Questão do placar

Se é certo que Temer sobreviverá, por que o mercado está tão atento à 2ª denúncia?

O placar de votos contra o presidente na segunda denúncia vai ser crucial para definir as chances da reforma da Previdência, apontam consultores da Eurasia

SÃO PAULO – Se é praticamente certo que Michel Temer sobreviverá à segunda denúncia contra ele na Câmara dos Deputados, por que a votação de quarta-feira na Casa será tão importante? A consultoria Eurasia Group destaca um grande motivo: a reforma da Previdência.

Isso porque o número de parlamentares que votarem a favor de Temer deve servir como um bom termômetro para a viabilidade da reforma, apesar das últimas sinalizações da base de que ela ainda resiste a essas mudanças estruturais. 

De acordo com a consultoria, o presidente Michel Temer deve perder o suporte de apenas alguns deputados na votação da segunda denúncia em relação ao número de apoio na primeira votação em agosto, quando 263 deputados votaram a favor dele (227 votaram contra em agosto, sendo necessários 342 votos contra Temer para a denúncia passar). Contudo, se trinta ou mais parlamentares desertarem, a probabilidade para a reforma da Previdência deve diminuir, diz a Eurasia, em relatório. 

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Se o número de deputados federais que votarem contra Temer for muito superior a 227, chegando a um número entre 257 e 280, este seria um sinal preocupante para o presidente, uma vez que sugere que o número de parlamentares de centro dispostos a negociar está caindo significativamente. Isso é um sinal de que o desgaste na base de Temer está se acumulando em uma taxa maior do que a Eurasia acredita no momento – o que impacta e muito na previdência. 

Reforma difícil

Atualmente, a consultoria vê uma chance de 55% de aprovação de uma reforma da Previdência diluída, que inclua idade mínima e regra de transição. Porém, faz um alerta: a janela para reforma está se fechando rapidamente e há sinais crescentes de descontentamento dentro do grupo de apoio do governo.

Em meio a esse cenário, os consultores políticos avaliam: “mesmo a versão reduzida da reforma da Previdência terá dificuldade de passar e, por essa razão, não temos a convicção de que pode ser feito. Os deputados estão reticentes uma vez que, quanto mais se aproximam as eleições de 2018, maior será o custo político de aprovar uma reforma impopular. O custo político de permanecer com Temer em meio a uma onda de denúncias de corrupção também tem seu preço”.

Contudo, há duas razões para a Eurasia ver com maior probabilidade a aprovação de uma reforma enxuta. Em primeiro lugar, os parlamentares de centro ainda estão ‘desesperados’ por recursos, tendo em vista as severas restrições ao financiamento de campanhas para as eleições do próximo ano. Como resultado, é importante manter a parceria com o Executivo, uma vez que conseguirão mais cargos e terão maior visibilidade. 

“Não é por nenhuma outra razão que os parlamentares que votaram em Temer na primeira denúncia estão ameaçando abandoná-lo: querem maximizar os benefícios para sua lealdade. Muitos que votaram a favor de Temer pela primeira vez queixam-se de que os que votaram contra ele não foram suficientemente punidos e os que votaram a favor não foram suficientemente recompensados. Mas o fato é que o governo ainda tem algumas cartas para jogar”, avaliam. 

Além disso, o segundo ponto é que partidos como o PSDB e Democratas (DEM), que têm ambições presidenciais, veem benefícios em fazer parte do ajuste fiscal antes das eleições do próximo ano. Isso porque não somente ajudará a melhorar o sentimento do mercado e o crescimento econômico como também aliviará o peso político para quem assumir a presidência. A visão é de que 80% dos deputados tucanos votariam a favor de uma versão reduzida da reforma – incluindo os que votaram contra Temer na primeira denúncia. 

De qualquer forma, Temer corre contra o tempo, avalia a consultoria: o governo sabe que janela para fazer qualquer coisa com reforma da Previdência é novembro ou primeira quinzena de dezembro.