Stock Pickers

Melhores momentos do 1º Stock Pickers ao vivo, com Florian Bartunek

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Florian Bartunek
Florian Bartunek, da Constellation

A maior queda semanal do Ibovespa desde 2008 também trouxe impacto ao Stock Pickers: pela primeira vez desde a criação do podcast (abril de 2019), não publicamos um episódio semanal – o episódio que seria publicado era sobre o livro “Fora da Curva 2”.

Por ele estar totalmente desconectado dos eventos desta semana histórica, “trocamos” a publicação do episódio por uma live no nosso Instagram com uma das maiores lendas do mercado brasileiro de ações: Florian Bartunek, gestor da Constellation e, por coincidência, co-autor da série “Fora da Curva”.

A entrevista foi feita pelo Thiago Salomão (apresentador do Stock Pickers e analista da Rico Investimentos) na quinta-feira (12), às 19h, e contou com mais de 5 mil espectadores simultâneos durante os quase 40 minutos de conversa.

Aos que não conseguiram acompanhar, selecionamos os melhores momentos desta entrevista:

Thiago Salomão: Fazendo aquela “análise de retrovisor” que todo mundo acerta, parecia previsível saber que a bolsa iria cair, mas o que assustou foi a magnitude da queda, caímos muito e em pouco tempo…

Florian Bartunek: Além disso, caímos sem ter muita oportunidade de venda. Alguns dias, a bolsa já abriu com papel caindo 15%, 20%, tivemos circuit breakers na bolsa em um dia que algumas ações nem tinham aberto… Não é aquela queda que “se o papel cair 5% eu stopo (aciono o stop loss)”, não dá, porque você já abre com uma queda maior, isso é assustador.

TS: Que paralelo você pode fazer entre outros circuit breakers, o que essa tem de diferente e o que essa tem de igual às outras paralisações que tivemos em 2008, por exemplo.

FB: O que ela tem de igual: ela machuca muito quem está alavancado. Você não pode estar alavancado porque você é forçado a liquidar suas posições, esse risco se repete frequentemente nessas crises. Alvancagem é mortal, quem tem um peso em ações maior do que deveria ter está tendo que vender, na época que era para comprar está tendo que vender.

Segundo ponto: tudo cai meio que igual, então não teve muito como se defender. O Peter Lynch [um dos maiores investidores da história] contava uma história interessante dos maias: primeiro os maias moravam na beira do mar, daí veio uma enchente que matou metade deles; aí eles aprenderam e foram morar em cima das árvores, mas aí veio um raio e pegou fogo e matou mais gente; daí aprenderam e foram morar nas montanhas, mas veio um terremoto, as pedras rolaram e morreu mais metade… Você acaba para as crises do passado e as da frente acabam sendo diferentes. Quiseram se proteger dessa crise com empresas de commodities, mas foram pegos porque essa crise pegou a China no começo. As crises são parecidas mas elas sempre mudam, então é muito difícil você “se hedgear” e se preparar para a próxima crise.

O que ela tem de igual: apesar de tudo estar caindo mais ou menos igual, tem ações com mais “beta” (correlação mais alta com o Ibovespa) e que acabam sofrendo mais, e a gente aprende um pouco isso, as ações quase têm personalidade, você sabe que uma Weg ou uma Ambev, por exemplo, são mais defensivas, e você sabe que uma Magalu, Banco Inter tem mais “beta”, até pelos negócios com mais alavancagem, empresas mais defensivas sofrem menos, empresas mais agressivas sofrem mais.

TS: Mas o que explica uma queda tão mais rápida que de outras crises?

FB: Existe uma diferença entre risco e incerteza, o problema não é o risco, se eu sei a perda potencial, eu não fico feliz mas eu sei que minha perda potencial é essa, agora quando eu tenho incerteza eu não sei o que pode acontecer, as pessoas começam a criar cenários paralelos, do tipo “e se fechar as escolas, metrô, o que causa na economia? E se começa a quebrar empresa, e se morrer tantas pessoas?” Estamos naquela fase aguda da incerteza, aí você pega investidores alavancados, fundos que não têm mandato específico de ações e dentro de um ambiente de incerteza, que você pode pensar em qualquer cenário, isso acelera as quedas.

Agora, confesso que quedas de 20% de uma ação no dia, 30%, eu raramente vi, e acho que é interessante que se você olha em um cenário mais normal, numa Raia Drogasil por exemplo. Eu até entendo isso em uma ação de uma empresa aérea ou uma empresa hoteleira, esse é o epicentro da crise, pois quem está sofrendo é agência de viagem, turismo, isso até entendo… mas Raia Drogasil? Qual a chance de ter um impacto relevante no negócio da Raia? No cenário que eu vejo hoje, não é muito grande, posso dizer que o lucro pode cair 10% se tivermos uma quarentena, mas a ação caiu muito mais do que isso, então nessas horas as pessoas sempre fazem o pior cenário, boa parte da queda vem de investidores alavancados e que tem um percentual maior do que deveria ter no portfólio.

TS: Teve uma coisa muito legal que você falou na entrevista para o Brazil Journal: essa crise de agora tem começo, meio e fim, enquanto em 2008 parecia que o mundo ia acabar, ninguém sabia até onde a crise de crédito nos EUA iria e quanto ela poderia impactar a economia do mundo todo. Agora, essa crise atual tem prazo de validade, basta ver que a China está vencendo o coronavírus. Com isso em mente, como explicar o Ibovespa cair de 120 mil pontos para 70 mil pontos em tão pouco tempo? Foi apenas investidor alavancado vendendo, ou é uma nova fase do mercado que tem muito mais dinheiro disponível e mais gente comprada?

FB: Durante períodos de alta volatilidade, é comum os investidores acompanharem freneticamente os preços e esquecerem que atrás de cada um daqueles números piscando rapidamente na tela existe uma empresa que continua operando no dia-a-dia. Ao invés de congelar em frente à tela, o investidor deve “voltar aos fundamentos” e estudar os possíveis impactos reais da crise na geração de caixa da empresa da qual o investidor decidiu se tornar sócio, pois é isso irá realmente impactar o valor da empresa.

TS: Deixe um recado para os mais de 1 milhão de investidores que entraram nos últimos 12 meses na bolsa e devem estar apavorados com essas quedas.

FBComprar ação é o início. O grande teste do investidor é o que fazer no caminho. Decidir qual ação colocar na carteira pode levar um tempo, mas, após feita essa lição, o investidor começa o período de testes que, dependendo da tese, pode durar décadas. Nesse trajeto, os investidores passam, sem dúvida, por alguns períodos de teste. Quem começou essa jornada há pouco tempo pode pensar que os gestores com mais experiência não ficam aflitos. Mas todos, independentemente do tempo de mercado, ficam preocupados e aflitos. Nesses períodos é importante estudar e ver se sua posição está adequada.

Aprendizados em tempos de crise: uma série especial do Stock Pickers com as lições dos principais nomes do mercado de ações. Assista – é de graça!