Eleições

Uma ameaça pode fazer com que Aécio leve a pior nestas eleições, diz Financial Times

O PSDB pode perder o apoio no maior colégio eleitoral do Brasil em meio a ameaças de seca e, consequentemente, racionamento, levando com que mais eleitores apoiem o PT, diz publicação britânica

SÃO PAULO – Os candidatos à presidência da República Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) travam as eleições presidenciais mais disputadas desde 1989. De acordo com as últimas pesquisas Ibope e Datafolha, o tucano está com uma vantagem numérica com 51% dos votos, ante 49% da petista: mas algo pode ameaçar Aécio Neves na reta final da campanha. 

E, de acordo com o Financial Times em matéria do último final de semana, trata-se de algo que está perto de nós e que nem Dilma e nem Aécio podem controlar. Trata-se da seca no estado de São Paulo, que pode ser associada pela população ao governo do PSDB e, assim, afetar a disputa eleitoral neste ano. A pior seca em 80 anos está afetando 13 milhões de pessoas no estado mais populoso do Brasil, e Dilma aproveita para culpar a falta de investimentos do partido dos tucanos, que estão há 20 anos no poder. 

Dentre as consequências, algumas escolas e centros de saúde foram obrigados a fechar mais cedo, enquanto os bares e restaurantes em áreas turísticas vêm pedindo a seus clientes não utilizarem os banheiros. 

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Em entrevista ao jornal britânico, o professor e cientista político da FGV, Marco Antônio Teixeira, destacou que esta questão chega cada vez mais ao debate à medida que mais serviços públicos sejam paralisados e, com isso, o clima fique mais instável. 

O PSDB, que governo o estado de São Paulo, recusou-se a introduzir o racionamento de água quando a crise se tornou aparente. “Afinal, o início da estação chuvosa do Brasil no início deste mês foi feito para trazer alívio na hora certa”, afirma o jornal. 

No entanto, as fortes chuvas não vieram e, com a seca se agravando, deixando o principal reservatório da Cantareira, em São Paulo, apenas a 4% de sua capacidade esta semana, as autoridades foram obrigadas a realizar o que muitos suspeitam ser cortes furtivos de água.

O FT destaca estimativas de que cerca de 70 cidades do estado de São Paulo sofrem com a escassez de água, muitas das quais ocorrem em períodos regulares. A Sabesp culpa a “reduzida pressão da água” para todos os problemas, acrescentando que só áreas de alta altitude foram afetadas, mas a realidade que se desenha não é bem assim. “Esta é uma estratégia que já começou a sair pela culatra e ameaça minar Aécio e afetar o sentimento de que seu partido tem uma governança eficiente”, afirmou o jornal.

E a presidente Dilma Rousseff (PT) usou esta questão contra o candidato do PSDB durante um debate televisionado na noite de quinta, alegando que a falta de planejamento e investimento havia condenado São Paulo para uma “terrível escassez de água”. 

José Carlos Mierzwa, professor da USP, concorda que os investimentos inadequados em tratamento de esgoto e mau planejamento urbano certamente agravaram os efeitos das condições meteorológicas malucas deste ano. “No entanto, a responsabilidade encontra-se também em outros níveis de governo e, portanto, também é responsabilidade do partido governista PT”.

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Mesmo não sendo responsabilidade só do governo estadual, este debate ainda é particularmente perigoso para Aécio. “São Paulo não é só o coração econômico do Brasil, mas o estado também é responsável por quase um quarto de todos os eleitores brasileiros. O PSDB ganhou as eleições em São Paulo no primeiro turno, mas a escassez de água atinge os moradores mais pobres do estado – exatamente a fatia da população que tem mais probabilidade de mudar o seu apoio para o PT”. 

Assim, o FT conclui: “enquanto a periferia da cidade – tanto geograficamente quanto socialmente – começa a armazenar água em qualquer recipiente que encontra, muitos brasileiros ricos que vivem em blocos de apartamentos em núcleo de arranha-céus de São Paulo estão alheios ao problema porque os seus edifícios têm suas próprias caixas d’água”. E isso pode se reverter contra o PSDB.