas no cenário. De acordo com o banco, uma depreciação de R$ 0,1 do real geraria um impacto negativo nas receitas líquidas de 11% e 5%, respectivamente.
Financeiras
“De maneira geral, as empresas do setor financeiro têm pouca exposição direta a variações da taxa de câmbio”, afirma o banco – que, com isso, não aponta claros vencedores ou perdedores no setor. Entretanto, como visto em 2008, alguns bancos podem se prejudicar mais devido a sua exposição direta ou indireta a derivativos – nesse caso, o JP Morgan afirma preferir Bradesco e Banco do Brasil a Itaú Unibanco e Santander.
Já as empresas de cartões de crédito, Redecard e Cielo, devem sofrer um leve impacto negativo com a apreciação do dólar, devido aos custos relacionados a equipamentos para pontos de venda.
A BM&F Bovespa, por sua vez, pode se beneficiar da maior volatilidade provocada pela mudança no câmbio, vendo uma maior demanda por derivativos de câmbio por parte de empresas e especuladores.
Telecomunicações e tecnologia
De acordo com a equipe do JP Morgan, o setor de telecomunicações sofreria impactos limitados de uma alta do dólar, já que tanto custos quanto receitas do segmento são primariamente em reais.
Entretanto, empresas de telefonia móvel seriam levemente impactadas devido ao maior custo dos materiais. Com isso, a TIM seria a mais prejudicada por um real desvalorizado, já que teria dificuldade em transferir os maiores custos dos aparelhos ao consumidor final.
Do lado vencedor, não há nenhum grande destaque. A Positivo é citada pelo banco como potencial beneficiária, já que poderia levar a um aumento do consumo de computadores nacionais.
Siderurgia e mineração
Com quase 100% das receitas em dólares e grande parte das despesas em real, uma apreciação da moeda norte-americana seria positiva para as mineradoras – que teriam, entretanto, que lidar com um avanço de suas dívidas expressas em dólares.
Aqui, a Vale é apontada como a mais bem posicionada para uma depreciação da moeda brasileira. “Os benefícios de uma valorização do dólar ofuscam a alta porcentagem (98%) de seus débitos em dólares”, aponta o banco, que projeta um avanço de 1,1% no Ebitda (geração operacional de caixa) da empresa para uma depreciação de R$ 0,1.
O panorama é diferente para as siderúrgicas. No curto prazo, as despesas em dólares e as vendas em reais seriam prejudicadas com um dólar mais alto – entretanto, no médio prazo, os preços do aço no mercado doméstico devem avançar, minimizando os efeitos negativos dos custos.
No curto prazo, a Usiminas é a empresa que mais sofreria com uma eventual apreciação do dólar, devido a sua alta exposição a matérias-primas externas – um avanço da moeda norte-americana para R$ 2 levaria a perda de 5% do Ebitda da empresa no ano.
Petróleo e gás
O setor é considerado pelo banco norte-americano como um segmento “dolarizado” – com isso, mudanças temporárias no câmbio têm pouco impacto nos resultados de curto prazo, e menos ainda no longo prazo.
Considerando a exposição de caixa dos dois cenários propostos pelo banco – dólar a R$ 1,75 e R$ 2,00 – a maior beneficiada seria a OGX. Segundo o JP Morgan, os danos só apareceriam na avaliação do balanço da companhia em dólares, já que a empresa ainda está em fase pré-operacional e seus custos estão relacionados com despesas de perfuração e exploração, financiados pelo fluxo de caixa.
A Lupatech, por outro lado, seria a mais prejudicada pelo cenário, já que 50% de sua dívida é expressa na moeda norte-americana, enquanto apenas 28% das receitas são em dólares.
Já a maior empresa do setor, a Petrobras, deve sofrer um impacto levemente negativo de uma apreciação do dólar. “Estimamos que uma desvalorização temporária de 14% do real levaria a uma alta de 10% no Ebitda e receita líquida da estatal em 2010. Entretanto, uma queda permanente do real prejudicaria a capacidade da empresa em financiar suas dívidas em dólares”, explicam os analistas.