Americanas (AMER3): como o “rombo” bilionário aconteceu e o que esperar para o futuro da varejista

Marcelo Urbano Dias, da Augme Capital, e Alexandre Miguel, da RPS, ajudam a entender melhor o caso e debatem os possíveis desfechos no Stock Pickers

Rafaella Bertolini

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No último dia 11 de janeiro, o anúncio de uma “inconsistência” contábil de aproximadamente R$ 20 bilhões envolvendo operações de risco sacado nos balanços da Americanas (AMER3) desencadeou uma crise de grandes proporções na varejista, culminando em um processo de recuperação judicial e batalhas no campo jurídico com bancos credores. 

O podcast Stock Pickers recebeu Marcelo Urbano Dias, CIO da Augme Capital, e Alexandre Miguel, gestor e sócio da RPS Capital, para entender a fundo o caso e seus desdobramentos no mercado.

Em linhas gerais, o risco sacado é um processo de antecipação de recebíveis pela modalidade de cessão de crédito. Através de uma triangulação de operação, a varejista inclui um banco na operação, de modo que a instituição financeira antecipe esse pagamento ao fornecedor desta companhia com um deságio. É uma operação comum para o funcionamento do segmento varejista.

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Marcelo Urbano Dias destaca, sobre a operação: “As varejistas têm que carregar estoque no balanço. Nesse contexto, principalmente quando elas estão crescendo, é preciso de mais dinheiro do capital de giro para manter esse estoque”. 

Portanto, quando uma companhia tem uma demanda financeira, ou dívida a ser paga, pode realizar um acordo com o banco, obtendo assim o dinheiro para pagar seu fornecedor por meio da instituição financeira. A partir daí, a empresa precisa pagar posteriormente a quantia emprestada, com juros que variam conforme o prazo de término do investimento.

Se é uma prática comum, por que no caso das Americanas surgiu a inconsistência de R$ 20 bi?

As empresas contabilizam a dívida de maneiras diferentes. Algumas deixam contabilizam as operações conjuntamente em fornecedores, mas nas notas explicativas fazem a separação e mencionam o que é o risco sacado. Outras mudam de linha do balanço e há também aquelas que lançam como dívida bancária.

Para Alexandre Miguel, a questão da AMER3, que chegou a derrubar outras empresas do setor no início da crise, é que a dívida foi contabilizada de maneira diferente. “Da maneira com que era feito, tais deduções não passavam pelo resultado. Isso fez com que o tamanho da dívida fosse subestimado”, complementa. 

Por que as inconsistências não foram notadas antes?

Em um cenário mais recente, de juros mais baixos, foi possível ocultar tamanha defasagem, fazendo com que a diferença entre lucro e fluxo de caixa não fosse tão marcante. “No momento em que vimos um aumento significativo nas taxas de juros, somado a um período mais difícil para o setor, com desaceleração no e-commerce… [a inconsistência] pode ter começado a ficar mais evidente para quem tinha montantes mais diretos e quantias maiores, somado ainda à mudança de gestão”, explica Alexandre Miguel. 

Ou seja, uma conjunção de acontecimentos criou a conjuntura para que o rombo dos R$ 20 bilhões viesse à tona. 

“A gente não sabe quando isso começou, mas com juros a 2% o efeito era pequeno, de repente subiu a quase 14%. Então o ponto do juros é muito relevante”, completa Marcelo Urbano Dias.

Haverá um desfecho?

O CIO da Augme, que tinha exposição fazia quatro meses na empresa, não está muito otimista de recuperar os investimentos. “Com sorte, vou recuperar 10%” diz o gestor.  “Eu nunca vi um business de varejo grande sair de uma RJ [recuperação judicial]. O caso que me recordo é o da Casa & Vídeo, que teve uma RJ arrastada e foi comprada por uma asset a R$ 1,00. Portanto estou bem pessimista, mas pode ser que tenha alguma solução”, afirma. 

O executivo diz que, para ser solucionado, é preciso que a companhia passe por um grande aporte de capital, que na conta da casa está por volta dos R$ 18 bilhões. O tempo, afirma ainda, “vai tornando esses números ainda maiores”. 

De acordo com Alexandre Miguel, da RPS Capital, o momento agora é de operar no setor por meio de outros players, principalmente Mercado Livre (MELI34) e Magazine Luiza (MGLU3).

O gestor também reitera a dificuldade que vê no caso. Isso porque, mesmo se houver um entendimento mais rápido com credores e fornecedores, o cenário base ainda é de uma empresa muito menor: “já estamos vendo isso desde os resultados do terceiro trimestre de 2022”.

Rafaella Bertolini

Editora de redes sociais do Stock Pickers e Do Zero ao Topo. Escreve reportagens sobre empreendedorismo, gestão, inovação e mercados para o InfoMoney.