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SÃO PAULO – A última semana foi histórica para a indústria de mineração. Após quarenta anos de negociações anuais a portas fechadas com os executivos das grandes siderúrgicas, o minério de ferro passará a ser reajustado em bases trimestrais, “em um sistema mais flexível”, nas palavras usadas pela Vale (VALE5, VALE3) em comunicado enviado ao mercado na última quinta-feira (1º).
Os impactos e consequências do novo processo de precificação da commodity são não somente muitos, mas profundos e de amplo alcance. Reajustes mais frequentes podem – e devem, na projeção de muitos analistas -, implicar um minério mais caro. Minério mais caro é sinônimo de aço mais caro, que por sua vez, é sinônimo de… bem, quase tudo mais caro.
O aço corresponde a quase 95% de todo o metal consumido no mundo a cada ano, “o que faz com que o produto seja o mais importante à economia global dentre todos os outros metais e commodities brutas – talvez até mesmo mais importante do que o petróleo”, disse recentemente a equipe do Barclays, em relatório.
Entenda a questão
Para muitos, no entanto, a dinâmica peculiar do mercado do minério de ferro permanece obscura. De fato, o segmento não é dos mais transparentes tampouco dos mais acessíveis, sendo altamente intensivo em capital. Em 2008, dados da World Steel Association apontam que, juntas, a Vale e as australianas Rio Tinto e BHP Billiton responderam por 66% do minério de ferro comercializado no mundo.
Terminal de minério de ferro da Vale. Foto: Divulgação Vale
A tríade das grandes mineradoras era o principal ator nas negociações conduzidas ano a ano, a portas fechadas, com as grandes companhias siderúrgicas, a fim de estabelecerem um acordo para o reajuste do preço do minério de ferro. Este é o mercado benchmark da commodity, existente há cerca de quatro décadas. Há alguns anos, no entanto, o mercado benchmark começou a mostrar sinais de que não sobreviveria por muito mais tempo.
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Antes do reajuste acordado semana passada, o preço estabelecido no benchmark girava em torno de US$ 60 a tonelada do minério de ferro, ao passo que no mercado spot, a tonelada da commodity é negociada a cerca de US$ 125. Em tempos globalizados e dinâmicos, a principal reclamação das mineradoras é quanto à incapacidade do sistema benchmark de refletir mais prontamente as mudanças do mercado, dada a disparidade dos preços entre um segmento e outro.
A chave da questão, para muitos especialistas, está no crescimento do mercado spot, conhecido também como mercado à vista, onde o preço do minério de ferro é determinado no dia do fechamento do negócio. Antes quase insignificante, hoje ele corresponde a quase metade de todo o comércio marítimo de minério de ferro, permitindo com que as siderúrgicas, no auge da crise financeira, pudessem romper os contratos firmados no benchmark e comprar o minério de ferro a patamares mais baratos.
“No ano passado, a Vale segurou um rojão muito pesado. Aquilo que a gente tinha como segurança, que eram os contratos de longo prazo, boa parte dos clientes simplesmente falou: olha, o mercado mudou, então não tem contrato”, disse Roger Agnelli, presidente da Vale, no começo de março deste ano. “E agora eu também estou na condição de dizer o seguinte: o mercado mudou, então está faltando minério”, acrescentou.
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Históricos
Tendo em vista a grande distância geográfica entre o Brasil e o mercado chinês, o minério de ferro da Vale é, via de regra, mais barato que o minério australiano, uma vez que sobre seu preço ainda recaem os altos custos do frete. Abaixo, você confere o histórico comparativo entre os preços benchmark do minério brasileiro e o australiano nos últimos anos, em US$ por tonelada e de acordo com estatísticas do Goldman Sachs:
| Histórico de preços do minério de ferro | ||
|---|---|---|
| Ano | Minério australiano, por tonelada |
Minério brasileiro, |
| 2000 | US$ 17 | US$ 16 |
| 2001 | US$ 18 | US$ 16 |
| 2002 | US$ 18 | US$ 16 |
| 2003 | US$ 19 | US$ 17 |
| 2004 | US$ 23 | US$ 20 |
| 2005 | US$ 39 | US$ 35 |
| 2006 | US$ 46 | US$ 42 |
| 2007 | US$ 51 | US$ 46 |
| 2008 | US$ 91 | US$ 75 |
| Fonte: Goldman Sachs | ||
Interessante notar como, a partir de 2004, os reajustes passam a alcançar patamares cada vez maiores, no encalço da recuperação econômica global após os turbulentos anos no começo da década. Entre 2007 e 2008, o minério australiano, por exemplo, sofreu um incremento de nada menos que 80% em seu preço. Ainda assim, a periodicidade anual de reajustes colocava o preço benchmark quase sempre abaixo do spot, principalmente em tempos de prosperidade econômica.
No mercado spot, por sua vez, fica mais difícil detectar uma tendência única, já que os preços dividem-se entre as áreas de origem e destino. Um dos mais avaliados é o minério de ferro brasileiro FOB (free on board), cujas despesas como frete são de responsabilidade do exportador, com destino à Europa, uma vez que o mercado europeu é primariamente abastecido pelo Brasil, dado a proximidade geográfica entre as duas regiões.
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| Histórico de preços do minério de ferro no mercado spot | |
|---|---|
| Período | Valor (por tonelada) |
| Dezembro 2000 | US$ 28,79 |
| Dezembro 2001 | US$ 30,00 |
| Dezembro 2002 | US$ 29,33 |
| Dezembro 2003 | US$ 31,95 |
| Dezembro 2004 | US$ 37,90 |
| Dezembro 2005 | US$ 65,00 |
| Dezembro 2006 | US$ 77,35 |
| Dezembro 2007 | US$ 84,70 |
| Dezembro 2008 | US$ 140,60 |
| Dezembro 2009 | US$ 101,00 |
| Fonte: FMI, por ISI Emerging Markets |
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