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Brasil talvez não aguente mais quatro anos de PT, diz Rodrigo Constantino

O economista e colunista dos principais veículos de comunicação do país também disse ao InfoMoney que o Brasil pode precisar de um novo Plano Real se Dilma for reeleita

SÃO PAULO – O economista Rodrigo Constantino, presidente do Instituto Liberal e colunista do jornal O Globo e da Revista Veja, falou, em entrevista ao InfoMoney, que o Brasil talvez não aguente mais quatro anos de PT porque o partido age como a "cigarra que acha que o verão nunca vai acabar". "Mas agora já está acabando", alerta ele, em referência à desaceleração da China. Além das eleições, o autor do livro "Esquerda Caviar" e "Privatize Já" comentou os principais temas da economia brasileira, como privatizações, bolha imobiliária, liberalismo, Copa do Mundo e 20 anos do Plano Real. Confira abaixo os principais pontos da entrevista:

IM - Qual é o principal motivo pelo qual o Brasil não cresce e tem, atualmente, uma das maiores taxas de juros e inflação do mundo?
RC - A falta do ideal liberal na política econômica da presidente Dilma Rousseff, ou seja, excesso de intervenções em diversos setores, falta de transparência, falta de autonomia do Banco Central, protecionismo...

IM - Mas esse é um problema da América Latina de forma geral, certo?
RC - Dentro da América Latina se formaram dois grandes blocos: os bolivarianos nacionais desenvolvimentistas, que é basicamente o Mercosul; e a Aliança do Pacífico, mais liberal, composta por Chile, Colômbia, Peru e México.

Mas, você está certo, pois, de qualquer forma, de maneira geral, o liberalismo passou mais longe da América Latina do que Plutão da Terra. Os que chegaram mais perto, com meta de inflação, austeridade fiscal, acordos bilaterais de livre comercio e etc. foram os da Aliança do Pacífico, que, por sinal, estão indo muito melhor em todos os aspectos. Já os outros estão afundando em crise com alta da inflação.

O Brasil deu sinais de que ficou mais “borderline” (na fronteira entre os dois lados) no primeiro mandato de Lula, mas, no segundo mandato dele e no primeiro (e espero que último) da Dilma ficou mais claro o sistema nacional desenvolvimentista, com intervencionismos em diversos setores, queda da taxa de juros dos bancos na marra, congelamento de preços de combustível, malabarismos contábeis e mais muitos fatores que fizeram a presidente perder a credibilidade. A perda de autonomia do Banco Central e o freio nos leilões de infraestrutura por muitos anos são outros exemplos, que ignoram os pilares do liberalismo.

IM - Na sua concepção liberal, qual deve ser o máximo de participação do estado na economia e na vida das pessoas e o que deve ficar com a iniciativa privada?
RC - Do ponto de vista ideal o estado deve cuidar de segurança interna e externa, ou seja, polícia e forças armadas, para proteger a propriedade privada; a justiça, para aplicar as leis; e, eventualmente, algum incentivo na saúde e na educação. Só isso. O máximo possível que pode ser feito pelo individuo, deixa com ele.

No Brasil temos uma pirâmide invertida disso. Temos um socialismo na área da saúde, que é o que representa o SUS e que o Obama quer montar nos EUA. As pessoas não entendem que não tem nada mais caro que a saúde grátis. Elas esquecem que o Estado não é uma entidade que produz riqueza “do além”, ele tira de algum lugar e isso gera descaso com o uso dos recursos públicos. Nós precisamos de muitas reformas liberais e estamos muito longe de chegar em algum lugar.

IM - Mas já que pagamos altos impostos, seria melhor se tivéssemos um retorno disso...
RC - As pessoas reclamam da carga tributária no Brasil e falam que não têm a devolução, mas isso é falho porque é um absurdo cobrar o que eles cobram de imposto achando que eles darão benefícios de volta. Não deveriam aumentar os benefícios, mas sim diminuir essa carga, porque já tem recurso suficiente pra entregar uma educação e saúde de qualidade.

Manter uma carga alta de impostos e melhorar as coisas de forma muito significativa, como em vários países da Europa, é muito legítimo e melhor do que o que temos por aqui, obviamente. Mas, um modelo diferente, com menos impostos, seria ainda mais eficiente.

O melhor é reduzir os gastos públicos, porque hoje, por exemplo, tem um gasto enorme por aluno de escola pública, que ainda por cima são horríveis. As escolas privadas custam muito mais barato para nós.

IM - Quais são os países que mais se aproximam deste modelo liberal hoje?
RC - Austrália, Suíça, Holanda, Nova Zelândia e Cingapura. Esses países despontam com dinamismo o maior respeito à economia de mercado, com bem menos intervencionismo estatal na economia do que nós.

IM - Você acha que não deveriam existir empresas estatais? Ou que, pelo menos, as estatais fossem proibidas de ter o capital aberto?
RC - Sim, nenhuma empresa deveria ser estatal. Não faz o menor sentido o governo ser empresário. O argumento de ser apenas empresas de setores estratégicos, como petróleo e energia elétrica, não é convincente.

Se formos ver, quase todos os setores são estratégicos: sem alimento, a gente morre e nem por isso vamos pregar que o estado seja produtor de alimentos. Afinal, os países que fizeram isso, como a Coréia do Norte, não foram muito felizes, visto que hoje lá falta comida para a população.

O setor de petróleo também é estratégico e os EUA têm de 20 a 30 empresas privadas competindo de forma saudável. No Brasil nós temos um monopólio estatal no setor de petróleo e agora a Petrobras está quebrando.

IM - O tripé econômico, erguido em 1999, que consistia em equilíbrio fiscal, câmbio flutuante e metas de inflação, foi abandonado pelo governo Dilma para dar lugar a uma nova matriz econômica, que até agora ficou marcada por um desarranjo fiscal, frouxidão monetária e controle arbitrário de preços. O principal erro do PT foi abandonar o tripé para dar chance a essa nova matriz?
RC - Sim, com certeza essa foi o principal erro. A verdade é que o PT ganhou na loteria. É como a cigarra que acha que o verão nunca vai acabar, mas, agora, já está acabando. A loteria chama-se China crescendo a dois dígitos, o que fez países desenvolvidos olharem com muito mais benevolência para países como Brasil, nos trazendo assim uma enxurrada de fluxo de capital, na qual surfamos na onda.

Por conta disso, não fizeram nenhuma reforma estrutural e ainda usamos a oportunidade para trocar o tripé por essa nova matriz, um modelo de crédito acelerado e consumo, que é o pior dos mundos. Com isso, tivemos pouco investimento e pouca poupança, o que vazou para as contas externas. Era muito previsível essa situação: pleno emprego mais foco no consumo igual a inflação.

IM - Esse ano, completamos 20 anos do Plano Real, que arrumou a nossa economia e acabou com a hiperinflação. No entanto, a inflação já está fora de controle novamente. Nada comparado àquela época, mas alta demais quando comparada à de outros países emergentes e até da América Latina. Você acha que precisaremos de outro Plano Real em breve?
RC - Espero que não. Nós ainda conseguimos resolver o problema com mudanças conjunturais, mas precisamos de um Banco Central que vai perseguir o centro da meta, diminuir a farra fiscal e estabilizar as contas públicas. Isso você consegue com a mudança de governo. No entanto, com mais um mandato de Dilma talvez precisaremos no futuro, visto que ela já mostrou que não se importa. Enquanto ela continuar, o problema vai continuar se agravando.

IM - Você acha que iremos ter bolha imobiliária no Brasil?
RC - Eu acho que nós caminhamos na direção da bolha imobiliária, mas não dá para saber se já estamos dentro ou não. A carteira de empréstimos da Caixa teve 45% de crescimento em um ano e 30% ao ano nos últimos cinco anos. Isso é muito preocupante. No mínimo, temos um cenário de espuma de preços de imóveis, caminhando na direção de bolha.

IM - Qual o possível candidato à presidência que é o que mais se alinha a seus ideias liberais hoje?
RC - O Aécio Neves, do PSDB, é o mais próximo sem dúvida, tanto em discurso quanto em equipe que está fazendo consultoria: Edmar Bacha, Armínio Fraga, Pedro Malan e mais uma turma do Plano Real, que tem um viés mais próximo do modelo liberal que eu defendo.

IM - Qual vai ser a influência da Copa do Mundo nas eleições? Você acha que a vitória do Brasil pode concretizar a vitória da Dilma e vice-versa? Ou uma coisa não terá ligação com a outra?
RC - Não acho que vai ter tanta influencia, não. Se o Brasil for campeão pode ter um ufanismo que irá ajudar um pouco, mas não é o que vai definir. Já o lado negativo será mais sério. Se tiver manifestações que saiam de controle pode manchar bastante a imagem dela, mas, de qualquer forma, acho que a Copa não será vital para o resultado da eleição.

IM - Houve rumores de mercado de que a presidente Dilma Rousseff perderia um pouco da vantagem contra os outros candidatos na pesquisa Ibope, mas não foi o que ocorreu. Você acha que isso ainda pode ser revertido ou que ela é a franca favorita?
RC - Ela é a favorita, mas não diria franca favorita. Eu tenho sido mais otimista que a média com a chance de ela perder, pois a população logo tem que entender que mais quatro anos de PT o Brasil talvez não aguente. Basta ver a reação da bolsa com o rumor de que vai diminuir a distância entre os candidatos: a bolsa subiu muito e as ações das estatais também.

Na minha opinião, novas pesquisas tendem a mostrar o crescimento dos outros candidatos, mas tem que ficar de olho também na legitimidade dessas pesquisas, afinal, o fato de a última pesquisa Ibope ter sido adiada deve ser olhado com atenção e desconfiança. Essas agências de pesquisa não gozam mais de credibilidade.

IM - Qual candidato vai ser melhor para o mercado?
RC - Qualquer um que não seja a Dilma. O Aécio é o melhor, mas o Eduardo Campos está vindo com um discurso legal com o empresariado. Assim, os dois dariam um certo boom para as ações no curto prazo. Há um consenso muito grande no mercado financeiro de que o PT custa muito caro para os mercados.

Rodrigo Constantino
(Divulgação)

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