Análise

Reedição de 2013 ou comoção pontual: quais são os impactos políticos do assassinato de Marielle Franco?

Manifestações em capitais importantes do país e nas redes sociais revelam, além de um sentimento de empatia, potenciais desdobramentos políticos e sociais do trágico episódio

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SÃO PAULO – Os assassinatos da vereadora fluminense Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes repercutiram na imprensa mundial e provocaram comoção na sociedade brasileira. Mulher negra, nascida em uma comunidade do Complexo da Maré e ativista dos Direitos Humanos, a parlamentar vinha denunciando abusos cometidos por policiais do 41º BPM (Batalhão da Polícia Militar) de Acari. Há duas semanas, ela havia assumido a relatoria de Comissão da Câmara de Vereadores do Rio criada para acompanhar a situação da inédita intervenção federal na segurança pública, iniciada há um mês no estado carioca.

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As manifestações em capitais importantes do país e nas redes sociais revelam, além de um sentimento de empatia, potenciais desdobramentos políticos e sociais do trágico episódio, que tentem a influenciar a nova agenda do governo, pautada na segurança pública, além do próprio panorama eleitoral. As consequências ainda são imprevisíveis, mas muitos analistas já começam a avaliar os possíveis cenários que se impõem no horizonte brasileiro. Para muitos, o “golpe de mestre” do presidente Michel Temer sofre seu primeiro grande revés desde que o general do Exército Walter Souza Braga Netto assumiu a posição de interventor na segurança pública do estado do Rio de Janeiro após decisão do emedebista. O impacto disso dependerá, dentre muitas variáveis do tempo que a investigação levar para apresentar resultados.

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“O risco político assumido por Temer ao fazer a intervenção era justamente que um evento dramático absorvesse o efeito positivo da operação. O governo sequer havia começado a colher os frutos da alta aprovação à medida e agora pode haver uma importante mudança do humor da população. Que o crime tenha resposta rápida será fundamental para que a respeitabilidade da operação não caia por terra”, observou a equipe de análise política da XP Investimentos. A grande repercussão que o casso ganhou torna a situação do governo ainda mais delicada.

No campo das narrativas, há estreito espaço para o governo trabalhar com o discurso de que o assassinato reforça o estado preocupante da violência no estado do Rio de Janeiro e que seria necessário apoiar a intervenção como forma a atacar o problema. Embora as primeiras pesquisas de opinião tenham mostrado que a medida era bem vista pela maioria da população brasileira, o improviso que marcou as movimentações pode ajudar a prejudicar a imagem da operação rapidamente. O discurso vencedor nos próximos dias será decisivo para o futuro da operação e seu resultado político, o que também dependerá de quem assumirá o protagonismo das investigações e se elas serão exitosas.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Rio de Janeiro (OAB-RJ), Felipe Santa Cruz, afirmou: “Todo assassinato é grave, mas, quando matam uma ativista do tamanho da Marielle, só há dois caminhos: ou reafirmamos que vivemos numa democracia plena, em que as instituições funcionam, ou vamos seguir o caminho de tantos outros países do continente, com instituições fragilizadas, e onde militantes são executados no meio da rua impunemente”.

É provável que a morte de Marielle, no momento tratada como execução devido às características do crime, seja associada a alguma ineficiência na intervenção federal em curso, o que já acontece na disputa de discursos. O próprio presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), pré-candidato à presidência da República, conforme noticiou a coluna Painel, do jornal Folha de S.Paulo, teria dito a aliados que o crime foi resultado da falta de planejamento da operação.

À medida que inexiste sensação de maior segurança com a operação, sobretudo após episódios simbólicos como o da vereadora, e parcela da população passa a reclamar até mais da violência policial, os questionamentos à intervenção tendem a crescer, assim como a pressão sobre o governo Michel Temer, que sonhava colher dividendos políticos da iniciativa.

“A intervenção, mesmo se exitosa, dificilmente serviria para alavancar índices de Temer. Agora, se torna uma força no sentido contrário”, analisou a equipe da XP Investimentos. “O que ainda precisa ser observado é se as manifestações de ontem crescerão — como as de 2013, a ponto de serem um elemento definidor do humor do brasileiro durante a eleição — e qual público conseguirão atingir, restrito ou não à esquerda”. Tais questões apenas serão definidas com o tempo. As manifestações espontâneas mobilizaram milhares de brasileiros, mas ainda não se sabe se tal movimento terá vida longa nas ruas.

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