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Guru das finanças dá "adeus à aposentadoria" e propõe novo conceito para administrar riquezas

O planejador financeiro Gustavo Cerbasi conversou com o InfoMoney sobre seu novo livro "Adeus, Aposentadoria"

SÃO PAULO – Gustavo Cerbasi é considerado um “guru das finanças” pela maneira com que ensina as pessoas a lidarem com investimentos e com o planejamento financeiro. Aos 33 anos ele já tinha alcançado a independência financeira, depois de colocar em prática um plano audacioso, que envolveu aplicações arriscadas e muita disciplina para poupar. Mas em seu 14º livro, o recém lançado “Adeus, Aposentadoria”, ao invés de propor um plano rigoroso de poupança, ele mostra que é possível aproveitar melhor a vida, investir o que for possível, e em vez de se aposentar aos 65 anos, utilizar o dinheiro acumulado para novos projetos que garantam mais dinheiro na terceira idade.

O InfoMoney conversou com exclusividade com Cerbasi. Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Comente sobre o livro “Adeus, Aposentadoria”

Há 7 ou 8 anos que essa ideia me incomoda. Toda vez que vou tratar de planejamento financeiro, independência financeira, de boas escolhas, o aposentado ou aquele que está prestes a se aposentar sempre é o “depressivo”, ou o “frustrado”, ou aquele que refuta mais as ideias, justamente por acreditar que não está ali a solução para o problema dele.

Decidi jogar para o alto tudo que se já se escreveu sobre educação financeira. Não invalidando as outras teorias, mas colocando um raciocínio próprio para este projeto especifico de aposentadoria. E começando do zero como se nada existisse. Partindo da ideia que existe uma estrutura pública da previdência via INSS, existem produtos adequados para isso, como os planos de previdência privada, existem serviços de orientação, de bancos, casas de investimentos, corretoras, etc. Mas existe também um comportamento vicioso da sociedade, não é só a brasileira, de acreditar em um processo que é desgastante do começo até o fim.

É desgastante cortar gasto para fazer poupança, é desgastante a poupança em si, por não ser estimulante – quando não tem uma motivação por trás dela. É desgastante o momento da aposentadoria. Primeiro pelo estresse do rompimento da rotina, segundo porque a pessoa constata que perdeu a sua capacidade de continuar crescendo, de fazer escolhas totalmente livres. Então o que eu decidi foi reescrever esse plano para o futuro, deixando a aposentadoria meio de lado. O que nasceu dessa reflexão foi uma leitura de que as pessoas hoje, se não têm prazer em poupar, é porque não estão enxergando qualidade de vida e estão sendo prejudicadas nesse processo.

Livro Cerbasi

Adeus, Aposentadoria, publicado pela Editora Sextante. Nas livrarias por R$ 29,90

 

Então, primeiro, há um convite para uma melhor qualidade de vida. Por um consumo melhor, mais seletivo. Uma simplificação dos grandes gastos, que eu já havia falado em outros livros. Um imóvel um pouco menor, um carro um pouco mais barato. Assim você teria condições de fazer mais viagens, acesso a mais cultura, mais cuidados pessoais – e tudo aquilo que é bom para você.

 Eu tiro um pouco da responsabilidade dos processos previdenciários – dos planos de previdência principalmente. As pessoas creditavam aos planos de previdência a solução do seu futuro. Eu basicamente elimino esses produtos como solução. Mas eu aumento a importância deles. Eu passo a tratar os produtos previsíveis, como o INSS e a previdência privada, como elementos importantes na formação de uma poupança - que não será suficiente para se viver. Hoje a conta que se faz é que se você quiser ter um futuro realmente digno, o volume a ser acumulado é muito grande. Não é R$ 1 milhão. Agora são alguns milhões. E ter alguns milhões de reais no futuro, para a grande maioria das pessoas, significa grandes privações presentes. Isso se traduz em perda de saúde, em perda da motivação, da vontade de fazer as coisas. A pessoa amanhã tem dinheiro, mas não tem vida.

Então o convite é para que a pessoa viva melhor, e talvez até poupe menos, em alguns casos. Mas que foque na qualidade dessa poupança e no desempenho dos investimentos. E que com o tempo, aproveite este longo prazo de acumulação – 20, 30 anos, para ir se educando em um projeto empreendedor. E aí aquele momento de vida que talvez seria pouco interessante com um patrimônio de R$ 1 milhão ou R$ 2 milhões investidos, passa a ser muito interessante com a possibilidade de você investir R$ 200 mil ou R$ 300 mil em um projeto empreendedor que possa gerar uma renda até maior.

Eu faço com que as pessoas vejam maior importância no processo de acumulação, mesmo que não possam poupar muito, mas que não percam a oportunidade de investir em educação, de adquirir conhecimento para se preparar para uma atividade que, na aposentadoria, terá o privilégio de tempo disponível. Com esse tempo somado à poupança que você acumulou, você conseguirá acumular renda muito superior àquela que teria com o dinheiro simplesmente aplicado. Muita gente posterga o início da poupança porque considera inviável. Mas eu aconselho: poupe o que conseguir. Você pode poupar R$ 50 por mês? R$ 100 por mês? Faça. Porque se você tiver um valor razoável no futuro, com um ótimo projeto amadurecido ao longo de 20 ou 30 anos, poderá montar um negócio, ou um empreendimento de construção, ou usar aquele recurso ou fazer negociações em leilões, por exemplo. E estará estendendo a sua fase produtiva. No fundo derruba um pouco o mito de “aposentar-se aos 65 anos”. Daí vem o nome do livro “Adeus, Aposentadoria”.

A pessoa não vai deixar de contribuir para o INSS ou para a previdência privada. Mas o conceito de parar de trabalhar é perigoso. Eu convido as pessoas a continuarem trabalhando até os 80, 90 e 100 anos. Isso é ruim? Só para quem sofre ao trabalhar. Mas se você entende que o começo da carreira é sofrido, mas aos poucos você vai garimpar oportunidades para melhorar, tanto a sua relação com o trabalho quanto a sua qualidade de vida. Para mudar eu preciso ter mais liberdade e para isso é preciso ter menos gasto fixos, um orçamento mais leve. Eu convido as pessoas a serem mais ousadas na carreira, mesmo que isso signifique algumas perdas no caminho, mas que acumule alguma poupança junto com um projeto empreendedor e vejam a aposentadoria formal não como um ponto final, mas sim como um ponto inicial da fase mais interessante de grana da vida da pessoa.

 Isso não é diferente do seu próprio projeto de independência financeira?

Tem a ver com o meu projeto. Na verdade, apenas a primeira fase do meu projeto é contrária ao que oriento agora. Eu realmente acelerei muito, mas acelerei sendo muito feliz nas minhas escolhas. Fiz algumas escolhas de grande risco e fui feliz em acertar. Poderia ter dado tudo errado. O que eu recomendo é algo que funciona para a média das pessoas. Não estou menosprezando a capacidade de ninguém, mas assumi um risco maior do que a média. O que eu fiz foi um grande sacrifício, pensando na aposentadoria, em parar de trabalhar. Mas eu não sou aposentado. Quando eu pude parar de trabalhar, eu percebi que começou a fase mais interessante da minha carreira, que foi a possibilidade de dizer "não" para qualquer trabalho que eu não gostava e dizer “sim” para tudo que me saltava aos olhos, até trabalhos não remunerados. E  fazer só o que você gosta é algo extremamente raro. Sou apaixonado pelo que faço, faço com amor, não me canso. Mas é um privilégio que poucos têm, porque eu criei a condição financeira para poder dizer “não” para aquilo que não me agrada.

A partir do momento que a minha vida começou a ser assim, eu comecei a fazer melhor todos os trabalhos. O conhecimento surgiu naturalmente. Eu era muito mais tímido, muito menos conhecido. Mas a coisa foi crescendo justamente pela paixão que eu dediquei a isso. Mas a pessoa só consegue se apaixonar quando vê sentido. E foi aí que eu entendi que aquele conceito de aposentadoria não deveria existir. Todos deveriam entender que a carreira é uma fase em que nós trabalhamos para enriquecer alguém que nos deu a chance do emprego. E que vai começar uma outra fase na sequência, que pode ser aos 60 anos, ou antes, que será a fase que você trabalha para si próprio. Esta também não é a fase final. Esta fase empreendedora traz a possibilidade de dedicar o tempo a aprender um pouco mais sobre investimentos, para se preparar para uma terceira fase, que é aquela que você automatiza os processos empreendedores, delega o trabalho, para poder curtir a velhice. Isso a partir dos 80, 90, 100 anos. Mas garantindo uma condição fundamental para o bem-estar que é a renda crescente.

O conceito normal de aposentadoria tenta convencer as pessoas que elas poderão viver por 20 ou 30 anos com a mesma renda. Mas isso não é verdade. À medida que eu envelheço eu quero alimentos mais saudáveis, quero tecidos antialérgicos, quero viagens mais confortáveis. Vejo pelo meu pai, transplantado há 11 anos. Deixou de viajar? Não, mas viaja com um carro mais confortável, faz questão de viajar numa classe executiva. Para isso ser viável, o que era luxo para ele quando jovem passou a ser necessidade básica. É importante que cada um mantenha essa renda crescente para não ter que abrir mão de coisas consideradas básicas no seu dia a dia. Viajar 15 dias por ano pode custar R$ 2 mil para um casal jovem e não menos do que R$ 30 mil para um casal de 80 anos.

 Empreender traz muitos riscos. Fazer isso na terceira idade não é ainda mais complicado?

 Eu cito que apenas entre 15% e 20% das pessoas levam jeito para montar um negócio. É questão de perfil, de como a pessoa se educou, como ela encara liderar pessoas. Quando eu falo em atitude empreendedora, eu posso ter acumulado um bom dinheiro em uma carteira de fundos, ou em planos de previdência. A partir do momento que tenho mais tempo, posso me envolver mais com os projetos, estudar melhor meus investimentos e começar a fazer experiências de administração própria da carteira. Posso alugar uma baia em uma corretora, participar dos eventos, das assembleias de acionistas e aos poucos começar a tomar decisões que não apenas sofistiquem meus investimentos, mas que tragam uma rentabilidade acima da média daquela conseguida por quem tem pouco tempo.

Hoje quem contrata um serviço de investimento, que paga uma taxa de administração, de carregamento, não está jogando dinheiro fora. Está comprando uma conveniência para contrar o serviço de quem faça aquilo que ele não possa fazer como trabalhador. O aposentado começa a ar uma atividade maior a sua carteira e com isso pode conseguir um desempenho melhor. Bolsa de valores é para qualquer um? Para qualquer um que tem tempo de se envolver, de aprender, de fazer cursos, de ler duas ou três fontes de notícias e com isso tomar decisões mais consolidadas. Alguém que trabalha 12 horas por dia e investe em ações tem mais chances de fazer uma péssima escolha – por isso talvez seja melhor investir em um bom fundo.

Isso também vale para os imóveis. Talvez você passe 20 anos da vida visitando lançamentos imobiliários, selecionando uma unidade mais bem posicionada. Isso tudo para ganhar 20% ou 25% depois de dois anos de obra, porque não tem tempo de acompanhar. Mas quando for aposentado e tiver R$ 250 mil, pode comprar um terreno, começar a construir 3 casas, se envolver com a obra, ver se não estão roubando, se não está havendo desperdício, se aproximar do empreiteiro. Por colocar a mão na massa, poderá ter uma eficiência muito maior neste empreendimento do que comprando casas padronizadas. Enquanto alguns ganham 25% em dois anos, a pessoa que constrói uma casa para revender não ganha menos do que 40% a 50% em um ano. Mas se não dedicar este tempo vai ter furto, desperdício, atraso na obra, e aí a rentabilidade despenca. Por isso essa atitude empreendedora é recomendada para o aposentado, que tem tempo. O olho do dono engorda o gado.

Gustavo Cerbasi
(Divulgação)

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