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“Cansados do Brasil” triplicam envio de dinheiro aos EUA e investimentos disparam

Com juros menores por lá, brasileiros precisam buscar novos ativos para gerar lucros

 SÃO PAULO – A situação política e econômica brasileira tem deixado boa parte da população descontente e a novidade dentro desse movimento está no aumento das remessas de valores do país para os Estados Unidos. Segundo dados do Banco Central, o volume enviado por pessoas físicas no primeiro semestre atingiu US$ 408 milhões. O valor mais que triplicou em relação a um ano antes.

 Esse fenômeno é, em parte, explicado pelo aumento no número de brasileiros que se mudaram para os Estados Unidos ou mesmo seus filhos que foram estudar no país. Em busca de uma vida melhor, brasileiros com estabilidade financeira e investimentos aqui procuram garantir seus ganhos em um mercado maior e mais confiável que o existente no Brasil.

 André Algranti, CEO da XP Securities, na Flórida, notou a forte expansão na remessa de dólares do Brasil para os Estados Unidos de janeiro a junho com o salto de 51,5% no número de clientes e de 61,3% nos valores em custódia no período.

 “A área de câmbio no Brasil praticamente dobrou de tamanho nesse primeiro semestre”, conta Algranti – que se mudou para a Flórida em janeiro – sobre as adequações da empresa para atender à demanda de clientes. Recentemente, a XP Securities contratou um especialista em ativos europeus e norte-americanos devido à maior procura dos brasileiros por esses investimentos.

 Mudança de hábitos
Mesmo com a sequência de cortes na Selic que derrubou a taxa de 13,75% no início do ano para 9,25% em julho, a taxa básica de juros brasileira ainda está muito distante do patamar de 1% a 1,25% em vigor nos Estados Unidos. Isso faz com que os investidores brasileiros que imigraram para lá tenham que se acostumar com uma nova realidade de ganhos financeiros.

 “É natural que o brasileiro esteja muito acostumado com um CDI, por exemplo, em ganhar juro alto sem muito esforço. Quando vem para cá, ele procura por soluções parecidas”, conta o diretor-executivo da XP Securities.

 Mesmo com uma gama de possibilidades de investimentos bem maior nos Estados Unidos – para se ter ideia, a Apple negocia o volume de toda a bolsa brasileira em apenas um dia –, os brasileiros também se mostram apegados às empresas brasileiras. Algranti diz que é comum que os imigrantes procurem por ativos da Petrobras, Itaú e Bradesco, por exemplo.

 “Um trabalho que a gente vem fazendo é justamente buscar que nossos clientes invistam também em ativos não relacionados ao Brasil. É importante que ele esteja atrelado a riscos locais e que diversifique com ativos europeus e asiáticos também. Tentamos rebalancear o portfólio”, explica Algranti.

 Em média, a carteira dos clientes da XP Securities – que começam a investir a partir de US$ 100 mil – é dividida entre 10% em bolsa de valores, 60% a 70% em ativos de renda fixa e 20% a 30% em fundos de investimentos. Dentro dessa gama de investimentos, de 30% a 40% do portfólio costumam estar alocados em ativos brasileiros.

 “Antes esse percentual [do portfólio alocado em ativos brasileiros] era muito maior. As pessoas já conheciam esses investimentos e se sentiam mais confortáveis. Agora, com a situação política do Brasil e as delações de Joesley Batista, elas começam a perceber a importância da distribuição de investimentos, principalmente em momentos de crise”, diz Algranti.

 Entre os ativos favoritos dos brasileiros no primeiro semestre de 2017 estão os bonds do banco Santander na Espanha, da General Motors e da Electricité de France. Entre os bonds brasileiros, destaque para Petrobras, Itaú e Gerdau. “São empresas sólidas e que as pessoas se sentem confiantes em investir”, explica Algranti.

Dólares e bandeira dos EUA
(Shutterstock)

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