Carta de Temer a Dilma amplia o racha de parcela do PMDB com a presidente

Este foi um dos tropeços no governo ontem no seu esforço para barrar o processo de impeachment. O outro foi a manobra de Eduardo Cunha de adiar a instalação da Comissão Especial para dar tempo aos oposicionistas de tentarem aumentar o número de deputados pró-impedimento nela

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O governo montou um grande aparato – de público e privado – para combater a tentativa de cortar via impeachment o mandato da presidente Dilma Rousseff.

Fizeram parte desse movimento, entre outros:

– o encontro de Dilma com cerca de 30 renomados juristas nacionais contrários ao impeachment e a divulgação de um manifesto deles criticando a medida;

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– o trabalho dos líderes governistas no Congresso e de ministros, coadjuvados por governadores mais fiéis ao Palácio do Planalto, para compor a Comissão Especial da Câmara que vai julgar o pedido de afastamento presidencial com deputados confiáveis, alinhados com a presidente;

– a tentativa de atrair o vice-presidente da República e a ala do PMDB fiel a ele para a defesa de Dilma, com a presidente, mesmo depois de Michel Temer dizer que ela nunca confiou nele, assegurando publicamente que sempre confiou no vice e no partido. Foi, em dois dias, a segunda vez (a primeira foi sábado no Recife) que Dilma acenou com uma bandeira branca para seu companheiro. Circulou também na capital a informação, não confirmada, de que ela teria convidado o vice para uma conversa reservada.

Porém, os gestos da presidente e seus operadores acabaram não sendo totalmente bem sucedidos e ampliaram as incertezas que cercam a tramitação do impeachment e seu desfecho.

  1. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, manobrou mais uma vez e adiou para hoje a escolha dos 65 membros (pelo menos um de cada um dos partidos com representação na Casa) que comporão a Comissão Especial do impeachment. Com isso, o deputado peemedebista atrasou em pelo menos um dia o início da tramitação do processo, no momento em que o Palácio do Planalto faz de tudo para apressar o julgamento e deu tempo ao grupo pró-impeachment de tentar emplacar na CE um número maior de oposicionistas do que emplacaria ontem.

Lastro jurídico

De quebra, Cunha ainda criou condições para esvaziar, mais uma vez, a reunião da Comissão de Ética da Câmara que vai votar um parecer favorável à cassação do próprio mandato, inicialmente prevista para hoje. A votação seria nesta terça-feira, mas ficará ofuscada com a briga pelos lugares na Comissão do impeachment. Os oposicionistas de partidos governistas, especialmente do PMDB, apresentarão uma lista de paralela de candidatos à CE. A decisão será por voto secreto no plenário.

  1. O vice-presidente Michel Temer, alheio aos acenos de paz da presidente, em mais um sinal claro de que está desembarcando do governo e se omitindo na defesa do mandato presidencial, enviou uma dura carta a Dilma dizendo que ela nunca confiou (nem confiará no futuro) nele e no PMDB, elencando dez exemplos desse desapreço da presidente.

“Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações econômicas e políticas do país, éramos meros acessórios secundários, subsidiários…” – escreveu o vice em seu rosário de queixas. Disse ainda que o acolhimento do processo de impeachment tem “lastro jurídico”, desmentindo outra vez o ministro Jaques Wagner (Casa Civil), que afirmou semana passada que ele dissera exatamente o oposto.

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O vice e seu grupo estão cada vez mais com os dois pés no barco pró-impeachment. Segundo reportagem do jornal “O Estado de S. Paulo”, em evento promovido pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo ontem, temer se apresentou com “ponte” para o país crescer – recado de que está preparado para isso.

Temer falou sobre a necessidade de “uma outra democracia”, a “democracia da eficiência” e disse que “ou nós compreendemos essa necessidade ou vamos nos dar muito mal”. Foi aplaudido e saudado como “presidente”.

O mesmo jornal, em outra reportagem, afirma que o vice-presidente, em ocasiões que substitui Dilma, autorizou as mesmas manobras fiscais que podem levá-la a ser cassada pelo Congresso.

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Apesar dos tropeços de ontem com seus próprios “aliados”, a presidente não desistiu de convocar extraordinariamente o Congresso para trabalhar em janeiro. “Não podemos nos dar ao luxo de paralisar o país” – defendeu.

Com tal ambiente, estreita-se ainda mais o espaço para o governo aprovar, a toque e caixa, ainda este ano, as medidas mais vitais do ajuste fiscal do ministro Joaquim Levy ainda penduradas no Congresso. O que não deixa de ser um argumento a mais para forçar uma convocação extraordinária do Congresso. De toda forma, o ministro da Fazenda ganho um refresco: em reunião com sindicalistas, o ex-presidente Lula pediu uma trégua aos ataques à política econômica.

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Destaques dos

jornais do dia

– “Janot indicia Delcídio, André Esteves e advogado de Cerveró” (Globo/Estado/Valor)

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 – “Petróleo cai a US$ 37 [menor valor em sete anos] e ameaça pré-sal / “Petrobrás diz que pré-sal ainda é competitivo” (Estado/Valor)

– “Commodities caem ao menor nível em 16 anos” (Valor)

– “ANP cria plano de contingência para abastecimento de combustíveis” (Valor)

– “Ações da BTG caem 9,47% e crise de confiança contamina da BR Pharma” (Estado)

– “[Venezuela] Oposição se aproxima do controle do Legislativo e reduz o poder do chavismo” (Estado/Valor) 

LEITURAS SUGERIDAS

  1. José Paulo Kupfer – “Depois do impeachment” (a aprovação de reformas estruturais pressupõe disposição e sensibilidade para negociar consensos mínimos) – Estado
  2. Claudia Safatle – “Piora da recessão pesa no cenário de impeachment” (diz que o processo de impedimento de Dilma vai coincidir com a divulgação de notícias muito ruins nos próximos meses pelo lado da economia) – Valor
  3. Raymundo Costa – “A vantagem é de Dilma na largada” (diz que a condição da base social do PT para ajudar a presidente é mudar a política econômica) – Valor
  4. Yoshiaki Nakano – “2016, uma ponte para o futuro” (diz que sem mudança drástica na política econômica não há razões para esperar melhor desempenho ano que vem) – Valor