Política

Promotores investigam se Flávio Bolsonaro “lavou” R$ 638 mil de “rachadinha” com imóveis

Investigações contra filho do presidente Jair Bolsonaro avançam após fim de suspensão estabelecida pelo STF

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SÃO PAULO – Três semanas após serem oficialmente retomadas, as investigações contra o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, voltaram a avançar, com mandados de busca e apreensão contra alvos vinculados ao parlamentar em operação deflagrada na última quarta-feira (18) e indícios de irregularidades apontados por membros do Ministério Público do Rio.

Desta vez, as operações de compra e venda de dois apartamentos em Copacabana realizadas por Flávio Bolsonaro e sua esposa, Fernanda Bolsonaro, entraram de vez no radar dos investigadores, com suspeitas de “simulação de ganhos artificialmente produzidos” de R$ 800 mil.

Os recursos, na avaliação da Promotoria, podem ser oriundos de “rachadinhas” no gabinete do ex-deputado estadual na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro). A parte consiste na coação de funcionários na devolução de parte do salário para o parlamentar.

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Os investigadores apuram se o americano Gleen Howard Dillar vendeu os imóveis ao casal com subfaturamento e se houve repasses de recursos “por fora”.

Conforme eles apuraram, o casal comprou dois apartamentos em Copacabana, em novembro de 2012, por R$ 140 mil e R$ 170 mil. Um deles foi revendido um ano depois, por R$ 573 mil — o equivalente a 237% de lucro. O outro, em fevereiro de 2014, por R$ 550 mil, gerando lucro de 292%. A valorização imobiliária média na região não superou os 11% no período.

O relatório do Ministério Público que deu origem à última operação afirma que Flávio Bolsonaro depositou R$ 638.400 em dinheiro vivo na conta de um corretor. A suspeita é que a movimentação foi usada para “lavar” recursos obtidos por meio de operações ilícitas.

Na última quarta-feira (18), agentes cumpriram 24 mandados de prisão ligados à apuração sobre a prática de “rachadinha”. Além do senador, também foram alvos seu ex-assessor Fabrício Queiroz e Ana Cristina Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro.

Um dos alvos da operação foi a franquia da Kopenhagen do senador no Shopping Vila Parque, na Barra da Tijuca. Um relatório do antigo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) — atual UIF (Unidade de Inteligência Financeira), hoje vinculada ao Banco Central — cita oito transferências da franquia, que o senador detém 50%, somam R$ 120 mil entre agosto de 2017 e janeiro de 2018.

Segundo o MP, recursos desviados da Alerj também podem ter sido lavados por meio da franquia da loja de chocolates. Os promotores alegam que o casal não tinha “lastro financeiro” para bancar a aquisição e operação da unidade e que o estabelecimento teria proporcionado retornos “absolutamente desproporcionais” ao casal.

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Os investigadores suspeitam de um possível uso do empresário Alexandre Ferreira Dias Santini, sócio de Flávio, como laranja para acobertar as operações. “Como Flávio e Fernanda Bolsonaro não possuíam fontes de receitas lícitas para custear sequer a metade do investimento para aquisição e operação da loja Kopenhagen, a informação de que o administrador Alexandre Santini teria dividido os custos do empreendimento pode ter sido falsamente inserida nos contratos com a finalidade de acobertar a inserção de recursos decorrentes do esquema de ‘rachadinhas’ da Alerj no patrimônio de Flávio Bolsonaro sem levantar suspeitas”, acusa o MP.

Os promotores também apontam valores repassados aos sócios travestidos de lucros e dividendos da franquia. Também foi observada uma discrepância de recebimentos em espécie, entre 2015 e 2018, sem proporção com o faturamento da loja de outros meios de pagamento. “Embora o volume de vendas na quinzena da Páscoa seja muito superior ao verificado no restante do ano, o volume de dinheiro depositado em espécie na conta da Bolsotini não variou na proporção das vendas aferidas de outros meios de pagamento”, pontuam.

Outro eixo das investigações aponta para as contas bancárias controladas pelo ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega, foragido sob a acusação de integrar uma milícia. Segundo os promotores, há indícios de que as contas foram usadas para abastecer Fabrício Queiroz no suposto esquema de “rachadinha”.

Eles afirmam que a esposa do policial militar, Danielle Mendonça da Nóbrega, ex-assessora do atual senador, devolveu ao menos R$ 150 mil do salário que recebeu de 2007 e 2018 a Queiroz. Deste total, R$ 115 mil foram repassados por intermédio de contas bancárias controladas por Adriano.

Nova ofensiva da defesa

Após as investidas dos investigadores, os advogados do senador buscam no Supremo Tribunal Federal uma nova tentativa de suspender as investigações. Eles alegam que as provas que justificaram a operação foram obtidas de forma ilícita e pedem o trancamento da investigação contra o filho do presidente Jair Bolsonaro. Tanto o pedido no STF quanto o inquérito no Rio de Janeiro estão em sigilo.