Por Lara Rizério Em mercados / politica  01 out, 2014 15h34

2015 vem aí: Dilma reeleita vai ser tão ruim para os mercados assim?

Corrida continua acirrada e tudo pode mudar, mas alerta com reeleição de Dilma se acendeu mais uma vez para investidores: há motivo para tanta preocupação?

Por Lara Rizério Em mercados / politica  01 out, 2014 15h34

SÃO PAULO - Após a divulgação da pesquisa Datafolha na última sexta-feira onde a candidata Dilma Rousseff aparece 13 pontos na frente de Marina Silva e também numericamente na frente no segundo turno, apesar de tecnicamente empatada com a margem de erro, a bolsa desabou e o dólar disparou. E a percepção foi corroborada pelas pesquisas Datafolha e Ibope de ontem. 

Conforme aponta Raphael Juan, gestor da BBT Asset, o que o investidor pode esperar até o fim das eleições é muita volatilidade, já que a candidata do PSB ainda tem um bom potencial de crescimento e no segundo-turno o tempo de televisão é igual para ambos os candidatos. "Além disso, o PSB tende a receber o apoio de Aécio Neves, algo que é impossível de ser contabilizado nas atuais pesquisas. Portanto, cenário totalmente indefinido".

Por outro lado, a forte queda na Bolsa e alta do dólar acontece porque o mercado já dava como certa a eleição de Marina Silva. Agora, o investidor precisa começar a se preparar para uma eventual permanência de Dilma no Planalto. 

“O investidor já sabe como o mercado deverá reagir com Marina, porém, ainda é uma incógnita como se comportará com Dilma. Apenas, alguns indícios são vistos. Acredito que a Bolsa deverá cair no mínimo mais 10%, juros futuros em janeiro de 2016 deve se aproximar de 12% e dólar deve permanecer próximo de R$ 2,45 até dezembro deste ano”, acredita o gestor da BBT Asset.

De acordo com o diretor de mercados emergentes da corretora japonesa Nomura, Tony Volpon, o Datafolha de sexta acabou sendo um divisor de águas para os mercados, que parecem ter abandonado a esperança de que esta eleição representaria o fim do ciclo do PT. 

"A reação do mercado, em nossa opinião, não é atribuível tanto à diferença entre os dois principais candidatos, mas a tendência dos dados eleitorais. Projetando esta tendência para a frente, poderia-se imaginar uma reeleição de Dilma já no primeiro turno", afirma. 

Para Volpon, todos os resultados são possíveis e a corrida continua muito acirrada. Porém, em caso de maiores chances de Dilma vencer, o especialista também destacou o que pode mudar no próximo ano.

E depois de 1 de janeiro de 2015?
O que aconteceria depois do dia 01 de janeiro de 2015? Para Juan, com a mudança do Ministro da Fazenda, um grande passo já será dado, principalmente se for um nome que inspire confiança do mercado, como Henrique Meirelles.

“Principalmente os investidores internacionais, que movimentam a nossa economia, enxergam Guido Mantega como uma fórmula esgotada para retomar o crescimento. A troca do ministro, dependendo do nome, será bem vista pelo mercado”. Além disso, o cenário de modo geral não deverá ser tão catastrófico como muitos pregam. “A bolsa deverá voltar aos 60 mil pontos, dólar ficará entre R$ 2,40 e R$ 2,45 e taxa de juros convergindo para 11%. Não acredito em desastre, como muitos pregam”, acredita o gestor da BBT.

Já para Volpon, é difícil saber se Dilma tirará lições de seus anos de mandato e de quando esteve perto de perder a reeleição. Ele destaca dois cenários opostos: há quem acredite que Dilma reeleita vai manter a retórica política esquerdista da campanha e construir pontes com o setor privado e os mercados financeiros. Os pessimistas acreditam que ela vai ver a sua reeleição como mais quatro anos "para lutar pelo povo contra o mercado e os interesses financeiros que quase a derrotou". 

Para Volpon, a verdade está em "algum lugar do meio". "Nós acreditamos fortemente que ela dara sinalizações iniciais mais pró-mercado e a nomeação de um novo ministro da Fazenda será um sinal muito importante para saber se há substância em um discurso mais pró-mercado".

A Nomura acredita que, devido às suas visões ideológicas, haverá ajustes pequenos nas políticas atuais. "Em declarações recentes, Dilma defendeu seu ponto de vista que o que prejudica a economia brasileira é a crise global; que suas políticas têm sido bem sucedidos em proteger o trabalhador brasileiro da crise; e que suas políticas serão revertidas quando a economia global se recuperar". 

"Esta 'visão de mundo' levanta a questão óbvia: se a economia global não vem para o resgate, Dilma continuará 'protegendo o trabalhador brasileiro', mesmo à custa da contínua deterioração fiscal?"

A Nomura avalia que sim, não havendo nenhuma decisão autônoma para ajustar a economia. Por outro lado, haverá restrições: uma é política e outra é sobre os índices voláteis de aprovação do governo. A popularidade do governo aumentou "por causa do bombardeio constante da campanha eleitoral" mas, para a Nomura, estes índices mais altos não devem se manter, funcionando assim como uma restrição poderosa contra as políticas impopulares de ajuste. 

"Um governo se recusar a ajustar as políticas não significa que a economia não se ajusta. Significa apenas que os mercados têm de fazer o trabalho governos se recusam a fazer. Como é típico em um ambiente de mercado emergente, o principal mecanismo de ajuste será a taxa de câmbio", ressalta Volpon.

O real mais desvalorizado pode agir por dois canais diferentes: restringe a demanda por importação, dados os preços mais caros lá fora. E, assim, a necessidade de controlar os efeitos inflacionários da depreciação provavelmente vai levar o Banco Central a novas subidas das taxas, o que em si também leva a um menor crescimento e uma melhoria nas contas externas".

As tentativas de impulsionar o crescimento para as chamadas políticas "anticíclicas" irá revelar-se inadequada e contraproducente, como já foi amplamente comprovada nos últimos anos. Isto é especialmente verdadeiro em um mercado hostil ambiente global emergente. 

Para ele, as tentativas de impulsionar o crescimento para as chamadas políticas "anticíclicas" irão revelar-se inadequadas e contraproducentes, como já foi amplamente comprovado nos últimos anos. 

Incógnita: política fiscal
A grande incógnita neste "ajuste pelos mercados" cenário é a resposta da política fiscal. O governo Dilma está disposto a deixar a política monetária com taxas de política mais elevadas, mas é severamente constrangido politicamente em termos de política fiscal. "Será que a ameaça de perder o grau de investimento será um fator restritivo? Será que a economia terá algum tipo de recuperação após um ajuste inicial? É muito difícil dizer". 

Conforme matéria de hoje do Financial Times, os economistas estão bem divididos sobre se a retórica de Dilma significa que ela não vai fazer ajustes favoráveis ao mercado se ela ganhar as eleições. 

"Porém, a realidade provavelmente irá forçá-los a promover alguns pequenos ajustes", disse Alberto Ramos, economista do Goldman Sachs. Ainda assim, o Brasil continuará sendo uma economia muita fechada.

Dilma Rousseff - 23/01/13
(Ueslei Marcelino/Reuters)

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