Brasileiro prefere consumo à poupança

País ficou com o 3ª lugar no ranking dos que não têm sobra de caixa e na 34ª colocação entre os que poupam o que sobra; estudo incluiu 38 países

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SÃO PAULO – A baixa renda dos trabalhadores e a conseqüente falta de sobras orçamentárias explicam apenas em parte a reduzida taxa de poupança verificada entre os brasileiros, uma vez que este comportamento também decorre de hábitos culturais e de consumo. Pelo menos é o que sugere pesquisa realizada pela AC Nielsen com internautas de 38 nações, que foi divulgada nessa semana.

De acordo com a sondagem, que se concentrou em um universo basicamente formado pelas classes A e B, entre todos os consumidores do Brasil que conseguem fechar o mês com algum tipo de sobra de caixa, apenas 36% aplicam os recursos extras em algum tipo de investimento. Esta parcela coloca o Brasil na 34ª posição da pesquisa.

Curiosamente, o resultado nacional se assemelha bastante com os números dos Estados Unidos, que muito embora seja uma nação com renda per capita bem mais elevada que a brasileira. Apenas 37% dos entrevistados que possuem sobras orçamentárias nos EUA afirmaram que usam esses recursos para poupar. Com isso, os EUA ficou com a 33º posição no estudo.

Consumismo elevado

Partindo do princípio de que o público pesquisado pela AC Nielsen compõe uma parcela da população que tem condições de poupar, o fato de que somente uma pequena parcela dos entrevistados o faça sugere uma intensa prática consumista nestas duas nações.

Essa constatação se confirma ao quando analisamos que, no mesmo estudo, dentre os 38 países analisados, os EUA e o Brasil ficaram, respectivamente, com a 1ª e a 3ª colocação em termos do percentual de entrevistados que afirmou fechar o mês sem qualquer sobra de caixa. Enquanto nos EUA 28% dos entrevistados se encaixam nesse perfil, no Brasil esse percentual é de 23%.

Menos poupadores que os brasileiros e os norte-americanos, apenas os portugueses, os poloneses e os gregos, segundo aponta o estudo. Os chilenos têm nível similar ao do Brasil.

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Asiáticos precavidos

Prova de que o costume de poupar decorre de alguns elementos culturais, o estudo da AC Nielsen mostra que os dez países onde o hábito de poupar é mais freqüente estão na Ásia. Enquanto apenas 36% brasileiros que fecham o mês com sobra afirmam poupar, na Índia esse percentual é de 113%.

Vale dizer que o resultado ultrapassa os 100% porque os entrevistados estavam livres para responder se aplicavam em poupança, ações e fundos ou em planos previdenciários. Como uma pessoa pode ter recursos alocados em mais de um desses lugares, é possível que as respostas superem o número de consumidores avaliados.

O segundo colocado entre as nações mais poupadoras foi Taiwan, com taxa de 108%. Na seqüência, aparecem Singapura (91%), Indonésia (89%), Hong Kong (82%), Filipinas (82%), China (80%), Malásia (80%), Tailândia (72%) e Japão (65%), que divide a décima colocação com a Áustria.

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A população destes países com hábito mais difundido de poupança e investimento tem menos chance de enfrentar problemas financeiros no futuro, quando as pessoas se aposentam e passarem a não contar mais com a renda do trabalho. Eventuais gastos públicos com pagamento de benefícios assistenciais e previdenciários também tendem a diminuir.

Cabe ressaltar, porém, que reserva excessiva de capital pode ser prejudicial à economia de um país, já que a queda no nível de consumo produzida pelo excesso de poupança pode comprometer o crescimento da economia, como sugere o caso do próprio Japão.

Poupança, ações ou previdência?

A pesquisa da AC Nielsen apurou também entre os internautas dos 38 países analisados quais são as principais formas de poupança e/ou investimento realizados por eles. A tradicional poupança é mais empregada nas Filipinas, sendo utilizada por 63% das pessoas com sobras orçamentárias. Logo depois vem Taiwan, com taxa de 60%.
Considerando as ações e fundos, a Índia ocupa isoladamente a primeira posição, já que 41% dos indianos que ganham mais do que gastam alocam parte destes recursos extra para estes investimentos. O segundo lugar nesta forma de aplicação também fica com Taiwan (31%).
A terceira modalidade de aplicação são os planos previdenciários, que ao contrário dos demais casos, possuem mais popularidade em países europeus, e não asiáticos. Neste caso, as primeiras colocações ficam com Áustria (27%) e Alemanha (24%). Com taxa de 18%, a Índia, no terceiro posto, é a representante da Ásia mais bem colocada.
No caso brasileiro, a forma de aplicação mais popular é a poupança, com 22% das respostas dos entrevistados. As ações e fundos de investimento vêm na seqüência, com 11%, e os planos previdenciários são utilizados por apenas 3% das pessoas aptas a investir. Esta baixa incidência corrobora o resultado de uma pesquisa recente do Ibope, cujo resultado revela que o acúmulo de capital para a aposentadoria e velhice justifica as aplicações de apenas 5% dos investidores nacionais.