Banco Central perdeu a chance de reduzir os juros

Condições eram favoráveis há um mês; porém com aumento do risco país, mercado aposta agora na manutenção ou aumento, como sugerem juros futuros

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SÃO PAULO – O Banco Central pode acabar pagando muito caro pelo excesso de conservadorismo em suas duas últimas reuniões, nos meses de abril e maio, quando optou pela manutenção dos juros básicos da economia em 18,5% ao ano. Depois de reduzir os juros básicos da economia duas vezes consecutivas, respectivamente nos meses de fevereiro e março deste ano, a autoridade monetária optou pelo conservadorismo e manteve a taxa Selic inalterada em suas duas últimas reuniões.

Preocupação excessiva com inflação

Diante da aceleração da inflação nos meses de abril e maio, decorrência quase que exclusiva do aumento dos combustíveis, que sofreram três reajustes consecutivos em decorrência da alta do petróleo, o Copom (Comitê de Política Monetária) optou pelo conservadorismo, mantendo os juros em suas ultimas reuniões. A inflação medida pelo IGP-M saltou de 0,09% em março para 0,56% em abril, para subir novamente em maio quando ficou em 0,83%.

Apesar da alta dos preços, o mercado apostava em novos cortes dos juros, uma vez que o risco-país no período havia recuado, com reflexos positivos sobre a cotação do dólar, que depois de chegar aos R$ 2,46 no início de fevereiro, recuou para fechar o mês de abril em R$ 2,36.

Antes da sua última reunião no final de maio, a autoridade monetária deu sinais de que estaria finalmente considerando um corte nos juros. O próprio presidente do Banco Central, Armínio Fraga, chegou a sugerir esta possibilidade na imprensa poucos dias antes da reunião. Contudo, mais uma vez o conservadorismo prevaleceu, e apesar dos sinais claros de que a decisão não foi unânime, com 5 votos a 3, o Copom optou, novamente por manter os juros.

A falta de consenso fez crescer as esperanças do mercado de que um novo corte nos juros estaria próximo, o que levou a curva de juros futuros a registrar forte queda, com alguns contratos de vencimento mais curto chegando inclusive a apontar para um corte de 0,50 ponto percentual, com as taxas caindo para 18% ao ano, logo após a reunião do Copom de maio.

Falta de comunicação precipitou a crise

O grande problema da decisão do BC é que, ao privilegiar o combate à inflação, guardando sua munição para promover um corte mais substancial nos juros quando os efeitos pontuais da alta dos combustíveis deixassem de pressionar os índices inflacionários, a autoridade monetária se esqueceu que, nestas horas, timing correto é muito importante.

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Apesar de ter conseguido contornar com sucesso a crise política, anunciando um pacote alternativo para recompor as perdas com a arrecadação da CPMF, e, com isto forçado sua votação no Senado, o governo foi extremamente inábil na administração das mudanças nas regras dos fundos de investimento, ocorridas no final de maio.

A decisão de antecipar o ajuste de setembro para maio, certamente foi acertada, pois buscou reduzir as perdas exatamente dos pequenos investidores, que tendo menos acesso à informação seriam os últimos a sacar seu dinheiro, e exatamente por isto acabariam perdendo muito mais dinheiro. Contudo, as autoridades monetárias falharam na forma como comunicaram estes ajustes. Tentando minimizar o pânico evitando falar sobre o assunto, ou esperando que o mesmo perdesse importância em alguns dias, o Banco Central e a CVM acabaram por reforçar o sentimento de pânico entre os pequenos investidores, que na manhã de 3 de junho, se depararam com perdas de até 5% no valor de suas aplicações em fundos DI e de renda fixa.

Na ausência de informações, os investidores adotaram a postura que era de se esperar neste tipo de situação – entraram em pânico – e sacaram cerca de R$ 2,38 bilhões de recursos aplicados nos fundos DI e de renda fixa em apenas dois dias. Os saques só serviram para aumentar ainda mais a magnitude das perdas dos fundos, pois forçou os gestores a vender suas aplicações a valores mais baixos, isto é, forçou os fundos a realizar suas perdas.

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Risco-país sobe e dificulta corte nos juros

Este cenário acabou atingindo seu ápice durante esta semana, quando o Governo não conseguiu rolar sua dívida interna, mesmo oferecendo um prêmio bastante alto e prazo mais curtos.

O dólar, termômetro do nervosismo do mercado, disparou e chegou perto dos R$ 2,80, cotação que não era alcançada desde setembro do ano passado, quando o BC foi obrigado a intervir no mercado, aumentando os depósitos compulsórios para reduzir a liquidez do mercado, e conseqüentemente, a volatilidade no mercado de câmbio. Da mesma forma, o risco país subiu forte, chegando a bater os 1.200 pontos, enquanto os contratos de juros futuros, que já se ajustavam para um corte dos juros em junho, subiram forte, com os juros dos contratos de janeiro batendo os 24%.

Nesta quinta-feira, pressionado pelo recusa do mercado em aceitar novos títulos de dívida pública, o Governo, através do Banco Central, anunciou um pacote de medidas, garantindo uma liquidez adicional de U$ 23,6 bilhões através da redução do piso das reservas e do saque de recursos do FMI. A iniciativa surtiu efeitos e os juros futuros despencaram fechando em 18,60% nos contratos de julho, enquanto o dólar caiu para R$ 2,708 no fechamento.

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Diante da reação pouco positiva do mercado com relação ao pacote, o BC voltou a intervir e anunciou o aumento dos compulsórios com forma de conter a volatilidade nos mercado. Apesar disto, uma coisa é certa: as condições para que a autoridade monetária opte pelo corte dos juros deixaram de existir, e se antes o mercado pressionava por esta decisão, agora já aposta em uma manutenção. Com a proximidade das eleições, a instabilidade do mercado deve aumentar, especialmente se o candidato governista não conseguir consolidar sua segunda colocação, dificultando ainda mais a possibilidade de novos cortes.