Em sabesp

Temos que nos adaptar à realidade de escassez de água, diz especialista

Para presidente do Instituto Internacional de Ecologia e Gerenciamento Ambiental, José Galizia Tundisi, crise de abastecimento será mais longa do que o esperado e vê uso da represa Billings como promissor

Sistema Cantareira
(Vagner Campos/ A2 FOTOGRAFIA)

SÃO PAULO - Apesar das chuvas em fevereiro estarem acima da média histórica e os reservatórios em lento processo de recuperação, a crise de abastecimento continua a preocupar milhões no Sudeste. Os meses secos ainda estão por vir e o racionamento ou um rodízio de água aparece como uma possibilidade inquietante. Diante desse quadro, o presidente do Instituto Internacional de Ecologia e Gerenciamento Ambiental, José Galizia Tundisi, disse que a crise pode se estender por muito mais tempo do que se está avaliando e que é preciso que governo e população se adaptem à escassez. 

Em entrevista para o podcast da Rio Bravo, ele afirma que deve-se educar as pessoas melhor contra o desperdício, melhorar a gestão dos recursos disponíveis e procurar água de outras bacias. Tundisi lembrou do exemplo de Barcelona, onde a falta d'água trouxe um prejuízo de 1% para o PIB (Produto Interno Bruto) da região e afirmou que se a as autoridades e a sociedade tiverem mais noção dos riscos econômicos de uma continuidade na crise atual, o debate poderá ser mais produtivo e mais soluções poderão ser encontradas.

Confira a íntegra da entrevista:

Nós temos ouvido falar bastante a respeito da crise hídrica em São Paulo, especificamente, pelo menos, desde os primeiros meses de 2014, quando os sistemas Cantareira e também do Tiete já acusavam a escassez de água. Naquele momento a impressão que se tinha era de que se tratava de um problema exclusivamente do estado de São Paulo. Quando é que o Sudeste, de um modo geral, passa a ser o alvo dessa crise?

Bem, as análises climatológicas já mostravam que haveria uma escassez hídrica na região metropolitana e de que o sudeste do Brasil seria afetado pela conjuntura de problemas climatológicos de circulação atmosférica. Naturalmente, o interesse maior nesse início de 2014 pela sua dimensão, importância e pela gravidade do problema, a região metropolitana concentrava todas as atenções. Mas é claro que já havia certas regiões do interior de São Paulo, por exemplo, com sinais de que a crise hídrica poderia se tornar mais aguda, com falta de água e escassez de água para abastecimento público.

Havia uma queda na precipitação em muitas regiões do estado e, portanto, começou-se a ter a noção de que realmente não só a região metropolitana poderia sofrer os impactos da escassez hídrica, mas uma boa parte do estado de São Paulo. A partir do momento em que, para repor recursos hídricos necessários à região metropolitana de São Paulo, começou-se a discutir a apropriação de água, por exemplo, do Paraíba do Sul, houve uma participação mais efetiva também do estado do Rio de Janeiro no processo, de modo que São Paulo, Rio de Janeiro e parte de Minas Gerais, hoje, estão nesta crise, incluindo uma população de cerca de 77 milhões de habitantes.

É uma população que se encontra na região economicamente mais ativa do País, mais populosa e com maior número de cidades e municípios. Consequentemente, os efeitos podem ser ainda maiores.

Por que nós não percebemos que a crise afetaria não só o estado de São Paulo, mas que poderia afetar toda a região Sudeste? 

É porque as previsões não têm capacidade de estimar um prazo muito longo. Elas são previsões que envolvem no máximo trinta dias. Portanto, não havia uma clara definição do que poderia ocorrer nesses períodos a partir do início da crise, que foi mais ou menos na metade de 2013, onde havia já os sinais de que ela caminharia para 2014. As causas da crise ainda são complexas, não se sabe exatamente quais são todos os componentes dela.

Os climatólogos falam em mudanças climáticas e alterações na circulação atmosférica, mas outros especialistas também concordam que é possível que o desmatamento da Amazônia tenha interferido nessa crise. Outros climatólogos consideram que as mudanças climáticas podem não ter um efeito decisivo nessa crise, mas ela é resultado de alterações da atmosfera devido às causas naturais, e não simplesmente mudanças desencadeadas pela ação antrópica. Ainda há divergência entre os cientistas sobre os vários fatores que atuaram para desencadear a crise. 

E quanto ao peso desses fatores? Existe algum consenso em torno disso?

Também não, ainda está um pouco difuso esse processo. Mas o que é certo é que a ação antrópica nas bacias hidrográficas tem contribuído para ele, porque o desmatamento, a demanda de água excessiva, a falta de reuso e a falta de tratamento de esgoto, que são ações antrópicas contribuíram para exacerbar a crise. Por exemplo, se nós tratássemos todo o esgoto do Sudeste, poderíamos lançar mão do reuso como uma alternativa importante, mas como nós tratamos só 30%, no máximo 40%, não temos condição de usar o reuso.

A médio e longo prazo, o que essa ameaça à segurança hídrica no Sudeste representa?

Se essa crise continuar, e parece que ela não será uma crise de um período único e poderá se estender por mais tempo do que se está avaliando, haverá impactos muito severos, pois o país e a região não estão preparados para uma escassez hídrica desse porte. Os sistemas de produção não estão preparados, os sistemas de abastecimento não estão preparados, a produção de alimentos... Todo um conjunto de processos que dependem da água será afetado.

Então, tem duas coisas que precisam ser feitas rapidamente. A primeira é: você tem que ser adaptar a uma nova realidade. Nós estamos vivendo hoje em uma nova realidade, que não é de abundância, mas de escassez. Tem que aprender a conviver com isso. E não é só o público, são as indústrias, a agricultura, a navegação, a energia. Há que haver um consenso de que é preciso mudar a gestão das águas no sentido de que essa fase de adaptação seja o mais rápido possível e possa, a partir daí, conviver com a realidade da crise hídrica.

A segunda coisa, naturalmente, são medidas estruturais. Nós temos que trazer mais água para região metropolitana. Disso não se escapa. E para isso, temos que buscar possibilidades de trazer água de outras bacias para São Paulo. Isso está sendo feito na China, por exemplo, e em outros países também de uma forma muito intensa, porque, em épocas de escassez lá, resolve-se o problema dessa forma. Você tem que trazer água para a região metropolitana com 20 milhões.

As medidas estruturais são trazer água de todas as fontes disponíveis para a região metropolitana de São Paulo, reduzir drasticamente a demanda, não só nas residências, mas nas indústrias e na agricultura, para o caso do estado de São Paulo, e, por outro lado, iniciar o processo de educação da população e de adaptação à nova realidade, que é a estiagem e seca prolongadas. Além disso, é preciso uma nova governança de água. Você não pode mais ter uma governança de água com abundância. A governança de água tem que mudar com o período de escassez.

Quais seriam essas mudanças e alterações a serem feitas na governança?

Em primeiro lugar, a questão da governança por bacias é fundamental. Isso já existe no estado de São Paulo, mas muitas bacias não funcionam direito. Não tem agência de bacia, que precisaria ser implantada... E a participação mais efetiva da comunidade no processo de alocação de recursos hídricos dos usuários.

Na Espanha, eles resolveram o problema com compartilhamento. Você chama todos os usuários e diz: " Está bom, vocês querem irrigar?" Isso foi feito no Aragão, que eu conheço bem, por que eu trabalhei na Espanha. Chame os usuários, chame os fazendeiros que fazem irrigação, sente-os em uma mesa e discuta como se fará para alocar a água, para que finalidade, como e com que mecanismos de gestão. Eu acho que essa participação efetiva da comunidade no processo de gestão deve ser ampliada e consolidada para que a comunidade possa, também, contribuir com a sua parte do processo.

Como a poluição tem comprometido o uso dos múltiplos recursos hídricos?

Bastante porque, se você pensar bem, a disponibilidade de recursos hídricos depende de dois fatores. O primeiro é você ter água, ter uma disponibilidade que provem da chuva. Mas a segunda parte da disponibilidade provem da possibilidade de você ter uma água que possa fornecer qualidade para população e para as diferentes atividades industriais e etc. Isso não tem acontecido, porque como a contaminação prejudica a qualidade, você não pode usar essa água. Às vezes, você pode até usar, mas o custo do tratamento é extremamente elevado. Então, o excesso de contaminação também interfere na disponibilidade por essa razão.

A disponibilidade de água não depende só da quantidade de água, depende da qualidade, e se a qualidade estiver muito deteriorada o tratamento dessa água é muito caro e inviabiliza esse uso. A indisponibilidade de água também provem da contaminação.

Na Carta de São Paulo, é mencionada a mudança no modelo produtivo. Como é que isso poderia ser operado em relação a indústria e agricultura, por exemplo?

Bom, a agricultura usa 70% da água disponível no Brasil, no estado de São Paulo e em qualquer lugar no Brasil. Só você olhar os dados, você tem 70% agricultura, 10% indústria, depois 10%,12% uso urbano e aí outros usos.

Primeiro, [é preciso] reduzir drasticamente a quantidade de água utilizada na agricultura, por exemplo, utilizando técnicas mais efetivas de irrigação. Isso é a primeira coisa que deve ser feita. Também a indústria, poderia muito bem tratar a água de seus efluentes, reciclar e reutilizar essa água.

A produção vai ter que se adaptar a isso. Os custos de tratamento de água e a sua reutilização terão que ser incorporados à produção. Não há dúvida nenhuma sobre isso.

E a gente está falando de uma economia de quanto?

Alguns bilhões, eu não poderia precisar. 

O que a experiência internacional diz a respeito de momentos de crise como esse? Como outras cidades e outros países lidaram com esse tipo de problema?

O caso de Barcelona é um caso, por exemplo, muito próximo de São Paulo. A crise foi em 2007/2008. Foram dois anos, muito severa, também. Barcelona precisou trazer quatro navios de água de França por dia, como 250 mil metros cúbicos cada navio para poder fornecer água à população. [A cidade] Iniciou imediatamente a implantação de uma planta de dessalinização e reduziu drasticamente a demanda e, inclusive, não só a demanda doméstica, mas a demanda industrial.

Por exemplo, [Barcelona] proibiu qualquer uso de água em chafariz. Houve uma drástica redução no consumo de água para poder compatibilizar a demanda com os recursos hídricos disponíveis. E a população foi compelida a usar menos quantidade de água possível. Aproximadamente 100 litros por dia por família.

Professor, em termos de números, quanto custou a crise hídrica em Barcelona?

Essa crise teve deu um prejuízo de um bilhão de euros para a economia catalã. Isso representa 0,87% do PIB da Catalunha em dois anos. O que é algo extremamente sério.

Portanto, nós temos que avaliar aqui em São Paulo essa crise. O que aconteceu em termos de economia? Vou te dar alguns exemplos. A hidrovia do Tietê fechou por seis meses e isso representou a perda de cinco mil empregos diretos que trabalhavam na hidrovia, outros indiretos e mobilização de 10 mil caminhões para transportar o que a hidrovia transportava.

Então veja o efeito cascata desse conjunto todo. Isso fora problemas na produção de alimentos, na distribuição, na indústria, na redução no comércio, em alguns serviços... Tudo isso é afetado pela crise. Isso é tão grave que há bancos que estão começando a reformular sua carteira de investimentos em função disso.

Falando de curto prazo, professor, quais seriam medidas emergenciais que poderiam ser adotadas para promover essa redução na demanda de água para que o problema da escassez não se tornasse ainda mais grave do que já é?

Eu acho que não há dúvida nenhuma que a informação à população sobre a gravidade da situação. A educação seria um primeiro passo importante. A mobilização da população para compreender que a crise não é passageira, ela pode durar alguns anos e é preciso que a população mude seus hábitos com relação aos usos da água.

Segunda coisa, não há outra alternativa para redução da demanda a não ser colocar taxas cada vez mais elevadas para reduzir a capacidade da população de usar muita água e, em casos extremos, o racionamento de água e até o rodízio, dependendo da região e da situação das diferentes regiões de São Paulo. Não vejo como. Não há outras alternativas.

É claro que o governo tem que trabalhar também com a possibilidade de trazer mais água, e nós já temos trabalhado muito a questão de represa Billings, que é um outra alternativa importante. Usar a represa Billings como se fosse uma manancial que possa oferecer água de boa qualidade à população de São Paulo é uma tendência que está cada vez mais concreta.

Eu estudei muito a represa Billings, conheço o sistema e posso assegurar que em alguns braços da represa Billings, com tratamento inicial e após a transferência para outros represamentos e com tratamento de água adequado, que existe, essa água pode ser fornecida à população. Essa é uma outra alternativa emergencial muito promissora.

E a questão do desperdício de um modo geral? Existe algum refreio que possa ser feito em torno disso?

Aí não vejo outra maneira, porque você não pode fiscalizar 20 milhões de pessoas e uma região metropolitana que tem o tamanho da Holanda. São 10 mil quilômetros quadrados. Não é possível. Então, para você fazer isso, você tem que aumentar a comunicação com a população. É apostar na educação da população, na comunicação em massa da população para que ela possa compreender cada vez com mais agudeza a criticidade do problema e contribua com a sua participação.

Agora, precisa arrumar mecanismos de comunicação de massa. O Rio de Janeiro, por exemplo, pegou um ator famoso para ir à televisão e ele faz chamadas de 30 segundos sobre água. Eu acho que é uma maneira de você procurar sensibilizar a população.

Acho que mais organizações poderiam olhar de forma bem mais aguda e com maior profundidade a questão econômica da crise hídrica e, se puder colaborar, estou à disposição. É um estudo que precisa ser feito para que ele possa chamar a atenção das autoridades e ao mesmo tempo envolver a participação do público, porque na medida em que você demonstra que o efeito da crise hídrica teve um impacto grande na economia, isso pode realmente mudar a concepção das pessoas com relação ao desperdício da água e aos usos da água.

 

Contato