Leda Braga, a “Rainha dos Quants”, conta o que os robôs que venceram a crise de 2008 e de 2020 estão pensando sobre o mercado

Mulher brasileira com a carreira mais consagrada no mercado financeiro foi a convidada do podcast Stock Pickers

Rafaella Bertolini

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Leda Braga, além de doutora em engenharia mecânica, é fundadora, acionista majoritária e CEO da Systematica Investments, gestora de fundos de investimentos com sede na ilha de Jersey, no Reino Unido, que tem cerca de US$ 17 bilhões em ativos sob gestão.

Os fundos da Systemica agem com processo 100% quantitativo. Isso significa que as decisões de compra e venda de ativos são determinadas por algoritmos executados por computadores, e não por pessoas.

Em entrevista ao episódio 180 do podcast Stock Pickers, Leda contou sobre o funcionamento prático dos fundos quantitativos, o que os modelos esperam para economia e um pouco de sua trajetória. Assista ao episódio completo no vídeo acima.

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Fundos quantitativos

“O gestor de capital, de forma geral, é quem está observando dados e informações para tomar boas decisões, em nome de um cliente e seus parâmetros. O gestor quant faz exatamente a mesma coisa: observa dados e também toma decisões”. Mas qual a grande diferença entre o discricionário e o quantitativo?

Segundo palavras da própria Leda, “a diferença é: a abrangência dos dados, quais dados podem ser processados e a gerência do processo. A literatura indica que o ser humano, quando está envolvido em um trading, mantém uma média de 6 a 10 ideias na carteira. Um computador pode gerenciar e recalcular um número enorme de posições”, explica.

Portanto, para a executiva, o sucesso da abordagem é a fuga do caminho pessoal e a análise completa dos dados, dos mais aos menos relevantes.

“O sujeito discricionário está buscando encontrar oportunidades para ganhar dinheiro. O sujeito quant está desenvolvendo uma máquina que encontra oportunidades o tempo todo”, complementa Leda.

Dados alternativos

Outra grande diferença entre os modelos de gestão é a capacidade da extração de dados alternativos, aqueles “pontos fora da curva” capazes de trazer alguma indicação do desempenho de uma companhia.

No discricionário, existe o analista preparado para estudar uma empresa em profundidade e que, quando necessário, publica um parecer em relação ao negócio.

Ao falarmos do modelo quantitativo, os dados obtidos podem até caracterizar algum processo, mas não têm a mesma qualidade fundamental do “mercado profissional”, como explica Leda.

“A quantidade de glamour em volta dos dados alternativos não é proporcional à contribuição que os dados alternativos fazem ao processo de investimento”.

Porém, uma área que a executiva acha interessante é a chamada “processamento de dados sem formato”. Com ela é possível processar inúmeros documentos, artigos e matérias para produzir “sentimento”, de maneira eficiente e quase instantânea.

O que os modelos esperam para os mercados

Em termos de nível de risco, o modelo BlueTrend está logo abaixo da metade da escala, o que significa que não é muito alto. Em relação às posições, foram reduzidas as posições em juros e há um posicionamento “small short” (posição vendida pequena) no mercado de ações globais.

Por fim, em relação às commodities, eles estão long (comprado) e enxergando bem menos riscos. Mas Leda reitera que o fundo BlueTrend troca de opinião muito rápido.

Leda Braga

Leda Braga é hoje uma das pessoas mais influentes do mercado de fundos de hedge no mundo. A executiva cursou Engenharia Mecânica na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde também fez seu mestrado.

Em 1988, ela iniciou o doutorado em “Mecânica da Fratura” no Imperial College de Londres. O programa terminou em 1990 e Leda passou a dar aulas na instituição, além de liderar projetos de pesquisa.

Em 1993, porém, trocou as marchas da carreira e passou da academia para o mercado financeiro.

“Existe quase um paradoxo entre ser engenheiro e ser acadêmico. O acadêmico investiga as coisas pelo desenvolvimento do conhecimento. O engenheiro é o que questiona ‘mas vai servir para que?’”, conta Leda.

O JP Morgan foi o primeiro banco em que trabalhou. Lá, a brasileira ficou por sete anos como analista quantitativa na equipe de pesquisa de derivativos.

Depois, a engenheira atuou como executiva na Cygnifi Derivatives Services, responsável pela área de “valuation”. A Cygnifi era uma empresa desmembrada do J.P. Morgan.

No JP Morgan, Leda Braga conheceu o futuro bilionário Michael Platt, que também trabalhava no banco. Em 2000, Platt fundou a gestora BlueCrest e, em 2001, a brasileira foi trabalhar com ele, tornando-se presidente e chefe da área de negociações sistemáticas da companhia.

Em 2004 por fim, ela lançou o BlueTrend, fundo que hoje está sob gestão da Systematica. Além disso, em pleno choque do subprime nos EUA, Leda Braga teve 43% de performance no fundo que administrava.

Rafaella Bertolini

Editora de redes sociais do Stock Pickers e Do Zero ao Topo. Escreve reportagens sobre empreendedorismo, gestão, inovação e mercados para o InfoMoney.