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SÃO PAULO – Não é de hoje que a economia brasileira enfrenta pressão inflacionária. Além do fator externo “disparada das commodities” – que impulsionam principalmente os preços de alimentos e derivados de petróleo – não faltam vertentes que levam a inflação doméstica a elevados patamares. Entre elas, aumento da renda e maior concessão de crédito.
Desde o início de abril – mês em que o Copom (Comitê de Política Monetária) deu início ao atual ciclo de alta na Selic – que as projeções compiladas pelo relatório Focus do Banco Central mostram as estimativas para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) deste ano acima do centro da meta do CMN (Conselho Monetário Nacional), de 4,5%.
Ainda que o mercado já estivesse familiarizado com a expectativa de elevada inflação em 2008, o IPCA referente a maio divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na quarta-feira (11) incomoda não apenas por confirmar um cenário de elevada inflação, puxada principalmente pelos alimentos, ou por atingir o maior patamar desde abril de 2005, superando as projeções mais pessimistas. Mas por colocar em cheque o teto da meta do CMN e sinalizar um contágio às expectativas para 2009.
Teto de 6,5% em 2008 comprometido
“A alta do IPCA no 5º mês do ano, fazendo a inflação acumular alta de 2,88% [em 2008] o que representa 64% do resultado do centro da meta e 44% do teto da meta, traz mais preocupação para o cenário inflacionário, sendo difícil prever o desempenho do grupo alimentação nos próximos meses, mesmo tendo-se uma expectativa de arrefecimento dos preços”, expõe a Arkhe Corretora em relatório assinado por sua economista-chefe Inês Filipa Marques Pereira.
Embora mais da metade da taxa mensal venha do grupo “alimentação” – 0,43 dos 0,72 pontos percentuais apurados – a agência de risco Austin Rating e a LCA Consultores se juntam à Arkhe na observação de generalizada alta nos preços, com destaque para serviços e para os preços administrados. A Arkhe ainda pede atenção ao índice de difusão, responsável por identificar o número de produtos dentro do IPCA com movimento altista, que subiu de 67,2% para 71,4%.
Entre as três instituições, opinião consensual: o teto da meta de inflação do CMN, de 6,5% em 2008 (200 pontos-base acima do centro, de 4,5%), está comprometido.
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Cenário pessimista cogita IPCA em 11% este ano
Para melhor ilustrar quanto o quadro inflacionário no Brasil ganhou deterioração adicional com a publicação dos números do IPCA de maio, a Austin Ratings elabora três cenários, um básico, um otimista e outro pessimista, com probabilidade de ocorrência de, respectivamente, 60%, 30% e 10%.
O primeiro deles, com maior chance de concretização, considera a dinâmica histórica dos preços a partir de junho deste ano e incorpora as projeções da agência de risco para a inflação dos alimentos e dos preços monitorados de energia elétrica e telefonia fixa. Neste cenário, a medida oficial do governo marcaria inflação de 7,16% este ano, ou seja, acima do teto de 6,5%.
Por sua vez, a cena otimista leva em conta o IPCA acumulado no ano até maio e o núcleo por suavização como tendência para os preços nos 7 meses restantes do ano, além de considerar as mesmas expectativas para reajustes de energia elétrica e telefone fixo do cenário básico. Aqui o indicador fecharia 2008 com variação positiva de 6,54%, pouco acima do teto da meta do CMN.
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Já o cenário pessimista considera que a inflação dos alimentos e dos preços monitorados será superior à considerada nos dois modelos anteriores. Adicionalmente, a taxa de câmbio média do ano fica em R$ 1,78, não mais nos R$ 1,70 relevados nos cenários básico e otimista. Se os 10% de probabilidade do quadro pessimista da Austin Ratings se concretizar, o IPCA encerraria 2008 com inflação ao redor de 11%.
E agora, Copom?
A pergunta que fica é como deve se comportar o formador de política monetária diante deste fragilizado cenário de inflação. Austin Rating e Arkhe compartilham da mesma opinião: o Copom deve acelerar o ritmo de alta do juro básico brasileiro, passando a aplicar ajustes de 0,75 ponto percentual na Selic.
A agência de risco espera tal postura já a partir do próximo encontro do comitê, em julho. “Caso contrário, o colegiado correrá sérios riscos de ter de dar satisfações ao Ministro da Fazenda sobre o estouro da meta de inflação”.
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Outra importante questão levantada pela Arkhe é que o maior aperto monetário visaria conter as expectativas inflacionárias e limitar o contágio da inflação para 2009, uma vez que o resultado deste ano já se encontra comprometido.