Alta renda deveria pagar mais impostos, defende presidente do Ipea

Atualmente, a tributação indireta torna o sistema regressivo, onerando mais as pessoas de menor poder aquisitivo

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SÃO PAULO – A tributação indireta, que incide sobre o consumo, tem peso maior na carga tributária do que a tributação direta, sobre patrimônio e renda. Ou seja, torna o sistema tributário regressivo, onerando mais as pessoas de menor poder aquisitivo.

De acordo com os dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a tributação indireta – aquela que incide sobre o consumo -, é de 29,1% para os 10% mais pobres da população do País, enquanto a fatia dos 10% mais ricos paga 10,7% neste tipo de tributação.

“O papel da arrecadação é financiar uma escola para a vida toda e de qualidade, financiar o ingresso do jovem mais tardiamente no mercado de trabalho, aos 25 anos de idade, ou não tão cedo como ocorre no Brasil. Nesse sentido, é necessário o aumento dos tributos sobre os ricos, sobre os que detêm maior parcela da riqueza. Ao mesmo tempo, é necessário alterar a estrutura tributária brasileira, que é muito regressiva, que faz com que os pobres paguem mais impostos, justamente eles que possuem menos recursos para financiar sua própria vida”, defendeu, na segunda-feira (20), o presidente do Ipea, Márcio Pochmann, na abertura do 8º Congresso Nacional de Auditores Fiscais da Receita Federal, em Brasília.

Sem reforma

“Parte significativa da progressividade pode ser feita sem a presença da reforma tributária”, disse Pochmann, ao afirmar que proposta de reforma tributária em tramitação no Congresso Nacional não atende à necessidade de reduzir a diferença entre pobres e ricos no país. “Bastam apenas decisões no âmbito dos prefeitos, dos governadores e do ministro da Fazenda”, completou.

Aplicar a progressividade no sistema tributário, segundo a Agência Brasil, significa fazer com que o percentual da renda pago pelos pobres em impostos seja menor que o percentual pago pelos ricos.

Entre as formas de tornar a tributação mais progressiva e que não precisam de Reforma, Pochmann destacou o Imposto de Renda e o IPTU. “Poderíamos ter uma tributação de Imposto de Renda mais progressiva com uma decisão de governo, independentemente de o Legislativo fazer uma reforma constitucional”, exemplificou. “Vivemos um momento eleitoral e não se discutiu o tema do papel da tributação que incide de forma mais dura sobre os mais pobres. Temos estudos do Ipea que mostram que o IPTU é cobrado de forma muito mais incisiva sobre as pessoas que residem em favelas do que sobre aqueles que residem em mansões”, continuou.

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Diretos x indiretos

Na tabela abaixo, é possível verificar a tributação indireta, direta e a geral para cada um dos dez décimos de renda analisados pelo Ipea, em pesquisa divulgada no primeiro semestre deste ano:

Décimo de renda Tributação indireta Tributação direta Tributação total
1º 29,1% 3,7% 32,8%
2º 24,2% 2,8% 27%
3º 20,7% 4,1% 24,8%
4º 19,4% 4,5% 23,9%
5º 18,3% 4,9% 23,2%
6º 17,6% 5,7% 23,3%
7º 16,4% 6,9% 23,3%
8º 16,4% 7,7% 24,1%
9º 14,6% 8,8% 23,4%
10º 10,7% 12% 22,7%

Fonte: POF, IBGE. Elaboração: Disoc/Ipea, a partir de GAIGER, 2008