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Crise pede uma análise do comportamento dos principais bancos centrais

Analistas do Société Générale estudam manobras de estímulo adotadas por Fed, BCE, BoJ, BoE e People's Bank of China

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SÃO PAULO – Responsável por diluir os impactos provocados pela crise de crédito, o Estado exerce papel importante quando precisa intervir na economia, fornecendo garantias em meio a tantas incertezas. Em grande parte das vezes, tais medidas se concretizam através do instrumento monetário, no modo pelo qual os bancos centrais decidem, por exemplo, o patamar da taxa de juro básica de um país.

Partindo da premissa de que os principais bancos centrais ao redor do mundo deverão indicar o ritmo da economia nos próximos meses, o Société Générale divulgou relatório no qual avalia as decisões dos principais comitês, passando de Washington a Pequim, sem esquecer Tóquio, Londres e toda Zona do Euro.

BCE mantém-se cauteloso

Iniciando no velho continente, a instituição financeira ressalta a recente flexibilização na política monetária, quando o BCE (Banco Central Europeu) decidiu cortar o juro básico da região em 50 pontos-base, para o patamar de 2% ao ano. Para os analistas, o movimento da autarquia se baseia numa antecipação do iminente enfraquecimento da atividade econômica européia.

Ao olhar para o horizonte, baseado nas palavras de Jean-Claude Trichet, o banco francês projeta que a política monetária deverá manter-se inalterada na reunião do próximo mês. “Próximos cortes devem vir e, na nossa visão, provavelmente serão modestos e em pequenas doses”, projetam os analistas para encontros posteriores ao de fevereiro, na crença de que o juro básico na Zona do Euro deverá terminar 2009 em 1,5% ao ano.

Fed quer injetar liquidez

Atravessando o Atlântico, o Federal Reserve encontra-se sem seu instrumento monetário no combate à desaceleração. Nesse sentido, o Société ressalta o iminente programa Talf (Term Asset-backed Liquidity Facility), no qual o governo pretende fornecer liquidez e garantir os empréstimos de automóveis e de estudos, bem como os financiamentos realizados com cartões de crédito.

“O aumento da liquidez nesses mercados de financiamento é o ponto-chave para a quebra do círculo vicioso”, afirmam os analistas, ao observarem o seguinte ciclo: famílias cortam dispêndios, corporações reduzem produção, aumenta a taxa de desemprego no país e diminui a renda disponível por parte das famílias, reduzindo o consumo e começando novamente um círculo vicioso.

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Encerrando nos EUA, vale ressaltar as diferenças desta flexibilização quantitativa norte-americana em relação à realizada pelo BoJ (Bank of Japan) no início da década. No caso da vigente, a instituição se foca em programas específicos, visando fornecer liquidez em mercados particulares, por meio de aquisições seguras – vide commercial papers. Já em relação à japonesa, todo o montante foi destinado a bancos regulados pelo Estado, com o objetivo de fomentar o volume de empréstimos no país.

BoE preocupa-se com desemprego

Na terra da Rainha, o cenário a ser enfrentado pelo BoE (Bank of England) não difere do visto nos EUA, muito menos daquele no Japão. Recuo da inflação, prospectivas negativas no tocante a variação do PIB (Produto Interno Bruto), vendas em baixa no varejo e aumento significativo na taxa de desemprego constituem as principais preocupações de Marvyn King, presidente da instituição britânica, e seu colegiado.

Em meio a tanta turbulência, o governo do Reino Unido apresentou um novo pacote de ajuda ao setor financeiro, lastreando seguros e obrigações, bem como lançando um programa para a compra de ativos, com £ 50 bilhões destinados apenas para aquisições. Quanto à garantia, o Estado pretende avalizar até 90% das possíveis perdas oriundas de ativos problemáticos dos bancos.

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“Aqui não há lugar para dúvida – o mercado de trabalho está se deteriorando gravemente”, afirmaram os analistas do banco francês, ao explicitarem o viés com o qual enxergam o aumento do desemprego na região. Dado este olhar, a instituição financeira projeta incremento de 0,2 ponto percentual na taxa de desemprego do país, passando de 3,3% para 3,5%, o que equivale a 65 mil demissões (montante esperado para dezembro último).

BoJ facilita crédito

Para o Société Générale, a recessão na maior economia da Ásia é certa, a ser explicitada na divulgação dos dados referentes ao PIB do último trimestre. Contudo, a instituição financeira alerta para a intensidade desta desaceleração, ao passo que um recuo na casa de dois dígitos é uma situação relativamente provável, o que se fundamenta na baixa acima de 15% nos pedidos de manufaturas e de máquinas no decorrer de novembro último.

Se o presente preocupa, no horizonte a tendência é de piora. “Não temos dúvida de que o Japão está entrando num ajuste muito profundo do capex (plano de investimentos), que impedirá o crescimento econômico por um tempo”, observa a instituição financeira, com base na última pesquisa Tankan de dezembro, na qual o setor industrial possui perspectivas descendentes no tocante aos dispêndios com bens de capital.

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Em consonância com o Federal Reserve, o Bank of Japan também perdeu o instrumento monetário como arma no combate à crise de crédito. Dentre as alternativas restantes, os analistas do banco francês acreditam que a aquisição de títulos de dívidas corporativas e a aceitação de ativos com baixa qualidade como colaterais a realização de empréstimos serão os dois pilares que sustentarão os passos de Masaaki Shirakawa – chairman do BoJ – nos próximos meses.

People’s Bank of China com medidas acertadas

“As ordens de Pequim estão funcionando: os empréstimos bancários cresceram no final de dezembro último e o avanço da oferta monetária subiu drasticamente”. A afirmação inicia as páginas dedicadas ao People’s Bank of China, banco central chinês, e elogia a eficiência das medidas tomadas pela instituição, cujo teor inclui pressão sobre bancos governamentais para propulsarem a realização de empréstimos, na ponte entre público e privado.

Por último, ênfase a dois tópicos listados pela equipe do Societe Generale: a projeção de crescimento de 6% a 7% no PIB do último trimestre – baixo na comparação com a serie histórica, mas respeitável em relação ao cenário econômico mundial; e o enfraquecimento das importações no país num ritmo mais acelerado do que a baixa nas exportações, o que refletirá em probabilidade de déficit comercial nos países periféricos da Ásia, que enviam produtos para a terceira maior economia do mundo.

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Mudanças nas taxas básicas de juro*
Instituição Mês Anterior Posterior Variação
Banco Central Europeu Março 2% ao ano 1,75% ao ano 25 pontos-base
Banco Central Europeu Junho 1,75% ao ano 1,5% ao ano 25 pontos-base
Bank of England Março 1% ao ano 0,5% ao ano 50 pontos-base

*Para as instituições não listadas, o Société Générale prevê manutenção da política monetária