Pouso suave: a difícil tarefa do Copom de conter inflação sem sufocar crescimento

Aplicação de modelos teóricos bem comportados é sempre complexa; um desafio para a política monetária brasileira

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SÃO PAULO – A tarefa de conduzir a política monetária nunca foi tão difícil aos principais Bancos Centrais ao redor do mundo. Paralelamente às turbulências originadas da economia norte-americana, a aceleração inflacionária não parece dar sinais de trégua tão cedo, com o mercado de commodities superando, a cada dia, novos patamares históricos.

Em meio a tal contexto tão atribulado no plano externo, o Brasil tenta alavancar suas taxas de crescimento econômico. Mas o nível de produção do País não vem conseguindo acompanhar o robusto consumo interno, dando origem a um complicado descompasso entre a oferta e demanda. Junta-se a alta no preço dos alimentos e commodities em geral, e a combinação não poderia ser outra: forte deterioração do cenário inflacionário.

“A terapia para lidar com uma dinâmica de aumento de preços criada por um descompasso temporal entre demanda e oferta é muito simples: reduzir a absorção interna da economia pelo aumento dos juros e da poupança do setor público”, afirma Luiz Carlos Mendonça de Barros, economista-chefe da Quest Investimentos e ex-presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), em artigo ao jornal Folha de S. Paulo.

Simples em tese. O governo brasileiro não sinaliza uma intenção de reduzir seus gastos públicos de maneira muito efetiva, restando apenas ao Banco Central a ferramentaria monetária, ou seja, elevar a taxa Selic. Mas elevar até onde e por quanto tempo?

Conheça o “soft landing”

O ideal é efetuar um aperto monetário suficiente apenas para afastar os riscos à manutenção de um ambiente inflacionário benigno, sem, no entanto, levar a economia brasileira a uma brusca desaceleração desnecessária. Mas a idéia é difícil de ser implementada na prática.

Tal noção é conhecida no mercado como “soft landing”, ou pouso suave. Embora de fácil compreensão em primeira instância, definir precisamente até que ponto uma contração monetária é “suave” ou “brusca” atormenta muitos economistas até hoje, justamente por seu caráter subjetivo. Daí a primeira dificuldade de se implementá-la: como aplicar uma tese se esta carece de uma definição precisa?

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Outro entrave que se põe é a defasagem entre a implementação da política monetária e seus efeitos sobre o nível de atividade. Parte relevante dos efeitos de uma trajetória de elevações no juro básico só começa a repercutir meses após sua decisão, o que torna o cenário ainda mais nebuloso.

Selic e inflação em alta até 2009

Por sinal, este é o principal fator que leva muitos analistas – como os da Austin Rating – a afirmarem que o impacto dos atuais aumentos na Selic só serão sentidos por volta do final deste ano, o que deve manter os índices inflacionários do país em trajetória de em alta até 2009, assim como as taxas de juro.

A leitura é compartilhada também por Mendonça de Barros, que vê uma particularidade a mais: a atual batalha para arrefecer as altas nos preços possui, desta vez, uma dinâmica diferenciada no mercado de trabalho e setor bancário brasileiros.

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“A sustentação do ritmo do consumo é hoje muito maior em razão do crescimento da massa salarial e da oferta e alongamento dos prazos do crédito bancário aos indíviduos, (…) uma sólida combinação de estímulos à atividade econômica que não temos no passado recente”, afirma.

Pela primeira vez em décadas

Com isso, o consenso que se forma no mercado passa longe de uma trajetória breve de contração monetária no País, para desventura de muitos. Mendonça de Barros prevê elevações na magnitude de 300 pontos-base até o final do ano. Igualmente cautelosos, os analistas da Austin Rating estimam que o Banco Central acelere o ritmo de aumentos no juro, até “para não ter de dar satisfações ao ministro da Fazenda sobre o estouro da meta de inflação”.

Entre aplicar um aperto desnecessariamente muito enérgico, o que impactaria a guinada do crescimento econômico tão almejada pelo governo, e uma atuação inerte perante à contínua deterioração do ambiente inflacionário, o desafio é enorme. De qualquer forma, Mendonça de Barros lembra que um pouso suave bem sucedido teria um enorme impacto sobre a avaliação dos mercados na medida em que, pela primeira em vez em décadas, a inflação seria controlada sem um colapso da economia.