Em vale

Queda de 24% nas ações, perdas de R$ 72 bi: Vale sofre seu pior pregão da história

Mineradora foi o grande destaque negativo do mercado nesta sessão, com queda de 24,52%; papéis tiveram uma forte influência negativa sobre o Ibovespa

mina ferro vale paraopeba brumadinho
(reprodução)

SÃO PAULO - A tarde da última sexta-feira (25) ficará marcada na história da bolsa brasileira, mesmo em um dia em que ela não teve operações por conta do feriado em São Paulo. Afinal, foi por volta das 13h30 que o mercado tomou conhecimento de uma notícia que abalou por completo uma das principais empresas presentes no Brasil e no Ibovespa: a Vale (VALE3).

Até então em um dia de forte alta na bolsa de Nova York por conta do ânimo com um possível desfecho da guerra comercial entre EUA e China, os ADRs (American Depositary Receipts) da mineradora passaram a registrar forte queda, chegaram a despencar 13%, para depois fecharem em baixa de cerca de 8% em meio à notícia do rompimento da barragem da mina do Feijão, em Brumadinho (MG).

Ainda não havia detalhes sobre os impactos ambientais e o número de vítimas com a tragédia, mas a comparação com o ocorrido em Mariana e a recorrência do evento fizeram com que os papéis tivessem uma derrocada, ao mesmo tempo em que o mercado passou a analisar, ainda que preliminarmente, os efeitos do desastre para o papel. Durante o fim de semana, notícias sobre o bloqueio judicial de mais de R$ 11 bilhões da companhia para ressarcir danos e perdas e buscas revelando cada vez mais vítimas deram uma dimensão ainda maior da tragédia.

Como resultado, logo de manhã, os papéis da companhia já registraram uma nova derrocada no pré-market da NYSE nesta segunda e quando a Vale finalmente abriu na B3 após mais de vinte minutos em leilão, o mercado sentiu o impacto. A mineradora registrou a sua maior queda da história e pressionou o Ibovespa para a sua maior queda desde 10 de dezembro. Porém, no mercado, mesmo em meio a tantas incertezas, há quem veja que as ações da companhia podem voltar a se recuperar. Confira as principais notícias sobre a Vale na sessão desta segunda-feira:

1. Recordes da Vale na Bolsa 

A sessão desta segunda-feira foi marcada por recordes negativos da Vale na B3, ao registrar a maior queda da ação da mineradora da sua história, com baixa de 24,52%, a R$ 42,38, enquanto a holding Bradespar (BRAP4) teve queda de 24,49%, a R$ 26,43. O volume negociado pelos papéis VALE3 também foi bastante expressivo, de R$ 8,15 bilhões, oito vezes acima da média negociada nos últimos 21 pregões e cerca de um terço do volume negociado na bolsa inteira na segunda-feira, de R$ 24,63 bilhões. 

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Cabe ressaltar que essas fortes quedas dos ativos da Vale, que correspondem a 10,90% do índice, e da Bradespar, que tem uma fatia de 0,49% no Ibovespa, levaram a um impacto negativo de 2,79 ponto percentual no índice. Ou seja, caso os ativos tivessem fechado estáveis, o benchmark da bolsa teria registrado alta de cerca de 0,5%. 

Opções disparam na B3

Enquanto as ações VALE3 despencaram na Bolsa, as opções de venda da companhia dispararam com um forte volume negociado. Um caso emblemático foi a opção de venda VALEN418, que dá o direito de vender ações da companhia ao preço de exercício de R$ 41,89 e que teve disparada de 20.800% na comparação com fechamento de quinta-feira (24). O volume negociado também foi bem expressivo, de R$ 2,9 milhões. 

Revisões de recomendações

A sessão também foi marcada por diversas recomendações das ações da mineradora. Mesmo considerando um impacto limitado na produção, diversos analistas destacaram riscos incluindo custos de remediação, ações judiciais, inspeções adicionais e o possível fechamento de outras minas. Assim, bancos e casas de análise como HSBC, Macquarie, BMO e Jefferies rebaixaram os ADRs da empresa para recomendação equivalente à neutra, enquanto o Bank of America Merrill Lynch colocou a ação temporariamente sob revisão, dizendo que o papel deve desvincular-se dos fundamentos no curto prazo. 

“Dado que este é o segundo rompimento de barragem ligado à Vale, esperamos que sejam aplicados requisitos de remediação mais rigorosos e penalidades mais duras,” destacaram os analistas do Macquarie. O HSBC estima um passivo de US$ 3,5 bilhões para a empresa por conta do acidente.

Já o Bradesco BBI ressalta que a barragem em questão era de cerca de um quinto do tamanho da barragem de rejeitos da Samarco, então o custo ambiental final pode ser menor, embora a compensação para as famílias possa ser maior.  De qualquer forma, uma série de incertezas em relação ao impacto no curto prazo permanecem e, com isso, a XP Research sugere cautela, apesar de seguir com recomendação de compra para os ativos. 

E, no fim da tarde desta segunda, a agência de classificação de risco Fitch reduziu o rating Vale de BBB+ para BBB-, colocando ainda a nota da companhia em observação negativa, indicando um possível novo corte. No fim de semana, a Standard & Poor's colocou a Vale em CreditWatch com implicações negativas.

Declarações de autoridades

Durante todo o dia, nomes como a procuradora-geral da República Raquel Dodge e o presidente em exercício Hamilton Mourão falaram sobre a tragédia de Brumadinho. Mourão afirmou que o grupo de crise constituído pelo governo para estudar o caso do rompimento de barragem em Brumadinho (MG) considera afastar a diretoria da mineradora.

Já Dodge afirmou que os executivos da Vale podem ser responsabilizados pessoalmente pela tragédia. Segundo Dodge, a responsabilidade civil pode ser da empresa e dos dirigentes, mas é necessário examinar a responsabilidade penal de cada um dos dirigentes da mineradora envolvidos na questão de segurança das barragens. “É preciso examinar qual prova temos da falha na responsabilidade de cada um”, disse.

Mais tarde, foi a vez do CFO (Chief Financial Officer), Luciano Siani, se pronunciar em entrevista coletiva. Ele afirmou que, independentemente da produção, a companhia irá calcular e pagar os royalties para a cidade de Brumadinho. Siani também disse que a empresa doará R$ 100 mil para famílias de cada uma das vítimas do incidente, o que é uma doação e não indenização, que será discutida mais tarde com famílias e autoridades. A companhia ainda terá que contratar especialistas para determinar os motivos do incidente e, a partir de terça, vai colocar cortina de contenção no rio Paraopebas.

Ações impactadas indiretamente

Vale e Bradespar são de longe as ações mais impactadas pela tragédia da última sexta, mas outros ativos, ainda que indiretamente, são impactados pelo acontecimento em Brumadinho. 

Em relatório, o Itaú BBA ressaltou que a exposição indireta do Banco do Brasil (BBAS3) às ações da Vale deve impactar negativamente a estatal. Isto porque a Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil) é atualmente um dos maiores acionistas da Vale por meio da Litel Participações, veículo de investimento que possui cerca de 18% do capital da mineradora. A Previ detém 80,6% de participação na Litel. Os ativos do BB tiveram queda de cerca de 1% nesta sessão, enquanto os papéis dos demais bancos fecharam em alta na bolsa. Veja mais clicando aqui

Já para a IRB (IRBR3), os analistas do Banco Brasil Plural estimam um impacto líquido da tragédia de 1,5% nas receitas deste ano com o efeito Vale. A estimativa inclui uma perda máxima de US$ 10 milhões (antes dos impostos) na previsão do banco de lucros de R$ 1,59 bilhão. "O IRB está exposto a ações relacionadas à interrupção da barragem e a apólice não cobre nenhum risco de responsabilidade civil", explicam os analistas em nota enviada a clientes. Os papéis, contudo, fecharam em leve alta.

Porém, quem foi mais impactada na bolsa nesta segunda foi a CSN (CSNA3), que fechou em queda de 5,69%, sendo a terceira maior queda do Ibovespa nesta sessão. A companhia foi especialmente impactada uma vez que os investidores mostram receio com riscos de eventuais complicações em barragens da siderúrgica. A CSN é dona da mina Casa de Pedra, que fica em Congonhas (MG). A companhia enfrenta um alto endividamento e, em caso de pagamento de multas, o receio é de que ela não teria condições de arcar com seus compromissos. 

Fundos comprando Vale

O cenário é de incertezas para a Vale mas, se boa parte do mercado está querendo vender a qualquer preço, alguns grandes investidores enxergam nessa queda uma oportunidade de compra. É o caso das gestoras Mauá Capital e Quantitas. A avaliação é que a desvalorização das ações foi exagerada.

Outro gestor que avalia a compra de Vale é Henrique Bredda, do Alaska Black – um dos fundos de ações mais rentáveis dos últimos anos, conhecido pela sua gestão arrojada. Os fundos da casa já têm entre 8% e 10% do patrimônio em ações da mineradora.  Segundo ele, a decisão de aumentar a exposição aos papeis da mineradora será tomada após uma avaliação mais detalhada sobre os impactos do acidente.

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