A velha e a nova geração de investidores: o que mudou nas últimas décadas?

Nos anos 70, muitos venderam a casa para comprar ações na Bolsa. Episódio afastou toda uma geração do mercado

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SÃO PAULO – Para comprar a casa onde mora hoje com seus filhos, o pediatra Jocely Nunes, 60 anos, vendeu uma linha de telefone. Eram fins dos anos 80. Naquela época, investir em linhas de telefone era normal.

“Era um excelente investimento, porque não perdia valor facilmente. Na época, eu vendi a linha de telefone por algo em torno de R$ 95 mil, sendo que a casa estava custando R$ 120 mil. Era difícil ter um telefone, porque era caro. O preço aumentava em regiões que careciam de linhas de telefone”, conta ele.

Os tempos são outros. Nos dias atuais, falar de investimento em telefone é estranho. Afinal, a economia do País se desenvolveu, a inflação é baixa e muitas empresas brasileiras não somente se consolidaram como se tornaram multinacionais.

Antes e depois

“A grande diferença entre as gerações de investidores é que a mais nova trabalha em um ambiente muito mais favorável. Por conta da internet, há mais informações disponíveis, a economia do País se estabilizou, o nível de inflação está sob controle, os fundamentos macroeconômicos melhoraram e a globalização impôs um maior rigor na fiscalização das empresas – o que pode ser representado pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários)”, diz o diretor do MBA Executivo da Faap, Tharcisio Souza Santos.

O investidor Hudson Valinhos, 30 anos, concorda que o marco foi a estabilização da economia. “Levando em conta que ações têm muito mais liquidez do que outro tipo de patrimônio, chegaremos ao acordo de que a grande mudança foi a estabilidade da economia”, avalia.

O diretor do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas do Mackenzie, Moisés Ari Zilber, lembra que, há algumas décadas, não somente linhas de telefone eram a preferência do investidor como também automóveis e imóveis para locação. “Existia uma carência na oferta de imóveis, de forma que estes se valorizavam bastante. Era normal as pessoas contratarem um engenheiro para construir uma casa, para depois vendê-la”. Com relação aos telefones, ele conta que alguns de seus conhecidos tinham “30, 40 até 50 linhas alugadas”.

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Já no mercado financeiro, segundo ele, a poupança reinava e era vista como o melhor dos mundos. Com o passar do tempo, começaram a se destacar mais também os títulos do governo e os fundos referenciados DI, explica. As operações overnight também eram comuns e traziam boa rentabilidade aos investidores.

A diferença entre a velha e a nova geração
Antes Hoje
Preferência por linhas de telefone, automóveis, imóveis, poupança, renda fixa Preferência por fundos multimercados, fundos de ações, Bolsa, renda fixa
Apetite menor ao risco Apetite maior ao risco
A Bolsa era vista como algo direcionado a “irresponsáveis” A Bolsa é vista como um ambiente positivo ao investidor
A Bolsa era incipiente A Bolsa está consolidada
Investidores tinham dificuldade de se informar Com a internet, ficou mais fácil se informar
Não havia homebroker Homebroker revolucionou modo de investir
Confiava-se muito no gerente do banco Investidor é mais independente
Bancos grandes eram a preferência Corretoras e bancos menores têm papel fundamental

Risco: um velho fantasma?

O empresário Bruno Yoshimura, 23 anos, opina que, de forma genérica, os investidores mais jovens são mais adeptos ao risco, bem como têm mais vontade de aprender. Mas, por que seria? “Talvez porque a economia está mais estável”, responde. A senha, na realidade, pode estar na crença popular que dominava o país antigamente, com relação ao risco. Se poucos topavam se arriscar, por que aprender algo pelo qual não há interesse?

“Antigamente, as pessoas, no geral, investiam em ativos que implicavam menos risco, como títulos do Tesouro e poupança. A renda fixa rendia muito, por conta da Selic de dois dígitos, então creio que as pessoas se acomodaram e não procuraram aprender a investir na Bolsa“, opina Yoshimura.

Zilber, do Mackenzie, diz que a aversão à renda variável tinha motivo: a instabilidade da Bolsa. “Na década de 70, a bolsa de valores valorizou demais e muitas pessoas venderam a casa para aplicar em ações. Elas perderam o dinheiro. O episódio levou toda uma geração a se manter afastada da Bolsa”.

Não por acaso, durante anos, existiu um mito, no Brasil, de que as pessoas que investiam em ações eram irresponsáveis, gostavam de jogatinas, de apostas. Feita esta análise, é importante, entretanto, não generalizar. Há investidores das gerações mais antigas que sempre preferiram aplicações arriscadas, ao mesmo tempo em que muitos dos jovens são conservadores.

“O que ocorre é que, naquele período, a bolsa de valores brasileira não estava consolidada, era incipiente e sujeita a manipulações de grandes grupos, que conseguiam alterar o curso do comportamento das ações”, explica. “Com os anos, a Bolsa foi amadurecendo, se solidificando, e, atualmente, é algo muito complexo”.

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Os jovens e o risco

Para Valinhos, os jovens têm mais apetite ao risco porque, geralmente, “moram com os pais, não possuem grandes despesas fixas e têm uma vida inteira pela frente (o que significa que podem arriscar, já que, em caso de perda, eles têm tempo para recuperar o investimento), bem como sabem usar a internet”.

“É possível obter informações sobre as empresas listadas na Bolsa em tempo real. Além disso, o homebroker também facilitou os investimentos, dando mais segurança na hora de investir. Isso tudo seria impossível sem a internet!”.

O papel do gerente e do banco

Outras características das gerações mais velhas de investidores são a confiança quase incondicional na figura do gerente do banco e a preferência por grandes bancos na hora de selecionar um intermediário para suas aplicações. Tais características não são hoje tão evidentes nos jovens. “Os gerentes de banco às vezes fazem o possível para vender produtos ruins”, alerta Yoshimura.

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“Eu e meus amigos preferimos empresas que cobram taxas de administração menores, caso de algumas corretoras. Já os mais velhos continuam preferindo a credibilidade dos bancos tradicionais”. A crença de que as instituições financeiras grandes são melhores gestoras de fundos, por exemplo, pode estar ligada à época em que os bancos no País quebravam.

Da época em que as instituições financeiras quebravam até hoje, o sistema financeiro brasileiro se desenvolveu e se sofisticou. “Hoje existe o private banking, a governança corporativa, a multiplicação das empresas de auditoria externa, os bancos passaram a focar mais em um segmento intermediário, tipo Prime, vieram as multis financeiras… Antigamente, não havia nada disso”, afirma Santos, da Faap, que sublinha ainda o papel que teve a regulamentação dos fundos na história dos investidores brasileiros.

“O mercado, atualmente, é muito mais sadio. Por exemplo, quem se lembra do escândalo protagonizado por uma empresa de capital aberto, nos anos 60? Essa empresa vendeu debêntures de porta em porta e, na hora do resgate, disse que não tinha realizado as vendas. Naquela época, o mercado era intrépido. Hoje é profissional”.