Ceticismo

Traders de bonds perdem a confiança no Brasil ao ver Dilma sitiada

Solvência percebida do Brasil foi a que mais se desgastou entre os maiores mercados emergentes do mundo desde junho

(SÃO PAULO) – Os traders de bonds estão ficando mais céticos de que o Brasil vá sair mais forte da crise econômica e política, com legisladores minando o governo da presidente Dilma Rousseff e os rumores de impeachment conquistando adeptos.

A solvência percebida do Brasil foi a que mais se desgastou entre os maiores mercados emergentes do mundo desde junho, quando o índice de aprovação de Dilma atingiu um mínimo recorde e os legisladores começaram a se rebelar contra o programa de austeridade proposto por ela. Uma nova fase da crise política começou na quinta-feira, quando promotores anunciaram uma investigação de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente anterior e mentor de Dilma.

Traders e investidores estão preocupados com que a crise política, junto com a retração econômica, inverta os efeitos da contenção de despesas feita por Dilma e coloque em risco o grau de investimento do Brasil. As ações despencaram e os swaps de crédito dispararam nesta semana quando uma visita de representantes do Moody’s Investors Service ao Brasil levantou o espectro de um rebaixamento dos títulos soberanos.

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“O mercado tem certo medo dos políticos hoje”, disse Paulo Petrassi, gestor de recursos da Leme Investimentos, em Florianópolis, Santa Catarina. “Uma posição que antes era muito otimista está se desmantelando”.

Após o custo de compra de proteção contra o calote no Brasil ter caído desde o fim de março até maio devido aos sinais de que Dilma conseguiria aprovação para o grosso de suas medidas de austeridade, ele começou a subir novamente depois de uma série de derrotas do governo no Congresso.

‘Decisões polêmicas’

Alentados pela notícia de que a taxa de aprovação deste governo tinha caído para o menor patamar desde 1989, os legisladores se opuseram a Dilma em junho e aprovaram medidas para aumentar o salário dos trabalhadores do judiciário em um total de R$ 26 bilhões (US$ 8,2 bilhões) e de incrementar os gastos federais em benefícios por aposentadoria.

Isso ajudou a elevar os swaps em 27 pontos-base, ou 0,27 ponto porcentual, desde o fim de maio para 263 pontos-base na quinta-feira. O real inverteu os ganhos iniciais na quinta-feira depois da notícia de que Lula está sendo investigado por tráfico de influência e fechou com um recuo de 0,5 por cento, a 3,1565 por dólar americano.

“A crise política contribuiu para decisões polêmicas no Congresso que se tornaram um peso para o orçamento federal”, disse Marco Aurélio de Sá, diretor de trading de renda fixa da unidade de corretagem do Crédit Agricole SA em Miami, em uma mensagem enviada por e-mail.

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Derrotas de Dilma

As derrotas de Dilma podem ser percebidas também em outros mercados de dívida. A brecha do yield entre os bonds vinculados à inflação com vencimento em 2045 e 2016 aumentou um terço no mês passado, pois o preço da dívida de maior prazo despencou.

A deterioração dos bonds com vencimento em 2045 reflete as apostas em que a inflação vai desacelerar à medida que a economia enfraquece e que a nota de crédito do Brasil poderia cair para junk, de acordo com Sá. Esse movimento também mostra que os investidores estão menos otimistas em relação ao ambiente político do Brasil, disse Petrassi, da Leme.

Reportagem de David Biller