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"Errou, cai fora. O mercado te dará uma nova chance no minuto seguinte", diz um dos maiores traders do Brasil

Para Roberto Lombardi, fundador da Interfloat e um dos idealizadores dos minicontratos no Brasil, o mercado deve seguir bastante volátil até a eleição e o trader que não entender isso, além de perder dinheiro, vai perder boas oportunidades - "e vão ter muitas esse ano"

Roberto Lombardi
(Divulgação)

SÃO PAULO - Roberto Lombardi é considerado um dos maiores traders do Brasil. Começou no mercado financeiro como operador especial em 1989 e três anos depois fundou a Interfloat (corretora que foi líder no segmento de varejo até ser incorporada pela XP Investimentos em 2011). Atravessou nesse percurso por diversas crises - e, em uma delas, na Crise da Ásia (1997), teve o melhor pregão da sua vida, quando chegou a movimentar com contratos DIs mais de 10% do volume financeiro da Bolsa. 

Mas esse reconhecimento ao longo de quase 30 anos de carreira não foi construído apenas pela fortuna que fez com suas operações, mas por suas contribuições -  desde a formação de milhares traders até na idealização dos minicontratos no Brasil, que permitiu o acesso de muitos investidores à Bolsa. 

Antes, o contrato cheio representava US$ 100 mil (hoje, o contrato cheio vale metade disso) e o lote mínimo era de 10 contratos. "Ou seja, errar custava muito caro. E, no começo, as chances de errar são altíssimas. Isso deu uma alternativa de acesso a muitos investidores que estavam começando. Mas, até esse mercado ganhar tração, demorou. Foram de 3 a 4 anos para se consolidar como um projeto importante e ter uma liquidez adequada", contou em entrevista exclusiva ao InfoMoney.

Da sua experiência na Bolsa, ele diz que já viu tudo, de lucros milionários em um dia a quem perdeu tudo e nunca mais voltou ao mercado. O mais importante nesse caminho é a disciplina. "Errou, cai fora. O mercado te dará uma nova chance no minuto seguinte". 

Nesse sentido, o pregão viva-voz foi importantíssimo para o seu sucesso. "Na roda, nós tomávamos posição muito rápido e, se não dava certo, você tinha que cair fora logo. Fui me moldando assim. Entendi desde o início que precisava focar nessa disciplina do prejuízo para ter resultados positivos constantes. E isso carrego até hoje. Se estou na direção errada, quero sair rápido".

Olhando para os gráficos de hoje, ele acredita que o mercado está dando e ainda vai dar muitas oportunidades aos traders. "Está muito volátil e isso gera tanto possibilidades em derivativos quanto na Bolsa. E não é apenas o Brasil, mas no mundo". 

Para ele, o mercado deve seguir extremamente volátil até a eleição e, por isso, não adianta ficar preso em posições perdedoras. "Além de perder dinheiro, você vai perder oportunidade e vão ter muitas esse ano". 

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Confira abaixo a entrevista na íntegra com Roberto Lombardi:

IM: Viver de suas próprias operações é o sonho e frustração de muitos, já que os tropeços nesse começo são corriqueiros. Pela sua própria história no mercado e dos milhares de investidores que formou nas últimas décadas, o que você acha que define quem tem sucesso na Bolsa de quem fracassa? 

Lombardi - Comecei como operador especial na recém-fundada Bolsa de Mercadorias & Futuros em 1989. Três anos depois, fundamos a Interfloat, corretora focada no apoio e acesso de investidores ao mercado de capitais. E, por conta desse direcionamento, formamos realmente muita gente no mercado. Para se ter uma ideia, no final do processo de desmutualização da Bolsa, mais de 80% dos operadores especiais tinham começado comigo.

Mas a verdade é que, com o advento das operações eletrônicas, passamos a ter um percentual de sucesso relativamente baixo no mercado. Quase 70% dos traders que começam se dão mal e desistem, mas acredito que isso ocorre basicamente  por falta de disciplina. Você tem que se propor a fazer algo e cumprir. 

As pessoas precisam também começar pequeno, com um valor que não vai fazer falta. Se você pega recursos que vai precisar mais a frente, isso não vai dar certo. Coloca uma pressão psicológica muito forte em cima de você.

É preciso também começar pequeno. Não adianta nada ir bem um, dois dias, aumentar a mão e acabar perdendo tudo. Tem que ser uma quantia pequena que você consiga administrar bem. 

IM: Você não foi direto para a roda de negociação da Bolsa, trabalhou antes na área de marketing de uma empresa. Conta como foi essa migração para o mercado em uma época que esse era um assunto pouquíssimo difundido no Brasil. 

Lombardi - Acompanhei o surgimento da BM&F. Meu avô teve corretora e já tinha familiaridade com o assunto. Acompanhava muito a rotina dele. Sempre tive muito interesse pelo mercado acionário e quando surgiu a BM&F acompanhei todas as notícias. Em 1987, teve o primeiro leilão de títulos de operador especial da Bolsa e, como já tinha um conhecimento sobre o mercado, decidi participar do leilão. Comprei um titulo, paguei um valor um pouco acima do que imaginava. Na época, trabalhava na área de marketing da Antártica e acabei precisando ficar na empresa por mais dois anos para quitar aquele montante, com meu salário mais o aluguel do título. Em janeiro de 1989, fui para o pregão e virei operador especial da Bolsa. 

Mas os primeiros meses não foram fáceis. Ganhava um pouco em um dia, dois, mas em seguida devolvia tudo. Em março até considerei a possibilidade de voltar ao emprego que tinha, mas acabei conseguindo virar o jogo. As coisas começaram a dar certo quando decidi estudar para valer o mercado e a focar na disciplina do prejuízo. A partir daí, fui me aperfeiçoando no trade e crescendo nas operações. 

IM: Você se especializou nas operações scalper, que buscam lucrar nas oportunidades de curtíssimo prazo. Hoje em dia, no pregão eletrônico, é mais fácil operar dessa forma? 

Lombardi - No pregão viva-voz, tínhamos uma vantagem muito grande porque percebíamos a direção do mercado pela própria movimentação da roda, além de termos uma agilidade em relação às pessoas que estavam na mesa.

Lá, você tomava posição muito rápida e fui me moldando assim. Tínhamos uma agilidade que era muito importante para as operações. Fazia uma posição e, se não dava certo, já finalizava logo e partia para outra. Naquela época, o mercado era muito volátil e dava muitas oportunidades para a gente. 

Mas o mercado hoje é muito mais transparente e eficiente. A mudança foi difícil, mas quando esse movimento começou já entendi que tinha vindo para ficar, já que nos mercados mais maduros algumas bolsas estavam até abandonando o pregão viva-voz. Foi preciso me adaptar, mas os conceitos permanecem os mesmos. 

Gosto muito de tape reading, de análise técnica e tenho minha disciplina operacional. Quando estou na direção errada, quero cair fora logo. Se estou ganhando, tento alongar a posição. Mas a questão é: se você entra para ganhar R$ 0,30 e o papel cai R$ 2,00, você fica congelado e isso desequilibra a relação ganho/perda. Se acontecer isso, você precisa sair da posição ou o mercado vai virar contra você. Acho que esse balizamento é muito importante.

IM - Você é um dos idealizadores dos minicontratos no Brasil. Como surgiu essa ideia? 

Lombardi - Esse é um projeto que nasceu comigo. Participava da Câmara de Assuntos Operacionais, que foi muito ativa na Bolsa, e como tínhamos esse vinculo com o investidor pessoa física, sempre foi o foco da corretora até por conta mesmo da minha história, entendíamos que era preciso facilitar o acesso ao mercado.

O contrato era muito pesado. O contrato cheio representava US$ 100 mil (hoje, o contrato cheio vale metade disso) e o lote mínimo era de 10 contratos. Ou seja, errar custava muito caro. E, no começo, as chances de errar são altíssimas. Isso deu uma alternativa de acesso a muitos investidores que estavam começando. Mas, até esse mercado ganhar tração, demorou. Foram de 3 a 4 anos para se consolidar como um projeto importante e ter uma liquidez adequada.

Mas nosso mercado precisa evoluir muito ainda. É um mercado muito concentrado em poucos ativos e, quando olhamos para aqueles que realmente têm liquidez, fica mais restrito ainda. Infelizmente, temos poucas opções quando comparado com os mercados internacionais. 

Acredito que precisamos amadurecer para ter mais alternativas com liquidez para o trader. Essa é uma questão que também julgo muito importante, porque o trader tem que operar mercados líquidos. Ele tem que poder entrar e sair das operações com agilidade.

IM - Embora tenha feito fama no day trade, você mencionou uma vez, em uma entrevista, que deixa uma parte do seu capital para posição, para se aproveitar dos grandes movimentos do mercado. Como funciona exatamente isso?

Lombardi - No trade, você tem a vantagem de administrar a hora de entrar e sair da operação, mas acaba limitando a porcentagem de ganho. Você vai ganhar pequeno mas perder pequeno também. Já na posição, você tem a condição de se alavancar na posição vencedora, porque você vai buscar movimentos longos. O negócio é que isso traz um risco também.

No trade, você tem a condição de sair a qualquer momento. Na posição, depende de como os mercados vão abrir. Eles podem abrir contra você, mas podem também abrir bem a favor. Por isso, você precisa ter um pouco de balizamento. Mas os grandes ganhos só vem de posições que você faça e carregue por um tempo a favor da tendência.

IM - E, nessas anos de experiência no mercado, qual foi o seu melhor e o pior pregão? 

Lombardi - O melhor pregão foi na crise da Ásia, em 1997. Operava contratos DIs.  O mercado vinha oscilando 40 a 50 pontos por dia. Naquela época, negociava-se o PU (preço unitário), não era a taxa. No dia da crise, ele oscilou da abertura até o limite de baixa; e, durante à tarde, do limite de baixa até o limite de alta, dando 5.000 pontos. O dia em que ele oscilava 40 pontos todo mundo ficava feliz de como tinha oscilado; nesse dia, foram 5.000 pontos.

Esse foi o meu melhor pregão, operei da abertura até o fechamento. Foi meu recorde de volume e também de resultado financeiro. Fiz 100 mil contratos DIs, o que representava de 10% a 15% do mercado. Foi um pregão fora da curva. Consegui pegar esse movimento justamente por conta da agilidade que a roda proporcionava. Em dias de negociação muito atípicas, lá no pregão era normalmente muito positivo. 

Já o pior pregão foi em 1999. O dólar estava muito próximo dos R$ 2,00, que já era um valor bem alto porque o Gustavo Franco tinha deixado a presidência do Banco Central. O dólar tinha um parâmetro muito próximo de R$ 1,20, mas quando isso ocorreu ele deu uma rasgada. 

Pouco depois, o FHC nomeou o Armínio Fraga como presidente do BC e lembro que, na parte da manhã, a moeda ficou muito estressada. Trabalhei toda a manhã na venda e o mercado só subindo. Um pouco antes de tocar a campainha para a pausa do almoço decidi zerar toda minha posição vendida e virei para a compra. Estava muito próximo da máxima do dia. Pensei: pode abrir com um 'gap' e vou recuperar o que estava perdendo. 

Quando voltei do almoço, olhei a tela e o dólar estava perto da mínima. Chamei uma pessoa do TI e falei que o terminal não estava funcionando, que estava a cotação da abertura, que era a mínima do dia. Ele chegou e me disse que estava certo. Foi aí que fui ver o noticiário. Acabava de ser anunciado o primeiro leilão de spread da era Armínio. O dólar desabou. Já tinha perdido de manhã, voltei com uma posição extremamente desfavorável. Foi a minha maior perda naquele momento. Trabalhei durante à tarde que nem um louco e ainda consegui recuperar 70% do meu prejuízo, mas ainda terminei com 30% de perda. Na semana seguinte, arregacei a manga e fui buscar o restante de volta.  

Fiquei bem abalado, mas tinha que seguir em frente. O pregão dava muitas oportunidades e ter aquela agilidade da roda dava uma vantagem competitiva muito grande. 

IM - Como você tem visto essa volatilidade do mercado dos últimos meses? Tem dado boas oportunidades aos traders?

Lombardi - O mercado está muito volátil, dando muitas chances tanto em derivativos quando na Bolsa. E isso não é só Brasil, é no mundo. Acredito que o mercado será extremamente volátil até a eleição. A perspectiva de volatilidade permanece e, por isso, não adianta ficar preso em posições perdedoras. Além de perder dinheiro, você vai perder oportunidade e vão ter muitas esse ano. Errou, cai fora. O mercado te dará uma nova chance no minuto seguinte. 

IM - E em relação ao dólar, devemos esperar por mais altas?

Lombardi - Acredito que o dólar pode subir ainda mais. Temos a perspectiva de elevação de juros lá fora, mas acho que é mais o ambiente eleitoral. Enquanto não tiver uma visão um pouco mais cristalina de como vai ser a eleição, é natural que o dólar suba. Já a Bolsa, acho que tem segurado bem essa alta do dólar. Vejo um cenário mais positivo para frente. 

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