Em raiadrogasil

Após compra estratégica e bom resultado, o que falta para a RD voltar a ser a "queridinha" dos analistas?

Com aquisição da Onofre, empresa amplia seu foco em e-commerce e ainda tira uma concorrente do disputado mercado brasileiro, enquanto balanço teve pontos positivos - mas analistas seguem cautelosos com o papel

Drogasil 04 - Dentro da loja
(Divulgação Drogasil)

SÃO PAULO - Há meses apática na Bolsa depois de quatro anos de forte alta de suas ações, a RD (RADL3), ex-Raia Drogasil, fechou a sessão da última terça-feira (27) como uma das maiores altas do Ibovespa, no dia da divulgação do balanço do quarto trimestre de 2018. 

Isso apesar das expectativas do mercado de um resultado ainda longe dos tempos áureos da líder farmacêutica no Brasil, uma vez que ela enfrenta forte competição, tanto das grandes redes quanto das menores, que têm se organizado melhor para enfrentar as gigantes do setor. 

Contudo, após o fechamento do mercado, a RD proporcionou duas surpresas positivas para os investidores. Em meio a essas notícias, nesta quarta-feira (27), os papéis chegaram a subir 11,86%, amenizando os ganhos na reta final do pregão, mas fechando com forte alta de 7,47%. 

A primeira delas foi o anúncio da compra da Onofre, marca que estava nas mãos da gigante americana CVS Health desde 2013. 

Com 50 unidades, sendo 47 em São Paulo, a rede Onofre faturou R$ 479 milhões no ano passado, mas dava prejuízo e era pouco significativa para a CVS, que faturou em 2018 cerca de US$ 200 bilhões. Desta forma, a americana começou a oferecer o ativo para potenciais interessados, incluindo rivais e fundos de investimento. 

Líder no varejo farmacêutico no Brasil, com 1.849 unidades em 22 Estados, a Raia Drogasil viu oportunidades na Onofre. Segundo Marcílio Pousada, presidente da companhia, destacou ao jornal O Estado de S. Paulo, o canal de e-commerce da rede é um dos mais competitivos do setor, com preços mais agressivos do que os da concorrência, o que motivou a aquisição. 

O e-commerce, aliás, foi um dos pontos mais ressaltado pelos analistas ao comentar a aquisição. "Dado o tamanho da Onofre, a aquisição não terá tanta mudança para os resultados da RD, pelo menos no curto prazo. Dito isto, porém, vale ressaltar que é um movimento interessante, potencialmente proporcionando à empresa uma avenida para expandir sua já plataforma digital de sucesso", avalia o Itaú BBA.

Vale destacar que a empresa informou que não espera, com bases nas suas estimativas, realizar qualquer desembolso financeiro aos atuais quotistas da Onofre por conta da aquisição. Ainda não se sabe se a RD assumiu eventuais dívidas como parte do acordo.

Assim, a compra reforça a avaliação de que a RD agora está focada na diferenciação, não apenas via escala e preço, mas também focando de forma assertiva nas plataformas multicanal e no consumidor, o que inclui um e-commerce mais forte, reforça a equipe de análise do Brasil Plural. 

Além disso, de acordo com o Morgan Stanley, a aquisição da Onofre é um bom lembrete de como o Brasil pode ser um mercado difícil para as farmacêuticas. Neste sentido, um gestor ouvido pelo InfoMoney apontou que a saída da CVS é uma "ótima notícia" para a RD uma vez que tira um concorrente com potencial em um mercado cada vez mais disputado. Além disso, "blinda" ainda mais a líder na sua maior praça, São Paulo, dado que a Onofre tinha bons pontos em algumas regiões da cidade. 

O resultado do quarto trimestre, divulgado cerca de uma hora depois do anúncio da compra da Onofre, foi ao encontro da expectativa do mercado. A RD registrou um lucro líquido de R$ 509,3 milhões, 0,6% menor frente 2017, enquanto a receita subiu R$ 15 bilhões, alta de 12%, na comparação anual. No quarto trimestre de 2018, o grupo reportou lucro líquido de R$ 121,5 milhões, recuo de 9,4% em relação aos R$ 134,2 milhões apurados no mesmo período de 2017. Já em termos ajustados, o lucro subiu 7% na comparação anual, para R$ 548,6 milhões.

Alguns pontos foram considerados positivos pelos analistas, como os ganhos de participação de mercado em relação ao trimestre anterior e ao ano anterior em todas as regiões. Além disso, o MSSS (vendas nas mesmas lojas que já estão maduras) retornou ao território positivo pela primeira vez em 2018, com alta de 0,6%.

Porém, 2018 terminou como um ano complicado, conforme ressaltou a própria companhia em seu release de resultado. "O ano de 2018 foi desafiador para a RD, com uma menor taxa de crescimento em função de um ambiente mais competitivo pressionando as margens", apontou.

Mas destacou a expansão recorde de 240 lojas, com elevados retornos marginais, a entrada em dois novos estados, o aumento do diferencial de escala, a a estratégia mais agressiva em preços e, como apontado acima, também o início de uma ambiciosa transformação digital. "Ao fortalecer nossa posição competitiva e execução em um setor que está passando por fortes pressões financeiras, acreditamos que nunca estivemos melhor posicionados no nosso setor do que estamos agora", reforçou a RD na mensagem aos acionistas. 

Mesmo com essas iniciativas de transformação digital e uma experiência diferenciada para o consumidor e pontos positivos no balanço do quarto trimestre, os analistas seguem cautelosos com a RD. 

"Ainda acreditamos que a empresa continuará enfrentando um cenário muito difícil para 2019, com as vendas nas mesmas lojas voltando em um ritmo mais lento que o esperado e a ainda forte expansão em toda a região Norte e Nordeste pressionando suas margens", aponta o time de análise do Brasil Plural. 

A RD publicou suas expectativas para 2019, mostrando um lento ritmo SSS convergindo em algum ponto perto da inflação até o final do ano. Isso, avaliam os analistas, combinado com sua estratégia assertiva de preços e o amadurecimento de suas iniciativas digitais deve gerar espaço suficiente para a empresa voltar ao ritmo de expansão de margens, mas isso ainda pode demorar um pouco, com a recuperação ganhando força no início de 2020.

Neste cenário, os analistas do banco seguem com recomendação equalweight (exposição em linha com a média do mercado) para os papéis RADL3. "Recomendamos que os investidores fiquem de olho na empresa, já que qualquer evolução mais pronunciada nas vendas nas mesmas lojas ou um amadurecimento mais rápido de suas iniciativas digitais podem gerar margem positiva e valorização dos ativos", afirmam.

O Morgan Stanley e o Credit Suisse também mostram maior cautela com relação às perspectivas de impulso para as ações da companhia. "A RD é uma empresa de alta qualidade, tem um histórico de consolidação atrativo, mas já está precificada na Bolsa", avalia o Morgan, ressaltando que os papéis estão caros, ainda mais levando em conta o ambiente de menor crescimento das margens e maior pressão sobre o capital de giro. 

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Oportunidade

Em teleconferência com investidores, o diretor de RI da RD, Eugenio de Zagottis, afirmou que a compra da Onofre "complementa a nossa proposta de valor”, apontando que houve rapidez para concluir a aquisição e que um maior  planejamento ainda vai ocorrer.

O executivo também foi otimista com a recuperação do ritmo de crescimento de vendas em 2019 depois da desaceleração em 2018. Por outro lado, espera que a rentabilidade deve se recuperar em um ritmo mais devagar.

“As lojas maduras devem fechar o ano crescendo acima da inflação, mas, na média do ano, deve ficar abaixo, e com esse efeito pode haver perda de margem. Mas acreditamos numa expansão disso após 2020”, disse ele, corroborando a tese do mercado sobre o ritmo de retomada da companhia. 

Afinal, sem dúvidas, o mercado viu com bons olhos para a RD a aquisição da Onofre e algumas indicações do resultado do quarto trimestre. Porém, ainda precisam de mais evidências para voltarem a ver a ação da companhia com os mesmos olhos que viam anos atrás. 

 

 

 

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