Stock Pickers

Carteira de ações ‘low carb’ e as dificuldades enfrentadas pela M. Dias Branco

Líder em massas e biscoitos, empresa teve um desempenho forte nos primeiros 6 meses de pandemia, mas sua performance deteriorou.

Priscila Araujo, sócia e gestora de renda variável da Macro Capital.

Alguns dias antes do evento Gamestop, por coincidência, gravamos um episódio do Stock Pickers (clique aqui para ouvir) onde contei um pouco sobre uma das posições short que carregávamos na carteira: M. Dias Branco (MDIA3).

Além de ser um momento particularmente turbulento para falar de shorts, acaba sempre sendo uma situação delicada comentar em público sobre uma posição vendida em uma ação. Vale comentar que quando montamos uma posição vendida, é porque acreditamos que o preço da ação não reflete integralmente os fundamentos e perspectivas da companhia.

Colocando em contexto, a M. Dias Branco, líder nacional na venda de massas e biscoitos, teve um desempenho de vendas muito forte nos primeiros seis meses de pandemia. O consumo nesse período foi impulsionado pelo auxílio emergencial, pelo fato de as pessoas estarem se alimentando dentro de casa e até pela forte alta do preço do arroz (que leva as pessoas a substituírem o arroz pelo macarrão).

Defendi naquele episódio do Stock Pickers, divulgado no final de janeiro, que com uma forte pressão de custos, combinação de aumento do preço do trigo e desvalorização cambial (já que o trigo é cotado em dólares), maiores pressões competitivas, dificuldade em repassar o aumento de custos para os preços e perspectivas de volumes mais fracos, a empresa poderia enfrentar dificuldades na manutenção daquele patamar de volumes e rentabilidade.

Ontem, dia 31 de março, fechando a temporada de resultados do 4º trimestre, M. Dias divulgou seus números do quarto trimestre. Como prevíamos, o desempenho decepcionou. O volume vendido no último trimestre foi mais 15% inferior ao de um ano antes. A empresa aumentou preços para tentar recompor margens, e, com isso, mais uma vez, perdeu participação de mercado, tanto em massas quanto biscoitos. O forte aumento de custos, com a elevação dos preços do trigo e do óleo de palma, aumento das despesas de marketing e os efeitos da desalavancagem operacional fizeram a empresa atingir o menor patamar de margem bruta dos últimos anos.

Algumas horas de pregão após a divulgação do resultado, a ação cai quase 7%. A perda acumulada da ação no ano é de mais 15%, contra uma queda de 2% do Ibovespa.

Apesar do retorno do auxílio emergencial o cenário para 2021 ainda parece bem desafiador, com pressões competitivas, de custo e dúvidas sobre a estratégia comercial da companhia tirando a visibilidade sobre volumes e rentabilidade. Continuamos cautelosos com a ação.

Por ora, optamos por manter uma carteira de ações “low carb”, comprada em proteínas e sem macarrão nem biscoitos.

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