De olho na denúncia

Segunda denúncia contra Michel Temer já cobra um alto preço para o presidente

 Maia, PSD e ajuste: Temer tem três fontes de turbulência na 2ª denúncia - contudo, também tem um motivo para comemorar

SÃO PAULO – Com a proximidade da votação da segunda denúncia contra Michel Temer – que deve ser votada dia 23 ou 24, de acordo com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) – o assunto volta a ganhar os holofotes em Brasília – e as articulações se intensificam. 

Na tarde da última quarta-feira, o advogado de Michel Temer, Eduardo Carnelós, entregou à CCJ da Câmara a defesa da segunda denúncia contra o presidente. Já nos bastidores, Rodrigo Maia tem comentado sobre a atuação do governo: em jantar ontem com deputados e senadores da oposição e da situação, o primeiro nome na linha da sucessória da presidência afirmou que Temer deverá enfrentar “dificuldades” para barrar a denúncia que será analisada pela Câmara nas próximas semanas.

De acordo com a Folha de S. Paulo, Maia disse acreditar que Temer terá votos suficientes para derrubar a acusação formal da PGR (Procuradoria-Geral da República), mas apontou que o governo cometeu erros no relacionamento com seus aliados e, portanto, encontrará no plenário um ambiente menos favorável do que na primeira denúncia apresentada contra ele. Ao G1, a senadora Katia Abreu (PMDB-TO), afirmou: “ele [Maia] avaliou que o governo está errando demais, nós avaliamos isso também . O governo está derretendo os seus votos. Não tem crédito para pedir apoio”. 

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O encontro foi organizado pela senadora, que recebeu para um jantar em sua casa colegas de oposição ao governo, como Renan Calheiros (PMDB-AL), Jorge Viana (PT-AC) e Vanessa Grazziotin (PC do B-AM), além de deputados da base aliada de Temer que são próximos de Maia. 

Além das críticas de Maia, Temer tem que lidar também com a insatisfação do PSD, que compõem a base aliada do governo. Segundo o Estadão, o presidente agiu pessoalmente na quarta-feira para evitar que insatisfações na bancada do partido afetem a votação da segunda denúncia. Temer foi informado da crise na bancada do PSD pelo ministro Gilberto Kassab (Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações), que comanda a legenda. Kassab esteve com o presidente no início da tarde de quarta-feira, após participar de café da manhã com deputados da legenda. No encontro com o ministro, parlamentares relataram que estão “muito insatisfeitos” com o governo. O principal motivo seriam promessas não cumpridas relacionadas à liberação de cargos e emendas. Se as insatisfações não forem resolvidas, o líder do PSD calcula que a bancada poderá dar até 22 votos pela aceitação da segunda denúncia contra Temer: na  primeira denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), por corrupção passiva, a bancada do partido deu 14 votos contra Temer e 22 a favor. Outros dois deputados da sigla se ausentaram.

o Valor Econômico informa que a denúncia contra Temer está adiando o ajuste fiscal e colocando as contas em risco. Ele só deve assinar o pacote de medidas anunciado há quase dois meses para cumprir a meta fiscal de déficit de R$ 159 bilhões em 2018 após a votação da segunda denúncia no plenário da Câmara. O atraso na assinatura visa evitar aumento da pressão sobre deputados da base aliada até a votação de 2ª denúncia.

Das 4 medidas de aumento de receita e cinco de redução de despesas, apenas uma não precisa do Congresso, a do Reintegra. Neste caso, só falta a assinatura de Temer ao pacote, que já está pronto, e que inclui medidas como as já anunciadas reoneração da folha de pagamento, aumento da contribuição previdenciária de servidores públicos de 11% para 14%, tributação de fundos, ações para reduzir gastos com auxílio-moradia e adiamento do reajuste de servidores para 2019. A assessoria do ministro Eliseu Padilha disse que propostas ainda estão sendo analisadas na área jurídica.

Mesmo em meio a essas fontes de pressão, Temer tem um motivo para comemorar. Mesmo diante das especulações sobre a permanência ou não do deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) como relator da denúncia, o tucano (que votou a favor de Temer na primeira denúncia) disse que continua no cargo. A polêmica em torno da relatoria teve início quando o líder do PSDB na Câmara, deputado Ricardo Trípoli (SP), informou que havia pedido ao presidente da CCJ que não indicasse para a relatoria um membro da sigla. Entretanto, o convite à Andrada já havia sido feito antes da solicitação do líder tucano. Na tarde de hoje, Pacheco voltou a afirmar que manteria Bonifácio Andrada no cargo.