Moradores e construtoras mudam a paisagem urbana de São Paulo

Iniciativa privada resolve investir na revitalização do espaço público de seu interesse e se beneficia com a valorização dos imóveis

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SÃO PAULO – Algumas cidades do mundo apresentam uma dinâmica urbana surpreendente, com capacidade de crescimento e renovação da paisagem fora de alcance do poder público. Esse é o caso de São Paulo, cidade que consegue de uma hora para outra transformar seu espaço e confundir visitantes e moradores desavisados.

Em alguns meses, ruas marginalizadas, com poucos serviços e sem atrativos visuais tornam-se espaços sofisticados, com uma grande ofertas de imóveis de luxo, ou quarteirões onde empresas multinacionais instalam filiais. E não são apenas os terrenos particulares que sofrem essa transformação. Ruas, calçadas, canteiros verdes e praças são reformados por moradores e empresas da região, o que no curto prazo se traduz em ganhos de capital para os proprietários dos imóveis.

Incorporadoras pagam a conta para os vizinhos

Em função da escassez de grandes terrenos em endereços consagrados da capital, atualmente as incorporadoras paulistanas estão buscando novas ruas para instalar condomínios de luxo, onde segurança e conforto são oferecidos a famílias de alta renda. Obviamente muitas delas não são apropriadas para receber prédios de apartamento de quatro dormitórios, que podem chegar a valer mais de R$ 1 milhão.

E para atrair compradores para os novos empreendimentos são obrigadas a promover uma verdadeira operação plástica na região, com direito a plantio de árvores, reformas de calçadas e praças, retirada de outdoors e, inclusive, pintura de fachadas vizinhas.

Com essa estratégia – que no final das contas requer pouco investimento – é possível elevar o preço dos imóveis da região e registrar ótimos ganhos na comercialização das propriedades. Saem lucrando as empresas, os proprietários de imóveis do local e também outros moradores do bairro, que recebem ruas mais arborizadas, praças para lazer dos filhos e uma vista mais agradável. É o que vem ocorrendo em bairros como Pinheiros, Itaim e até mesmo Alto de Santana, ligeiramente afastado do centro expandido, porém com grande especulação imobiliária.

Nesse último bairro, uma ruazinha pouco percebida, onde se localizam pequenas casas e o estacionamento de um supermercado mudou radicalmente sua paisagem no ano passado. Exuberantes palmeiras adultas foram plantadas ao longo da rua, o calçamento foi refeito e canteiros de vizinhos com poucas posses foram reformados. Tudo isso para receber um edifício com apartamentos de quatro dormitórios, com 180 m2, que são comercializados por mais de R$ 450 mil.

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Recuperação de áreas abandonadas

Além de viabilizar a construção de novos condomínios, a intervenção cirúrgica de agentes privados em espaços públicos também pode ter um efeito de revalorização do patrimônio. Mesmo quando algumas áreas não possuem mais terrenos disponíveis para novos empreendimentos, por apresentarem boa localização, exigem (e ultimamente vêm recebendo) investimentos dos próprios moradores do bairro.

Um bom exemplo se localiza na Rua Lineu de Paula Machado, endereço do tradicional Jockey Club de São Paulo. Segundo a reportagem publicada na revista Veja, cada morador está investindo de R$ 3 mil a R$ 10 mil na reforma do local, atualmente ocupado durante todo o dia e noite por prostitutas e travestis. Ao todo serão aplicados R$ 1,3 milhão para recuperar muros, melhorar a iluminação, reconstruir praças e reestruturar a calçada, com a finalidade de afastá-las do local.

O objetivo final é revalorizar a região, que chegou a ser uma das mais nobres da capital até 20 anos atrás. Conseqüentemente os moradores das ruas próximas ao Jockey também serão beneficiados com as medidas, sobretudo com a diminuição da criminalidade, fortemente associada às atividades ilegais.

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A questão-chave desse tipo de iniciativa é a independência do poder público na intervenção urbana. O paulistano, maior interessado na recuperação da cidade, pode intervir de maneira autônoma, sem ter que esperar por medidas da Prefeitura. É importante não perder de vista que em projetos como esses o Município também oferece uma contrapartida, como máquinas, veículos e alguma assessoria para as obras.

Por se tratarem de iniciativas pontuais, em regiões desenvolvidas e com proprietários endinheirados, a recuperação dessas áreas é relativamente fácil. Não é preciso promover políticas urbanas complexas, como alterar o trânsito local, mexer na estrutura fiscal do município (leia-se subsídios fiscais) para modificar o perfil do morador da região e atrair novos investimentos. Basta a união de alguns moradores, dinheiro no bolso e a ajuda de um bom arquiteto e urbanista.