Simpatizo com ideia de contratar a demitida do Santander, diz analista da Empiricus

Banco não confirmou, mas PT diz que analista do Santander que escreveu informe contra governo Dilma será demitida. Para Empiricus, o cliente do Santander ficou na mão
Por Arthur Ordones  
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SÃO PAULO – As ofensivas do PT e do governo contra o Santander e a Empiricus Research são o tema mais comentado no mercado financeiro nos últimos dias. Os bancos e as casas de análise estão assustados com toda a repercussão dos casos e agora não se sentem mais confortáveis em falar sobre o governo, com medo de represálias. Por ordem da Justiça Eleitoral, a campanha da Empiricus que envolvia Dilma teve que ser tirada do ar. Já petistas dizem que a funcionária responsável pelo relatório do Santander sedrá demitida.

Felipe Miranda, cofundador e analista da Empiricus e autor do relatório “O Fim do Brasil”, que gerou toda a polêmica com o governo, afirmou, em entrevista ao InfoMoney, que tudo isso que está acontecendo é muito grave e ameaça a liberdade de expressão no país. “Eu fiquei decepcionado e triste em ter a liberdade expressão cerceada por um governo que não aceita críticas. Pelo que parece, hoje é proibido dar opinião. Muito ruim e muito triste tudo isso”, diz.

O analista afirmou ainda que, caso a funcionária do Santander seja mesmo demitida, ela pode ir fazer uma entrevista para trabalhar na Empiricus - afinal, ela já teria mostrado ser corajosa e ética. “Claro que uma contratação não passa apenas pelo boa ética, que ela já mostrou ter, mas sou totalmente simpático a esta ideia”, afirmou.

Confira a entrevista completa com Felipe Miranda:

IM - Depois destes episódios recentes e particularmente com a decisão da Justiça de mandar tirar a campanha do ar da Empiricus, você acha que a liberdade de expressão, de forma geral, está ameaçada?

FM: Sim, com certeza. O que você viu com o Santander e com a gente foi uma censura muito grave. Agora os bancos, em geral, já estão adotando novos procedimentos para se relacionar com seus clientes a respeito de eleições. Então a liberdade de expressão já está prejudicada gravemente. Isso é algo muito sério e preocupante para o nosso país.

IM - Era essa a intenção do governo em sua opinião? Você acha que tem um terror que inibe as pessoas e instituições a fazerem críticas?

FM: Esse é um governo que já provou não aceitar críticas. E quem não aceita críticas não caminha para frente. Só ouvindo elogios e censurando as críticas, como eles terão um bom diagnóstico da situação? Tem que ouvir e admitir os erros, afinal, ficar só se elogiando e barrando o resto é fácil.

IM - O que você tem a dizer da declaração em que o Lula diz que "a analista do Santander não entende porra nenhuma do Brasil"?

FM: Eu sabia que o Lula sabe tudo sobre o país, sobre o continente, sobre o planeta e sobre a galáxia, mas não sabia que ele entende mais de ações do que uma analista que estudou isso a vida inteira.

IM - Há boatos (não confirmados pelo banco, mas sim vindos do PT) de que uma pessoa, que foi a responsável pelo relatório, foi demitida. Se for verdade, o que você acha disso?

FM: Um grande absurdo. A analista não fez nada. O que estava escrito no relatório era uma simples decorrência lógica do que tem acontecido e que todo o mercado já sabe. Se o banco a demitiu, isso prova que a instituição é governada por outros interesses, e não apenas em prol dos clientes. O cliente agora ficou na mão e não foi priorizado. A analista teve uma atitude louvável e se ela foi demitida eu poderia até estudar sobre ela vir trabalhar aqui. Claro que uma contratação não passa apenas pela boa ética, que ela já mostrou ter, mas sou totalmente simpático a esta ideia.

IM - Você considera toda a repercussão que deu o caso positiva para vocês? É uma espécie de mídia espontânea bem-vinda ou vocês estão preocupados com alguma atitude mais rígida por parte do governo?

FM: De forma alguma. Eu não acho nada disso bem-vindo. Eu fiquei decepcionado e triste em ter a liberdade expressão cerceada por um governo que não aceita críticas. Pelo que parece, hoje é proibido dar opinião. Muito ruim e muito triste tudo isso.

IM - Vocês estão se sentindo pressionados pelo PT? Se sim, a Empiricus pode se curvar à essas pressões em algum momento?

FM: Jamais. Não vamos nos curvar a ninguém, a não ser que seja na marra. Mas, neste caso, já estaremos caminhando rumo a uma Venezuela, de fato. No momento que eu parar de dar as minhas opiniões eu acabo com a empresa, afinal, ela nasceu para isso. No caso do Santander é diferente.

IM - Agora mais voltado ao relatório que você escreveu. O PT disse que vocês tentam assustar as pessoas para vender consultoria. Você acredita no que escreveu? Você realmente acha que o Brasil vai acabar?

FM: Quem está assustando as pessoas são eles, com a estagflação. Inflação acima de 6,5% e crescimento abaixo de 1%. Isso sim assusta. No meu texto houve uma metáfora, não é o fim do Brasil de forma literal. Quem leu o relatório sabe disso, então isso que o PT falou não faz o menor sentido. O que eu falo é o fim do Brasil que foi construído em 1994 com o Plano Real e consolidado em 1999 com a criação do tripé econômico. É esse Brasil que está acabando, afinal tudo isso está sendo ignorado. Tudo que foi construído está sendo destruído. Essa afirmação do PT é descabida. E outra coisa. Essa é a minha análise. Quem concordar compra a ideia, quem não concordar não compra, mas eu tenho o direito de escrevê-la.

IM - A Justiça mandou tirar a campanha do ar, mas, ao abrir o site de vocês, a primeira coisa que aparece é justamente a campanha. Por que ela não foi tirada do ar?

FM: Há uma liminar concedida pela Justiça falando das campanhas pagas envolvendo eleições. Então o TSE mandou tirar os banners que tinham menções positivas sobre o Aécio Neves e a que falava “como se proteger da Dilma”. No entanto, a análise econômica “O Fim do Brasil” não tem nada a ver com isso. O link dava para ela, mas é apenas uma análise econômica. O problema foi só os banners envolvendo o nome dos políticos. Sobre o “Fim do Brasil”, eles podem até tentar tirar do ar, mas seria algo descabido, afinal, é uma análise econômica.

IM - Vocês esperavam toda essa repercussão?
FM: Não. Quer dizer, eu esperava uma grande repercussão sim, mas não essa censura e esse terrorismo todo. De jeito nenhum. O que nós e o Santander fizemos foi algo totalmente natural.

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